sexta-feira, 16 de março de 2012

E do riso fez-se um outro

Quer dizer, o momento era sempre notado por mim. Como um flash imperdível, os meus olhos sempre tiravam a foto daquele seu sorriso, tão típico e tão único, que não dava o ar da graça todo dia. Só de madrugada, com uma meia luz ligada, com nenhuma preocupação e ninguém presente além de nós três. Eu, você e a nossa felicidade, que de tão forte e compartilhada, se fazia como um terceiro a brincar de plantar sorrisos em nossas bocas. E o seu se fazia sempre daquele jeito memorável. Era um riso frouxo. De quem curte uma paz que toma logo o corpo inteiro, relaxa os músculos e a respiração, a ponto de o sorriso, grande palco da nossa felicidade humana, ter preguiça de sair. Não por falta de motivos, mas pela paz que aparecia quando estávamos juntos. E então, eu via os ângulos da boca se afastando devagar, as rugas tomando o seu papel de rugas e os dentes, bem tímidos, surgindo pouco a pouco. Depois, com os olhos meio baixos, você completava a cena com um grande suspiro demorado, sem maltratar o ar que te alimentava naquela hora.

Por fim, esse sorriso, como se já não tivesse me causado um grande leque de efeitos, ainda ousava provocar outro bem bobo no meu rosto.
Raro, trabalhado e, de fato, bonito, esse seu riso preguiçoso é uma das coisas na vida que me atingem a alma sem pedir licença.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Nosso Carnaval

Ninguém chora, não há tristeza. Saímos na rua sonolentos do dia anterior e felizes pelo dia que se inicia. Passamos por príncipes, princesas, palhaços e bailarinas. Abelhas e joaninhas, confetes e serpentinas. Fadas, smurfs, mascarados e mascaradas. Palestinos abraçando israelenses e tem também a melindrosa, a cigana e o jogador. Entramos no clima vestidos como der na telha. Qualquer personagem que tire de nós o peso de sermos nós mesmos por um longo período de tempo. É no Carnaval, então, que vestimos a camisa da felicidade, e saímos nas ruas rindo do calor, do trânsito, dos pisões e empurrões, do banho de cerveja e até do dinheiro curto no fim do dia. É no Carnaval que brincamos com o motorista, com o policial e com o vendedor. E não há sorriso que se aguente sério nessa época do ano. Não se chora por ninguém quando se corre atrás do bloco, e quem sabe não se encontra um amor desses por aí.
E com a voz rouca, a cerveja gelada e os pés já doendo de andar, brindamos juntos e cantamos em uma só voz como a vida é bonita.
O Carnaval não é irresponsabilidade, corpo mole e nem mais um feriado no qual comemoramos o tempo livre do trabalho. Mas é sim uma forma de celebrarmos o sorriso. 
E aí, assinamos todos, num consenso facilmente conseguido, nosso contrato com a felicidade, tendo a certeza de que vale a pena rir por nada.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fim de tarde

De fato, a minha felicidade dos fins de tarde em Ipanema era inegável. Quer dizer, não tínhamos lá muitas preocupações quando nos víamos. Simplesmente, assinávamos nosso contrato de paz e harmonia e íamos curtir o fim do dia como havia de ser. Depois de nossos problemas pessoais diários, como qualquer ser humano que se preze, alguma sintonia se instalava e ríamos juntos de qualquer bobagem dita. Sim, porque eu era espontânea e bem risonha perto de você. 
E não havia cobrança. Só um companheirismo gostoso de se viver, suas ondas e meu bom livro ali por perto. E então o tempo voava. Como se sentisse inveja da nossa descontração, o tempo tratava de correr e, depois, quando eu me via sozinha, uma pontinha de saudade me fazia confusa e feliz.
Gostávamos de samba, de uma boa cerveja gelada, de comida japonesa, de festas e de gente, de praia, de mar e das tardes do Rio.
Alguns pontos se desencontravam, porque coisa perfeita é sempre chata demais.

