segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Geometria

O lado ruim de viajar é que a cabeça e o coração se expandem tanto que passam a esbarrar nas paredes dos corredores estreitos da rotina.

Às vezes, gostaria de voltar à infância por 1 dia e brincar novamente com aquelas peças geométricas que se encaixavam em buracos com seus respectivos formatos. A cada perfeito encaixe encontrado, alguém comemorava ao fundo, aplaudindo com sorrisos o pequeno-grande feito.

Hoje, esbarrando vértices pontiagudos nas pequenas ruelas da mesmice, não sei que peça sou. Nem que lugar contém o meu formato, pr'eu deitar e comemorar a beleza que é viver.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

"Rema, que tá vindo"

Houve uma época em que eu resolvi aprender a surfar. Apesar de amante dos esportes, eu não levava jeito pra coisa e isso fazia a minha experiência com o surf ser bem diferente de outros alunos. A maior dificuldade e o grande foco do meu surf não era ficar em pé na prancha até o final da onda nem fazer alguma gracinha no trajeto, mas conseguir retornar para o local de origem quando a onda acabava. Por mais bobo que isso possa parecer, terminar a onda e voltar lá pra onde estavam todos era uma experiência tenebrosa e, não à toa, eu me lembro até hoje.

Quase sempre, na hora de voltar, a famosa "série" aparecia. Para quem não sabe, isso é uma sucessão de ondas, um tanto maiores do que as usuais para o dia, que vem uma atrás da outra, com um mínimo intervalo de tempo entre elas. Nesse conturbado retorno, acontecia de algumas ondas da série quebrarem antes de eu conseguir ultrapassá-las, o que trazia até mim uma violenta e espessa espuma, arrancando a prancha do meu corpo antes que eu pudesse mergulhá-la e evitar o susto. Mas não termina por aí. Uma vez que eu conseguia voltar para o resto do grupo e sentar novamente para descansar, com os ouvidos e a garganta repletos de água salgada, o professor (o mesmo cara que havia me ajudado a entrar na onda, mas pouco podia fazer pelo meu retorno até ele), de repente, falava o que eu odiava ouvir: "rema, que tá vindo". E saía remando em direção ao horizonte. Sim, mais uma dessas séries começava a se formar e o que você tem que fazer para não ser levado pelas ondas é remar contra elas como se não houvesse amanhã. Nesse momento, o maior desafio para mim estava lançado. Rapidamente eu deitava, posicionando o peitoral no ponto da prancha onde haviam me ensinado, já tremendo os braços, com o coração a mil. E aí, com o sangue inundado de adrenalina, ofegante e com os olhinhos arregalados, eu começava a remar rumo ao paredão de água que subia na minha frente. À medida que subia, a água da onda ia formando uma sombra sobre si mesma, tornando aquele cenário ainda mais assustador. Todos se separavam, remando cada um à sua maneira e velocidade, sendo o barulho dos meus braços puxando a água com força o único ruído que eu podia ouvir. De repente, quando parecia que não ia dar tempo de alcançar a crista da onda antes que ela me alcançasse primeiro, eu já estava lá no topo, vendo-a escorregar por debaixo da prancha. Esse momento era o mais gostoso pra mim. Enquanto todos se recompunham sentando novamente, como se nada tivesse acontecido, eu dava o suspiro mais aliviante do dia, sentindo a prancha descer a colina de água que eu havia deixado para trás. Orgulhosa de mim, com o troféu que só eu conhecia, eu amava a descida gostosa que vinha logo depois do sufoco, recebendo os respingos da crista da onda que o vento trazia pra refrescar os que não desistiram.

Você deve estar se perguntando por que eu ainda insistia em frequentar aulas de surf diante do estresse que aquilo me causava. É porque nas aulas de surf, ali dentro d'água, a única resposta que podíamos dar ao medo era remar rumo à origem dele e ultrapassá-lo antes que ele crescesse demais.
Curiosamente, no pico do sufoco, ali no auge do cansaço, com os braços já fracos de dor e sem a alternativa de parar, era também o momento no qual eu estava mais no alto e já podia abrir um sorriso cansado comemorando o que, pros outros, era normal.

