terça-feira, 18 de junho de 2019

Meu barco

Nunca contei a ninguém, mas eu conduzia um barco. Por vezes, precisei consertá-lo sozinha ao longo do ano de 2018. A gente tem que ser meio mecânico, bombeiro, eletricista mesmo. A vida volta e meia quebra no meio e fazemos pequenos ajustes que nem sabíamos ser capazes.

De repente, foi ficando difícil navegar. Eu não aguentava mais resolver os pepinos pra continuar viajando e, com medo de qualquer tempestade destroçar o meu barco mal acabado, passei a abrir mão dos momentos de descanso para estar atenta. Estive atenta, porém, um barco meia-boca não aguenta as brincadeiras de mau gosto do mar.

Um dia, percebi que se eu parasse de aparar as arestas, de fazer reparos e de me preocupar, ninguém notaria, pois eu estava sozinha e o barco era meu. Parei, então, e logo de cara o mar cresceu e virou a embarcação e suas gambiarras água adentro. Era um mar oportunista, que aguardara sorrateiro o meu barco enfraquecer. O mar só respeita os fortes e, vendo que eu não podia mais lutar contra ele, me trouxe pra dentro dele, pensando que era o único lugar do qual eu pudesse fazer parte agora.

Caí num gelado lancinante e, diferente dos outros, não lutei contra. A adrenalina não correu nas minhas veias e deixei que o gelo azul me tirasse a sensibilidade dos pés e das mãos. O que o mar queria de mim? Um coral de carne e osso atapetando as profundezas? Não sirvo, não quero. Os corais possuem vida! Os corais fazem por onde. O mesmo mar que quis me tirar do mundo não tem um lugar pra mim no seu fundo. Eu flutuo, então. Eu escolho pra onde vou. Meu protesto é flutuar. É estar sem estar em lugar nenhum.