E então, quieta no meu canto, eu desejava em algum subconsciente desses aí (que a gente não sabe muito bem explicar do que é feito), que você e sua leveza estivessem por perto. E que, enquanto fosse bom assim, eu pudesse tomar minha dose de você e causar alguns sorrisos enquanto fosse capaz. Já que os meus, agora, brincavam no rosto sem que eu nem me esforçasse pra isso.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Por VOCÊ.

Se eu fosse escolher um único bem pra guardar numa caixinha trancada a sete chaves, escondida que nem ouro, valiosa como nunca se viu, seria a minha CONFIANÇA.

Cansada de andar por armadilhas, minha confiança hoje clama por valor.
Pede que eu cuide dela como deve ser cuidada. Que não mais a distribua. Que pense 5 vezes antes de apresentá-la a alguém. 
Minha confiança é o aval pra que eu vire transparente.

E quando somos transparentes, os opacos fazem a festa.

Dizem que a vida é correr riscos. Que se deve mesmo é acreditar. Fechar os olhos e ir.
Mentira, eu penso.

Não vale a pena pular em um mar lindo na superfície pra cair nas pedras lá do fundo.
Não vale a pena cheirar a rosa mais perfumada se for pra se furar nos espinhos.

Não vale a pena entregar sua confiança a tudo que se vê por aí.
Cuide-se. 
Confie em você.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Primeiro de Janeiro

E nesses meus dias de paz e vida mansa, eu também parava pra observar, como alguém que assiste a um filme, de que modo estava minha cabeça agora.

A resposta vinha logo: uma verdadeira bagunça, por assim dizer.

A cabeça, que sempre fora mestre em me livrar das atitudes passionais de menina, agora estava um embaralhado só. Quando entra em conflito extremo com o coração, dá mesmo pane no sistema. E dessa vez, era pra valer. Na verdade, não é de agora. A bagunça dentro de mim ficou como parasita, fugindo do baú de coisas chatas que a gente deixa no ano que passou, toda vez que, do último dia do ano, fazemos nascer uma nova vida. Cobra troca de pele, cigarra de esqueleto, e nós, como bons sonhadores, trocamos de vida a cada 12 meses.

Pois bem, eu não poderia começar o ano assim. Ainda com a ânsia de quem se deslumbra exageradamente com o mundo...com as coisas boas da vida. De fato, a bagunça a que me refiro é essa. Minha ambição e vontade de tudo ao mesmo tempo. Quero sair vestida de todas as cores, ver todos os rostos num só dia, provar de todas as comidas que puder e ouvir todas as vozes no celular. Quer dizer, perseguir prazeres, todo mundo faz. Mas conciliá-los é uma forma de usufruir da coisa ao máximo, e não de deixar de aproveitar a vida, como pode parecer aos hedonistas.

Enfim, quero pausa e organização. A pausa eu já tive, das grandes até. E a organização das minhas vontades e objetivos será o primeiro item da lista que ainda venho confeccionando. Sim, eu sei. Todos começam o ano com seus planos armados, vestidos da cor que lhes parece condizente com os desejos mais intensos. Verde é esperança, amarelo pro dinheiro...etc. Então, esse ano eu menti. Pulei as 7 ondas sem sequer ter um desejozinho que me tocasse lá no fundo, além dos clássicos "saúde, paz e sucesso".

Ta aí. Que eu pare de querer tudo ao mesmo tempo e espere a clareza chegar, que nem criança comportada.

Nenhuma cigarra pode crescer se não adquirir um esqueleto novo.
Por que meu ano deveria começar antes de acatar uma nova meta?