Eu abandonei as aulas de surf por falta de tempo. Mas gosto de dizer que nunca parei de surfar. Volta e meia, numas semanas difíceis dessas, nas quais cada dia é uma onda da série, eu tento parar um pouquinho para me posicionar na prancha, lembrando com saudade do desenho que faziam na areia lá nos meus 14 anos (e eu fingia não entender só pra ficar mais tempo sem precisar entrar na água). Depois, só há uma direção para que eu reme sem poder voltar atrás. E então, as horas de maior desespero e suor se tornam, também, as de maior crescimento. 



sexta-feira, 26 de maio de 2017

Muro

Um dia, há muito tempo, fui injustiçada. É, bem direto assim mesmo. Escolhi mal as companhias, desperdicei oportunidades de sair fora e, por fim, fui injustiçada. O que se sucedeu a isso foi o nascimento, em mim, de um pequeno monstrinho, a princípio inocente: o sentimento de vingança. 

A partir daí, eu passei a imaginar situações hipotéticas por meio das quais a tal justiça poderia ser feita. Quer dizer, dar o troco era um objetivo claro e único, capaz de produzir as coisas mais malucas que a imaginação possa criar. Eu pensava, por horas e horas (sem notar) em como seria bom se, de repente, houvesse a oportunidade de estar no lugar certo, de frente pra pessoa certa e pôr um fim naquela pendência de uma vez. Cheguei, por vezes, a pensar em quem poderia estar comigo nesse dia, mas depois desisti e voltei a me querer sozinha. O sentimento de vingança é uma espécie de droga alucinógena que, por meio do pensamento (ou de ações nos casos de dependência grave), faz a gente acreditar que as hipóteses ali criadas são boas e aliviantes, não sendo possível identificar seu potencial destruidor nem observar a cadeia sem fim que integram, já que nunca é suficiente apenas uma ideia isolada.

De repente, comecei a notar que grande parte do meu tempo estava sendo doado para o sentimento de vingança e, por nunca realmente concretizar nenhum dos pensamentos de dentro de mim, eu passei a não conseguir mais administrá-los sozinha. Acho até que concretizar qualquer coisa maluca que eu chamava de "fazer justiça" iria, na verdade, evoluir o monstrinho-pokemon da minha cabeça e, talvez, nunca mais me deixar em paz - mas isso é outra história. Não conseguindo, assim, guardar só pra mim, resolvi revelar os efeitos da minha droga-vingança para uma amiga. Contei tudo o que tinha acontecido e o que meus dias haviam se tornado depois disso, mas tentando convencê-la de que a única coisa a ser feita em prol da paz interior era ir lá e devolver na mesma moeda.

Sabe, o sentimento de vingança corrompe o puro e nobre sentimento de justiça. A vingança pinta a justiça de preto e faz essa coisa tão grandiosa e necessária adquirir um ar sombrio que nunca lhe pertenceu. A vingança faz com a justiça a mesma coisa que o dinheiro faz com o ser humano: modifica e contorce até a essência sumir todinha, mas preserva o nome para que muitos não notem o estrago.

A conversa com minha amiga seguiu sem que eu ganhasse argumentação alguma:

- É como um muro - eu disse - que me impede de seguir. O muro é justamente a injustiça ali me olhando e, para transpassá-la de vez, preciso quebrá-la. Se eu usar as mãos é claro que eu posso quebrar alguns ossos, talvez o pé ao tentar chutar o muro, talvez o braço também mas, por fim, vencerei isso, passarei pro outro lado. Afinal, você espera que eu desista? Que dê meia volta e fique aceitando uma derrota? Quem que é injustiçado e simplesmente desiste de enfrentar a situação? - dizia eu, ardorosa, batendo no peito naquele cantinho anatômico onde a gente guarda o orgulho.

- A única forma de enfrentar não é quebrando o muro e, segundo você, dando o troco. O oposto de quebrar o muro não é desistir dele, mas pular por cima.

- E deixá-lo inteiro?!

- Não, pra trás.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Meu carnaval

Lembro que ano passado, bem nessa época do ano, eu retornava ao Brasil depois de viver o ano mais marcante da minha vida. O carnaval, vocês sabem, talvez seja a melhor época para retornos difíceis como esse. Quero dizer que, na ocasião daquele retorno, eu precisava de uma felicidade externa gritando por aí pra me fazer acordar e viver o dia de forma quase natural. Se dependesse apenas de mim, as coisas meio cinzas que eu carregava aqui dentro não seriam suficientes para me fazer levantar. Sendo assim, eu fui lembrando pouco a pouco, no meio daquele monte de gente feliz, que sorrir em qualquer parte do mundo é necessário. Por mais que estivesse decidida a manter minha cara fechada, alguma fantasia engraçada me contraía o canto da boca e a purpurina na cara até que ficava legal. O carnaval de 2016 me carregou nos braços e me deu além de boas vindas, uma injeção de ânimo.

Este ano, entretanto, escolhi sair do núcleo da folia pra uma breve injeção de ar puro, grama e cheiro de chuva com terra. Fui notando que olhar pra você acordando numa barraca apertada acelerava o coração e simulava as baquetas golpeando os surdos nas ruas. Era festa em mim como há muito eu não presenciava. Não tinha fila pro xixi nem ninguém pisando no pé, mas alguns contratempos fizeram parte do meu feriado do jeitinho que manda o figurino de qualquer carnaval. Falamos com desconhecidos, gastamos mais do que o planejado, bebemos pouca água e vimos o tempo sair voando como é clássico desses dias de festa. Eu queria multiplicar as horas do jeitinho que desejam todos os amantes da melhor época do ano.

Eu que outrora precisei desse feriado como fuga de um momento ruim, hoje utilizava esses dias como reprodução perfeita do meu Agora. Não te vi de fantasia durante o meu carnaval, mas qualquer figurino perderia o sentido pro quão real você é. 

Desta vez, quando chegou a quarta de cinzas, sorri quietinha ao acordar e perceber que meu carnaval tem purpurina pra durar daqui pra frente.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Domingos

Nunca gostei dos cheiros que o Domingo exala. Quer dizer, as coisas todas tem um cheiro: o mar, o suor, o livro, o café, o sexo, o medo e, é claro, os Domingos.

O primeiro cheiro desse final ou início de semana era do almoço ultrapassando as frestas da porta e cobrindo meu corpo ainda adormecido. Em vez de despertar com o cheiro de café invadindo as narinas, eu acordava cheirando a óleo de mim mesma e churrasco da varanda do vizinho. Domingo seguia, então, preguiçando pelas horas assustadoramente rápidas que, assim como eu, detestavam demorar demais nesse dia. Ao sair na rua, havia o cheiro do perfume das famílias passeando rumo ao Jardim Botânico. Cheiro dos cachorros correndo na praça, do cigarro do flanelinha correndo atrás de um carro, do frango rodando no boteco da esquina. Domingo tinha cheiro de peixe de feira, de fumaça de moto e de asfalto evaporando daquelas poças invisíveis que o calor faz a gente enxergar. No fim da tarde, vinha o cheiro que mais desgosto: o das tarefas inacabadas. Ah, Domingo era quase uma força do além puxando meu corpo fraco rumo a um poço de improdutividade.

Rapidamente, Domingo ganhava o cheiro da noite chegando e, consequentemente, das luzes acesas no quarto abafado. Havia o cheiro das roupas empilhadas na cama por fazer, de moedas espalhadas na escrivaninha e de café seco em xícaras vazias.

De repente, o cheiro de Segunda invadia a sala, abafando todos os cheiros que Domingo carregava. Domingo ia embora silencioso, sem se despedir. Nunca se despedia, como se, no fundo, soubesse que algum cheiro estranho surgia toda vez que entrava em cena.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Leito 05

Noventa e três anos. Eu olhava para você notando as linhas que cada um dos noventa e três anos havia deixado no seu rosto magro. Noventa e três anos. Se eu juntasse três vidas minhas, não conseguiria chegar a uma sua. Te ver naquele leito, dormindo encurvada, invadida por tantos acessos e com os pulmões enchendo por máquina me fazia pensar. Será que teve a chance de se apaixonar? Será que viajou para algum lugar sonhado? Quantas vezes comeu a comida favorita? Mergulhou no mar, abraçou alguém, assistiu a um filme que tocou o coração? 
Eu olhava para você tentando imaginar a vida que o seu sangue pulsando carregava. Tentando imaginar a história por trás do corpo consumido sobre aquele leito de CTI em uma tarde de segunda.
Quantas vezes você teve a chance de ver o pôr-do-sol? Quantas vezes cantou alto a sua música preferida?

Chamei o médico.

- O que houve? - perguntou.

- Está desconfortável ao respirador - respondi.

Ele checou. Não estava. Me olhou sorrindo com um olhar fraterno que alguns têm ao olhar para projetos de médicos inseguros, como eu. Checou, também, a sedação e analgesia. Tudo ok. Saiu.

Não havia nada errado. Eu é que estava desconfortável. A faculdade de medicina não havia me ensinado. Digo, aprendi o mecanismo do respirador, os modos de ventilação, os fármacos para sedação e analgesia, as escalas de avaliação mas, de fato, não me ensinaram a lidar com o desconforto de se estar de frente para a vulnerabilidade humana.