Feliz ano novo.








terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Feliz por nada

Meus dias agora eram assim. As minhas preocupações beiravam o ridículo. Eu tinha que estar atenta se a minha cadeira estava bem posicionada sob o sol ou se a cerveja estava gelada o bastante para acompanhar as lindas tardes do Nordeste. Me preocupava se a foto havia saído boa ou se aquela mensagem que eu tanto esperava de você já havia chegado. Sim, porque tinha você. Do nada. Como parte do pacote de verão deste ano, pra me trazer mais sorrisos e um bocado de saudade, diga-se de passagem. E minhas tardes se sucediam com muita paz, tranquilidade e um tanto de ansiedade pra receber qualquer sinal de fumaça seu. E você se encaixava perfeitamente no que eu agora escolhia como parte de minha felicidade. Estar feliz pelo simples motivo de motivo nenhum.
Martha Medeiros, autora do livro cujo nome é o título desse texto disse bem: 

"Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria".

E eu tinha todo o compromisso do mundo agora. Com hora marcada, contrato assinado e reuniões diárias com o sorriso mais sincero que existia em mim.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Novo

Em nome de toda a felicidade, de todo o sorriso que meu rosto estampava agora e das chuvas de verão que tentavam refrescar o Rio, eu aplaudia a vida de pé. Era bom sentir de novo a sintonia. O fluir dos dias na mais perfeita paz e satisfação pelo quanto a vida tinha me acrescentado nesse ano tão atípico. E eu me sentia seguindo à risca o tal clichê "ano novo, vida nova" porque, de fato, me deixava invadir pelo ar de renovação.
E, se você ainda me lê, saiba e lembre que eu devo a você metade de todo o choro e todo o riso desses dias. E que não te falte nunca dias bons e produtivos. Nem carinho. Nem sorriso. Até dor, bem de levinho. Porque não há prazer nesse mundo que se sustente sem a dor.

Dá saudade em mim, confesso. Dói um pouco a sua ausência. Mas é impossível estar vazia com a vida se ajeitando.
Nenhum amor pode ser maior que o amor próprio.
E esse, agora, aflora como eu nunca assisti antes.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Apesar de você

"Apesar de você...", eu seguia dizendo. E parava a frase sempre no mesmo ponto. No início, quando eu tentava completá-la, não fazia sentido algum. Algo como: " Apesar de você, a felicidade foi embora". " Apesar de você, a saudade tem me arranhado o peito". Simplesmente, a tristeza não me deixava pensar. Não permitia coerência da fala. Não me deixava olhar pra frente, nem pra cima. Era só chão e chão. E quando eu conseguia voltar os olhos lá pro céu, via era chuva em dia de sol.
Até que um dia, a chuva deu uma trégua. No outro dia, nem sequer apareceu. E dias e dias se seguiram. Eu parei de reclamar. E outros sorrisos viram, então, terreno fértil pra se aproximar. Outros rostos, outras vozes. "Apesar de você, a vida segue", falei como que por impulso. "Apesar de você, eu ainda rio sem motivo".

Veja bem, o amor não foi embora. Ele só muda de cara, e se adapta a cada par que chega de mansinho pra adoçar a nossa vida. Nunca fomos um do outro. Vida e corpo, sempre nossos. As pessoas vão embora. O amor fica inteirinho. Prova disso é a saudade que aperta e torce a garganta. Mas tem nada não. Sem amor, não vale a pena. E quando dói demais, alguém dentro de mim fala ou canta novamente:

"Apesar de você, amanhã há de ser outro dia"

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sob medida

De novo, voltava na mesma ideia: no dia em que resolvesse parar de esperar dos outros e da vida, talvez ela conseguisse exatamente o que precisava. Seu problema estava sempre no excesso de expectativas. Esperava sol no domingo, esperava flores naquela data importante, esperava chuva do céu cinza e esperava colher tudo o que plantava. O estranho é que as vezes colhia uns espinhos em vez das flores que tanto queria. Esperava o amor e tomava era uns socos. Esperava calor e morria de frio. Esperava alcançar a linha de chegada e ficava sempre por um triz. Não entendia como a vida podia não dar a ela os frutos inteiros do seu esforço. Talvez se cobrasse demais, era o que diziam. Talvez duvidasse demais, diziam também. E ela se afogava no seu próprio oceano de cobrança. Quanto maior a expectativa, maior seria o tombo.

E no dia em que resolvesse viver o presente em vez do futuro (que, por sinal, ainda não existe), aí sim talvez a vida viesse feita sob medida pra ela. 

sábado, 19 de novembro de 2011


"A única preocupação será, então, o cuidado pra não cair na rotina", dizia ela, firme e decidida.
Queria mesmo sentir na pele a imprevisibilidade da vida. Andar por aí sem esperar nada, deixando-se surpreender como uma criança que arregala os olhos quando vê uma lagarta listrada. Deixar por conta do vento o estilo do cabelo. Sair de casa entregue ao dia e ao seu estranho itinerário em tempo real. Não traçar no papel o caminho a ser feito, mas confiar que de alguma forma ele vai se fazendo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

E você tentava falar, e não saía nada. Falava, falava. E não falava nada. Se no outro dia você havia falado demais, agora o que imperava era o silêncio, alguma culpa e muita fuga. Me pego pensando, às vezes, que diabos eu estava achando que você poderia me dar. Nós, dois túmulos fechados sem o menor traquejo em expressão. Mas o problema não era bem esse. Se usássemos sinais, escrita, códigos, o que fosse, ainda assim não nos entenderíamos. Você havia falado um mundo naquele dia e, agora, não sabia o que fazer com o que havia criado. Só sabia fugir e se afastar da responsabilidade. Colocando no meio uns traumas passados pra dar aquela caprichada. Enquanto eu, quieta no meu canto, observava a cena sem acreditar. Talvez risse um pouco, dentro de mim. Ria da minha falta de experiência. Pois eu agia como menina ao confiar em você, achando bobamente que a regra de só confiar em si mesmo mudaria por acaso nessa vida de armadilhas. 
Então tá. Amanhã logo passa e eu sigo de novo com meu pé atras.
Já você seguiria com o peso da imaturidade, do medo de mergulhar e com aquela cobrança excessiva da qual tinha me falado, que talvez acabasse se você prometesse um pouco menos.

Ou, então, seguiria sem peso nenhum. Nem sei mais o que se passa na sua cabeça. Vai ver não passa nada.
Abro mão de pesquisar.

domingo, 23 de outubro de 2011

Dois cafés e a conta

Era engraçado ver como o tempo havia passado. Por fora, você havia mudado. Por dentro, eu nunca saberia. Já de mim, eu falava das mudanças interiores. Enquanto por fora, era ainda igualzinha. Tudo bem, ainda era tímida e desajeitada. Pois se não ficasse vermelha (roxa, azul, quem sabe) e não deixasse cair o café um pouquinho que fosse, definitivamente não seria eu. E falávamos da vida. Da vida de agora e alguns flashes da de antes. E eu ria. E te fazia rir com as coisas mais bobas que fossem. Andaria pelas ruas do Leblon quanto tempo quisesse. Porque o tempo, na verdade, nunca andava no seu ritmo normal quando eu estava com você. Saía correndo tresloucado, como se tivesse raiva da nossa descontração. E era assim. Em algumas horas era impossível eu te contar todos os detalhes do que eu pensava agora.
Todo mundo espera muito de sábado à noite. E eu não esperava muito mais do que um bom papo como aquele. 
Mas, se tivéssemos tempo pra uma cerveja, eu faria um brinde.
A você, todo o meu carinho.
E a mim, mais doses de maturidade como as que a vida vinha me oferecendo.

domingo, 16 de outubro de 2011

Esconderijo

Eu não queria voltar por nada. A chuva de São Paulo, os cimentos de São Paulo e o movimento de São Paulo nunca foram tão acolhedores, tão o meu lugar. Aí eu penso direito e vejo que o meu lugar, atualmente, poderia ser também Guaporé, Timbaúba, Conchinchina ou Paris. Qualquer lugar que não fosse minha casa, e que não tivesse os trejeitos da cobrança. Eu poderia ficar aqui, tranquilamente, existindo. Invisível, longe desse mundo um pouquinho que fosse. Talvez só sobrasse meu interior para estar à vontade. E aí eu vejo que nem aqui dentro eu vou dormir tranquila. Definitivamente, meu corpo não era o melhor lugar para estar agora.