"Não queria estar no seu lugar" - pensei. Mas logo a cabeça fez lembrar que um dia sou eu. Queria que, quando for a hora, alguém olhasse pra mim (pode ser um estudante confuso ou alguém sem jaleco mesmo) e chegasse à conclusão de que uma vida bem vivida (ou não) merece sim uma morte bem morrida. Merece ir embora sem que nenhuma memória gostosa escape sem querer pelo tubo do respirador. Sem que nenhuma dor no leito de um CTI seja maior do que as dores de saudade que a vida causa na gente. Ou do que as dores de amor, que rasgam tudo por dentro mas que fazem a gente se sentir vivo como nunca.

Eu espero te ver semana que vem. Mas, se não der, espero que Deus esteja lá sentado pra me contar que você estava em paz.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Lista

Lembro que quando eu era pequena, me reunia com meus primos e irmã lá na casa de Campina Grande, na Paraíba, naquelas tardes incandescentes de verão, com cheiro de cocada no forno percorrendo os corredores. Enquanto todos dormiam derrotados pós-almoço, a gente sentava em volta do centro da sala, naqueles tapetes brancos felpudos, para decidir o que iríamos fazer. Sim, havia uma votação para elegermos três coisas a se fazer durante a tarde. Então, cada um escrevia suas três opções preferidas num papel e, em seguida, votávamos para eleger o top 3 geral. Dava certo porque as opções eram sempre as mesmas, de coisas que a gente já estava acostumado a fazer mas, naquela época, a rotina perdia a luta para o encantamento que criança tem com as coisas da vida. A nossa lista de afazeres percorria coisas como: brincar de detetive de papel, catar soldadinho (uns bichinhos engraçados que habitavam o quintal), catar siriguela no terreno, ver filme de terror, roubar comida da despensa e esconder (por algum motivo, a gente AMAVA roubar as coisas da despensa sem ninguém ver), ouvir o CD de Sandy e Júnior e coisas assim das mais simples e estranhas que você pode imaginar.

No entanto, eu não consigo me lembrar da última vez em que minha lista de afazeres foi recheada de coisas assim tão leves. Não falo sobre voltar a ser criança, pois as responsabilidades chegam para todos nós, mas falo de leveza - coisa que não deveríamos perder em nenhuma fase da vida. Sem querer ser utópica, reformulo: eu não consigo me lembrar da última vez em que minha lista de afazeres continha um tópico sequer que fosse leve como os soldadinhos do quintal, que chegavam a voar levados pela brisa do fim da tarde. Cometi o erro de me deixar levar pela correnteza da ansiedade, contra a qual nadei com tanta coragem durante meu ano no exterior e, agora, minha lista de afazeres devora meu dia num piscar de olhos, deixando de resto um corpo cansado, deitado sobre a colcha da cama de calça jeans e sutiã.

Preciso parar. Sentar em volta da mesa do centro e repensar minha lista de coisas a se fazer no dia, na semana, na vida, talvez. E quando a responsabilidade da vida adulta pesar demais ao percorrer os itens da lista, espero que eu lembre de imediato que vida é doce como a cocada saindo do forno, como as colheradas do achocolatado da despensa e as frutas madurinhas do terreno do vovô. A vida é doce sim.

domingo, 16 de outubro de 2016

Filme

Houve horas em que te observei sem que você percebesse, como um filme daqueles que a gente não espera encontrar ao passar os canais da TV numa noite quieta de sábado. Assistia a trechos, depois mudava o canal subitamente e voltava a prestar atenção no entorno. 
O filme de você era bonito demais. Em algumas cenas, você tentava ajustar a música com o computador apoiado no degrau da escada. Nessa hora, eu assisti ali do alto do corrimão em silêncio. Outras vezes, passava por mim com pressa, procurando alguma coisa que há segundos estava na sua mão ou mudando as almofadas de lugar. A câmera dos meus olhos acompanhava sem perder detalhe algum, até que parou e filmou você de costas, captando o áudio que vinha do violão e, de vez em quando, uns sorrisos de perfil que você deixava escapar. Às vezes não havia foco, porque eu estava perto demais. Outras vezes, havia só um corte bem de pertinho das curvas das suas costas, me lembrando aquelas dunas de areia intocadas do deserto, lisas e sem nenhuma imperfeição, nas quais a gente tem vontade de se jogar quando vê em foto por aí. Fazia calor mesmo. De vez em quando subia um fogacho me queimando a pele, mas o frio na barriga - constante elemento dos meus encontros com você - tratava de refrescar o corpo inteiro pra mim.