No fim das contas eu não estou em lugar nenhum. Me escondi por aí e não faço a menor ideia de onde eu possa estar andando.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Relicário



E se há algum vínculo, eu vou lutar por ele. Vou querer saber de você, da sua vida. E quando te vir passando, ainda vou sentir o frio na barriga. Não é porque o amor foi embora que nós, enquanto carinho e bem querer, temos que ir também. Aquela tênue ligação, frágil como a linha de um telefone sem fio, vai ser protegida por mim todas as vezes que eu sentir a sua voz indo pra longe. Me falta ar toda vez que penso na memória indo embora. Não deixe que vá.
Eu e você somos duas lembranças que o tempo não há de tocar. 

domingo, 25 de setembro de 2011

Corrida

Eu costumava pensar que tudo na vida que mexe muito com a gente precisa de um tempo pra ir embora. Não é mágica, não é piscar os olhos e nem acordar no dia seguinte pra nos vermos livres dos pensamentos. 
A questão é, então, por quanto tempo trabalharemos pra ir tirando aos poucos aquilo de dentro de nós. Dose homeopática, eu sei. De pouquinho em pouquinho. Que nem criança pra tirar um curativo...não consegue puxar tudo de uma vez só. Ainda que tenha que sentir cada pontadinha de dor espaçadamente. Pois bem...eu estava indo aos poucos. Permitindo que minha cabeça e coração tomassem seu tempo.
Acontece que um dia cansamos.
Nos vemos suspirando por aquilo que um dia era a razão de nossa disposição.

Simplesmente, então, abrimos mão. Paramos de correr. E sentamos no meio-fio. 
E pela primeira vez não há choro.
Nó na garganta.
Nem nada.

É algo parecido com quando vamos pegar um ônibus parado no ponto à distância. Ele acelera, sem esperar. Então corremos atrás. E corremos. E corremos. E corremos...
Até que, um hora, simplesmente paramos. Voltamos pro ponto e esperamos o próximo.

Acho que me sinto assim agora.
Parando de correr.
E, incrivelmente, sem a sensação de derrota. 
Eu pensava que toda desistência era sinal de derrota.

Dessa vez não...
Eu estava serena.
Com a tranquilidade que tanto havia procurado.
E justamente quando paro de procurar por ela, ela vem cair na minha mão. Me alisar o cabelo. Enxugar o suor. E me abraça forte, finalmente dizendo baixinho:

"Tudo bem, meu bem."

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

E aí você entende que ainda tem suas próprias pernas. Não está impossibilitado de caminhar sozinho nem doou sua autonomia pra ninguém. Lembra de se colocar de novo em prioridade, de onde nunca deveria ter saído. Lembra também que as dores não são eternas...e, no fim das contas, por trás de todo o drama e choro, você ainda sabe andar sozinho. Tá, talvez falte alguns pedaços, talvez seja um esforço descomunal. Talvez, no início, seja só mecânica mesmo essa coisa de seguir em frente. Mas funciona. De algum jeito vai. 
De algum modo você entende (duvidando muito, mas entende) que o coração não parou e você ainda é dono de si próprio.
Nessa hora é que a vida se sente segura, finalmente, pra mostrar as surpresas que ainda guarda pela frente. 
E dá seguimento ao seu processo de cura.