Você é filme. Me lembra a música de Cordel, numa versão modificada. Você é filme! "Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando você passa. Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica. Dá felicidade, dá duvida, dor de barriga!" Você é filme.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Flor da mesa da sala

Lembro daqueles amores intensos. Das raras vezes em que eu tinha certeza de querer tanto alguém que nada mais importava muito. Essas paixões que chegam do nada e, infelizmente, costumam ir embora tão rápido quanto apareceram. Acabamos esquecendo daquilo que chega devagarzinho. Acostumados a uma vida de sensações arrebatadoras e fugazes, esquecemos que amor também cresce aos pouquinhos. A gente sabe muito bem que pequenos danos, pouco a pouco, desgastam relações inteiras a longo prazo, mas não paramos pra pensar que carinho e companheirismo, de pouquinho em pouquinho, constroem um amor inteiro quando menos esperamos.

Chegar na primavera e ver um jardim imenso, colorido, transbordando de flores, é de brilhar os olhos e encantar de cara. Apaixona o coração de quem teve a chance de ir cheirar ali, quase sugado por um perfume desconhecido e intenso. Mas é preciso lembrar da flor que é regada, dia a dia, e que a gente chega até a esquecer que ela também desabrocha. Quietinha, ninguém a viu chegar.

Mas desabrocha. Aí a gente se espanta com a beleza no meio do que, um dia desses, era terra. E fica de cara com o quanto ela dura ali na mesa da sala. E vai durando. Uma coisa tão pequena, que eu mesma não vi chegar. E vai durando. E causa apego de modo que sem ela a mesa da sala nem é mais tão bonita.
A flor não-arrebatadora apaixona devagar. 

domingo, 28 de agosto de 2016

Só ir

Tenho a mania de querer dizer tudo. Qualquer coisa que angustie ou que me deixe feliz, lá vou eu falar sobre. É bom ser transparente. Tanta coisa boa já me ocorreu por causa disso. É bom abrir o peito e a boca pra tirar de dentro uns pensamentos tóxicos e dizer as coisas das quais discordo, principalmente. Mas ser assim tão nua já me fez perder grandes oportunidades de permanecer calada.

O silêncio é o carinho que a alma precisa às vezes. Muita palavra dita no calor de uma resposta pode parecer um detox instantâneo, mas tantas e tantas vezes volta maior e com mais dor pra um canto qualquer escondido no corpo. E aí vai te causando o mal estar tardio que você jurou ter evitado. Aquela náusea chatinha de uma coisa que na hora parecia a pílula da renovação. Que nem ressaca de droga, que vai corroendo o corpo depois de horas infinitas de uma sensação gostosa.

Teste sair de fininho. Vá deixando pra trás o que não pede o seu gasto de energia em longas e intermináveis conversas, mas simplesmente um desapego quieto, calado, discreto e final. Como naquelas festas das quais você quer ir embora, mas falar com todo mundo e explicar que já está indo é tão mais desgastante do que simplesmente ir. Só abrir a porta e ir.

Tenho a estranha mania de, ao avistar a porta, dar meia volta pra dizer sei lá o que pra uma multidão que não ia nem notar o meu sutil movimento. Discorro sobre ir embora da vida de quem eu não sei nem se chegou a notar minha chegada. É curioso esse gasto de energia em um simples abrir de porta. Preciso parar. Esqueço, bobamente, que sempre pude andar até a porta. Que ela sempre esteve lá, à vista. E a chave sempre esteve aqui no bolso. É só ir.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Encontro marcado

Cheguei já de noite, como de costume. Entrei no quarto, sentei na cama, olhei em volta. Um livro inacabado, uma apostila, um caderno e umas canetas (sempre) me rodeavam. Abri a apostila. Questão 1. Questão 2. Questão 3. Fechei. Levantei, encostei a porta, apaguei as luzes e deitei.



Deitada encolhidinha, coloquei um despertador para dali a 25 minutos. Calada, fechei os olhos que, na verdade, caíram como duas portinhas de chumbo e ali ficaram. Barulho de talher na cozinha, de botão do microondas, de portão de garagem apitando ao longe e uma sirene de ambulância mais longe ainda. O coração batia no ouvido, como naquelas vezes em que a gente deita a cabeça numa posição estranha e ouve o sangue pulsando todinho. Era bom. O som de mim mesma foi lentamente vencendo os ruídos externos, mas ainda deixava a respiração participar da sinfonia que se formava aqui dentro. O estômago embrulhado murmurava baixinho uns sinais de maus tratos e eu sentia as mãos aquecendo enterradas no corpo, enquanto os pés gelavam dos sapatos recém tirados. Sentia o jeito como os pelos arrepiavam no friozinho da noite no Jardim Botânico. O jeito como os dentes encaixavam com a boca fechada. O jeito como o cabelo bagunçado vendava os olhos e me protegia dos postes de luz da cidade sempre viva. Era bom estar ali, reconhecendo cada canto de mim mesma. Era bom sentir que eu tinha o controle da matéria deitada sobre a cama; que corpo e alma ainda se abraçavam e, em vez de um ser cárcere do outro, eram bons e velhos amigos que às vezes se desencontravam nos labirintos de rotinas doidas. Era bom demais estar ali. Os pensamentos das obrigações, que há alguns minutos aceleravam o coração ansioso, deram lugar a lembranças de suco de mangaba na Paraíba e brincadeiras no play das Laranjeiras, me fazendo lembrar direitinho quem é que estava ali deitada. 
Não, eu não era um corpo moribundo à deriva no mar da rotina. Eu era TÃO mais que isso e tudo o que precisava era de mais desses encontros marcados comigo mesma.