Te provando, mais uma vez (porque você teima em esquecer), que nada que aconteça com você vai, um dia, conseguir ser maior que a imprevisibilidade da vida e a sua admirável capacidade de auto-renovação.

sábado, 10 de setembro de 2011

Calmaria

Deitada num deck da Lagoa Rodrigo de Freitas, eu contemplava minha vida esparramada na madeira do meu lado. Cada passo dado por quem chegava pra observar a vista estalava nos meus ouvidos. Do meu outro lado, alguém sentado num long também curtia a serenidade daquele lugar. Um time de remo cavava as águas ao longe e em alta velocidade. Uma criança se aproximava da ponta do deck e, correndo logo atrás, vinha a mãe em desespero, segurando a bola, o carrinho e deixando cair a pipoca. Um casal passava em um pedalinho. Uma família tirava fotos. O cristo se encobria por neblina, provavelmente frustrando os turistas e suas máquinas. O mormaço da manhã aquecia meu rosto. E minha respiração acompanhava a oscilação da plataforma.

O mundo inteiro acontecia.
E eu, deitada sobre o Rio de Janeiro, não ousava emitir nenhum ruído, pra deixar a vida repousando como estava. Os ruídos de fora não atingiam o silêncio da minha mente.

Um vendedor se aproximou. Vendia quebra-cabeças de raciocínio constituídos por umas pecinhas de metal, presas umas às outras.
- Moço, deixe primeiro eu resolver o problema aqui da minha cabeça, que depois compro outros pra me ocupar.
- Mas esses estão num preço ótimo. Faço desconto.
- Tenha certeza de que o preço não é a questão. Esses aqui da minha cabeça têm me custado caro demais, e ainda assim eu tento resolver.

Ele riu. E saiu.

A sintonia com o lugar continuava. Minha vida não acordava por nada.
Talvez quisesse mesmo esse tempinho de paz, cansada que estava.
E eu poderia ficar ali deitada.
Até que finalmente começasse a fluir.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Para um breve talento

Eu seguia tranquila, sabendo que o coração já estava em outra direção há tempos. Agora apenas confirmaria. Seguiria firme, corajoso e sem receio pra buscar o novo, pelo qual já pedia há tempos. 

Colocando o tênis e já com a mochila nas costas, pronta pra sair de uma vez por todas, eu olhava uma última vez pra trás. E lamentava, de certa forma, não o fim das coisas, pois tudo na vida vira pó. Mas o potencial do que tínhamos, comparando ao fim que levou. Que nem aqueles artistas que deslumbram o mundo com sua voz e de repente vão embora, de um dia pro outro, carregando nos seus 20 e poucos anos toda a intensidade de uma vida passageira.

No fim, depois de muito discutirmos pra ver quem ganhava o troféu (ou razão, como queiram), eu soltei a corda. Deixei você seguir com o que quer que você quisesse nas mãos. Que nem criança quando chora muito, damos um brinquedo qualquer, ou alguma coisa que ela esteja fitando, e pronto, temos paz e silêncio. 
Junto com o troféu do qual você tanto fazia questão, levou também uma coisa pela qual eu não lutei. E, infelizmente, você não conseguiu descarregar por aí, em qualquer esquina. O peso na consciência. Esse, só de não levar pra casa (ou vida, como queiram), eu já estava realizada. 

Talvez pertencesse mesmo a você. E não se encaixasse em nenhuma estante (ou cabeça, como queiram) que não fosse a sua.

Uma pena, eu dizia pra mim mesma. Segura por confirmar, mais uma vez, que confiança é algo raro. E não se acha por aí. E finalmente, quando eu cansei de procurar em você, você me provou que não existia.
Eu diria que você apressou a nossa morte como um artista às vezes apressa a vida nas drogas. Mas ele se eterniza. E nós não.

Depois do fluxo de consciência, eu fui embora. Seguir a luz que a vida me acendia. Porque sempre acende.
E você pensando que iria conseguir apagar todas.