Senti alguém se juntar a mim e participar da sintonia corpo e alma que eu vivenciava ali sozinha. Mas quem poderia invadir algo tão íntimo assim? Eu não sentia outro corpo, mas jurava que alguém estava de conchinha ouvindo comigo meu sangue pulsar no travesseiro. 
Era Deus, concluí. Perguntei por onde andou nesse dia tão comum e Ele sorriu sem dizer nada. Pediu que eu nunca deixasse a vida lá de fora tocar o ritmo da vida aqui de dentro. Que toda vez que corpo e alma brigassem, que eu parasse um pouquinho para que fizessem as pazes de novo. Me disse que um cérebro superestimulado não escuta com clareza os anseios de um espírito negligenciado.
Refleti em silêncio.

O despertador tocou. Levantei vagarosa, esticando os músculos do corpo (menos) cansado. Sentei na beira da cama e disse baixinho:

- A partir de hoje, todas as noites, temos um encontro marcado. Eu, minh'alma e você.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Insônia

O que mais gosto nessas noites insones é o silêncio da casa. Nenhum ruído além das engrenagens da cabeça e barulho do estômago vazio. Olho pro nada, lembro do dia de ontem que acabou agora há pouco e me vem uma sensação ruim de improdutividade. Penso no dia que chega já já e me vem uma urgência pra cair no sono logo.
A insônia é um pouquinho desse limbo de angústia, em que a gente pensa no dia que passou e no cansaço do que está por vir, mas o agora-agorinha é só a passagem entre os dois mesmo. Ambos os pensamentos se confundem com o hoje. Porque um é sobre ontem, o outro sobre amanhã e mal sabe a gente que é o Hoje o único marcapasso do coração. Os insones coitados estão de passagem. Confusos no tempo da madrugada quietinha.
Passei a semana com insônia -só pode - já que lamentei o ontem, temi o amanhã e nem me dei conta de que o agora passou por mim gritando desesperado que era o único capaz de ditar o ritmo das coisas.
Quero dormir pra ir ao encontro do Agora. Mas me pego rindo ao lembrar que o Agora nunca precisou de sol nascendo pra acordar. Nem dos meus olhos fechados pra chegar.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Respira

Cheguei em casa ainda com a imagem dos reflexos das gotas de chuva no seu rosto. Joguei o corpo na cama, a bolsa num canto e dei o suspiro profundo que não tinha dado o dia inteiro. A voz interior, que sempre me acompanha ao final de dias difíceis, já vinha dando o ar da graça pra dizer alguma coisa. Estava com medo de brigar comigo e quis pedir a ela que me desse um desconto só hoje. Mas não, é preciso conversar (se você acha estranho eu ter uma voz na consciência, talvez precise de silêncio de espírito). 

- Está cansada, hein? Olha esses olhos fundos de quem pede uma noite de sono pro dia acabar logo. - disse a voz toda imponente.

- Não preciso do seu julgamento. Preciso ficar quieta agora, sem pensar coisa nenhuma. - respondi.

- Olha, eu vi tudo. Me lembrou quando você era criança. 

- Como assim?

- Sabe, quando criança, às vezes você chegava na cozinha, numa dessas tardes de tempo ruim que nem hoje, e encontrava um grande bolo de massa paradinho no balcão. Enquanto que pra outros aquilo era o meio de uma receita deliciosa, pra você era tipo um brinquedo novo. Queria mexer, tirar pedaço, fazer bolinha e brincar de massinha. - disse a consciência em tom de riso.

- Affe, apenas explique o que isso tem a ver com meu dia caótico. Pra quem estava do meu lado, parece que você quer mais me irritar do que ajudar a enxergar as coisas.

- Calma, moça. Vamos lá. O problema é que ninguém deixava você tocar na massa apoiada ali, sob o estranho argumento de que "a massa estava descansando". Você fitava aquele potencial playground e não entendia o porquê de uma coisa daquelas precisar "descansar". Só sei que demorava pra aceitar, viu? Tentavam te explicar que se você mexesse, se apertasse e tocasse ia estragar a receita e o resultado não ia ser tão bom. Alguma coisa maior estava por trás daquilo e tudo o que pediam a você, ansiosa, era que tivesse calma e não mexesse antes da hora. Por mais que o desejo fosse grande, por mais que a vontade pinicasse nos dedos, aquela era a hora de manter distância e não interferir, pra no fim dar certo. Entendeu?

- Mais ou menos. - disse eu.

- Ora, a noite de hoje me fez lembrar de você catucando coisas que pediam distância. Achando que seu toque e sua interferência iam ser bons, mas depois se arrependeu e lembrou que ter calma, pro ser humano, é tão importante quanto comer.

Eu fechei os olhos, como quem sente vergonha. Pedi pra voz me dar um tempo e disse:

- Você está fazendo sentido agora.

- Não é? - respondeu ela - Quanto mais você falava, mais se embolava. Quanto mais você se deixava levar pela ideia doida de surgir do nada, mais consequencia ruim vinha. E, de repente, você não fazia mais sentido. Tentava falar, mas a voz embargada do choro na garganta abafava suas ideias. Eu queria te abraçar e te tirar dali pra tomar um bom banho quente, mas eu, que não tenho corpo, às vezes nem voz tenho também porque você me perde nos seus momentos de muita angústia e esquece que sou sua amiga e funciono muito bem na sua rotina normal. Tenho certeza, minha querida, que você quis sumir e voltar tudo atrás porque estava arrependida de todos os movimentos em prol de uma coisa que só pedia: calma. Respira.

- Sim. Não seja tão dura...mas sim.

- É, moça. Às vezes falta alguém pra te dizer "calma, respira" ou "não toque aí agora". Porque eu, consciência, sou abafada, muitas vezes, pelas coisas que você quer muito. Você luta com uma gana pelas coisas que te importam que, às vezes, esquece do tempo que elas precisam sem você. Esquece que muita coisa não está no seu controle e que não tocar em nada é o melhor jeito de resolver. Você é ótima para agir, mas muito ruinzinha pra esperar.

- Sinto que se eu esperar, vou deixar muita coisa passar.

- Bobagem! Se dê a chance de ver as coisas chegando até você. E quando aquela semente de ansiedade tentar te dominar, você vai ser mais forte e entender que, em certos momentos, é melhor observar. Tem que parar de querer fazer tudo, porque o fato de não ter sua mão ali no meio, não significa que o resultado não virá. Por acaso o que te irritou hoje depende só de você? Não, não e não. Por isso, calma! Respira.

- Calma, respira. Calma, respira. - repeti como um mantra.

- Isso, meu bem. - disse a voz que agora me acalentava o coração, tentando assoprar a dor que estava lá- calma e respira pra vida toda. Pra aquela prova que você tem que fazer e já estudou. Pro jogo de futebol que você quer ver o gol e já tocou a bola. Calma e respira pras coisas que te querem como observadora. Pros amores, que são livres pra pensar o que quiserem. Pras coisas que requerem a sua PACIÊNCIA. Calma e respira, como se você, antes de chegar no conforto bom da casa, estivesse atravessando um caminho com chuva gelada, durante o qual você não tem nada a fazer a não ser observar a água molhando a barra da calça.

- Mas estou! - exclamei.

- Então?

Calma. Respira.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Chave de casa

Sexta-feira, 3 de Junho. Chego afoita em casa pra tirar logo os sapatos, afrouxar a calça jeans e tentar adiantar o trabalho de segunda. Ver o que da faculdade dá pra ir completando, no meio de tanta coisa acumulada. Chegar em casa ainda na luz do dia era raro, oportunidade única pra produzir alguma coisinha.

Entretanto, a tão esperada entrada em casa não foi possível pela ausência do protagonista dessa história feliz: a chave da porta. Jogo a mochila no chão, derrubando a carteira, o pen drive, a bala halls derretida, recibo do banco, caneta e absorvente. Mas nada de chave por ali não. Olhei pra porta da vizinha e ri da minha cabeça me transmitindo a cena hilária de um pedido de abrigo temporário. Enfim, desci. Oi de novo pro porteiro. 

- Tá sem chave?
- To (seco) - disse enquanto me dirigia pro sofá da portaria, que seria meu lugar pelas próximas longas horas.