Tudo bem. Conseguiu.
Mas não foi na minha vida.



sábado, 27 de agosto de 2011

                                                                                                                                                             
"Se o homem não sabe a que porto se dirige,
nenhum vento lhe será favorável."
(Lúcio Anneo) 

Não, não há como continuar andando sem ter algo pra alcançar. Meta, objetivo, ideal, como queira chamar, é o que move o indivíduo mais cansado pra frente; é o que faz com que as pernas, que parecem não mais aguentar o peso do corpo, continuem andando, quase como um milagre.
Você não precisa começar do grande para estipular metas. É difícil, pede tempo e paciência. Pede força de vontade e tudo aquilo que te faz vasculhar o seu interior, de cima a baixo, fazendo-o duvidar de que o que você procura pode realmente estar dentro de você. 

Comece pelo simples, então. Que nem naquelas horas nas quais você se incomoda com o sedentarismo, respira fundo e toma a difícil decisão de que aquele é, finalmente, o dia de dar uma corrida na praia. Então...as metas precisam sair pra correr com você, ou nada feito. Elas aparecem, assim, da forma mais simples possível, mas não menos desafiadora. Algo como: " não paro até chegar naquele posto" , ou "só depois do prédio vermelho pra poder beber água". E assim vai. Pontos demarcados no seu trajeto e você não para até que passe por eles. O corpo grita de cansaço, só que o seu objetivo vai além desses detalhes.

Quando pequena, pra recortar uma folha de papel, eu gostava de fazer um risquinho no fim da linha imaginária que minha tesoura percorreria. Então, assim que começasse, não podia olhar pra mão, nem pra tesoura, nem pra nada que não fosse aquele risquinho parado ali, marcando a linha de chegada, esperando pra ser atingido. A linha saía. E com os errinhos mais tênues que você pode imaginar. Uma curvinha aqui, outra ali, mas nunca uma interrupção. Era meu objetivo o risquinho lá parado, e eu não sossegaria a mão antes de alcançá-lo.

Acredito que a vida tem dessas coisas também. Uns pontinhos que significam as suas conquistas pessoais. Não importa o que seja. Terminar um livro, ganhar uma corrida, acertar o gol, zerar o videogame, fazer alguém parar de chorar ou até se tornar um grande médico. Qualquer objetivo é válido desde que faça você caminhar. 

E não vale parar até passar daquele poste.





sábado, 20 de agosto de 2011

Eu, você e a chuva. De vez em quando eu deixava meu ombro molhar só pro guarda-chuva te proteger por inteiro. Pegava no seu braço e te trazia pra perto. E andávamos com pressa e em silêncio. O silêncio ganharia de nós em conteúdo se tentássemos abrir a boca. Finalmente, quando cheguei em casa, deixei você se acomodar. Água, bolo e demais cerimoniazinhas de praxe até eu lembrar que a casa sempre foi sua. Sentei na sua frente. E começamos a falar, sufocados pelo peso do ambiente. Eu procurava no seu rosto, desesperadamente, alguma coisa que fizesse, em 2 segundos, todo o nosso sonho voltar pra gente de novo. Mas não voltaria. Dali em diante eu teria que ser forte. Minhas lágrimas vieram antes. As suas apareceram depois. Mas no fundo competíamos, de igual para igual, pra ver que coração estava correndo mais risco de vida. Eu tinha, em mim, uma caixinha com motivos pra pensar que o sentimento nunca foi o dono de toda a verdade, de toda a festa. E dessa vez ele havia me deixado na mão. Eu queria proteger você por inteiro dessa dor que toma o peito e a garganta, que deixa o olho vermelho e embaça a vista a cada minuto. Mas eu não poderia. Precisava, primeiro, era cuidar de mim. E dizer pra você o que a vozinha de dentro de mim sempre me diz: "olhe, vai passar. Sempre passa."