Deitei naquela posição desconfortável de quem deixa os pés pra fora. Acho que o porteiro leu meu rosto de cansada e resolveu dar uma colher de chá apagando umas das luzes do hall de entrada. Estava frio. Abri minha mochila e só tinha o jaleco amassado por ali. Me cobri com ele mesmo e juro que não consigo me lembrar da última vez em que colocá-lo sobre o corpo me trouxe tamanho conforto. Tinha me esquecido do material macio do qual é feito, já que ao vesti-lo, geralmente, alguma coisa mais pesada que tecido recai sobre os ombros. 

Fecho os olhos e a vida acontece acelerada em volta. Barulho de portão abrindo e batendo. Gente chamando o outro. Criança chutando bola no play (há quanto tempo eu mesma não chutava uma?). Barulho de buzina inútil de gente estressada do fim do dia. Dois cachorros que se estranham na rua. Televisão em alto volume. Meu celular vibra e eu, num ato já reflexo e assustado, viro a luz da tela pra minha cara pra ver o que é. Pode ser email. Pode ser mãe dizendo que tá chegando. Pode ser o grupo do trabalho pra entregar. Pode ser quem eu penso o dia inteiro. Pode ser nada também. Não era nada.

Fecho os olhos novamente. Agora os sons da vida alternam com momentos em que não ouço nada. Luto pra continuar alerta. Estou acostumada com essa luta pra continuar alerta. O celular vibra. Uma, duas, três vezes. Mas não me mexo. Os sons de fora se confundem com um sonho que começa. Alguém interfona. Um cheiro de jantar invade o lugar. Me lembrou a época de colégio, quando eu ficava aflita com o cheiro do jantar percorrendo a casa nas Laranjeiras, porque significava o fim do dia e eu não tinha feito os deveres que havia planejado para aquela tarde. A lembrança me atiça a vontade de lutar contra o sono. De olhos fechados eu tento manter a vigilância. Tento prestar atenção no que ocorre lá fora. Sou dura na queda.

- Sou dura na queda - diz o pensamento.

- Sou dura na queda. Sou dura na q.

E dormiu.
Esquecer a chave é necessário.








segunda-feira, 28 de março de 2016

Pegar a câmera e fechar a lente num único ponto da vida tem lá seus problemas. Essa mania de zoom nas coisas que parecem super importantes tem aí umas desvantagens. Perde-se a capacidade de mover o rosto pros lados. De mover os olhos em círculos e dar a volta na paisagem sem sair do lugar. Perde-se a capacidade até de ouvir os sons que vem dos lados (aqueles que atiçam a curiosidade pra gente catar de onde estão vindo), porque tudo o que se vê é aquela única coisa no altar, que recebe todos os flashes de uma vez só. Aí, se aquela foto começa a sair embaçada; se começamos a estranhar o ângulo e nos decepcionamos com o resultado, não há outra coisa que nos segure da queda.
Zoom pode ser danoso pra quem não sabe usar a câmera.
Tenho preferido as paisagens mais amplas. Tenho procurado enriquecer a vida com mil cores diferentes para, assim, poder me impressionar constantemente; com os olhos de criança que depois de enjoar de um brinquedo chato, olha pro lado e encontra motivo pra sorrir de novo.

A idéia não é aniquilar as coisas ruins, que sempre estarão lá e são fruto do acaso. Mas fazer a coisa ser menor. Que nem quando a gente dilui o remédio ruim num copo d'água gigante e não sente o amargo na garganta.

Veja bem, não quero dizer que vida não tem gosto ruim às vezes. Mas é preciso diluir. Encher isso aqui de água até que o amargo atinja menos.  A vida com paisagens amplas é assim. 

Acaba que, num jardim bem colorido, duvido que você note a única rosa morta.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Vem cá, minha flor

Eu lembro que mesmo antes de sair eu já sabia que seria difícil voltar. No meio do friozinho na barriga daquele 2015 começando cheio de coisa nova, havia também aquele pensamento em stand by de como seria o retorno para um lugar que eu queria tanto deixar. O interessante é que, mesmo que a gente se convença de que sabe alguma coisa na vida, nenhuma teoria vencerá a força e o impacto da experiência. E está sendo difícil de uma maneira avassaladora. Dentre todas as vidas do Rio de Janeiro, a minha é, provavelmente, uma das melhores que se pode ter e, ainda assim, eu sou dor por dentro. A dor da saudade ainda fresca, a dor da falta de liberdade que a cidade impõe, a dor da desigualdade que existe nas ruas e a dor (talvez uma das piores) de quem não sabe o que quer dos próximos meses ou anos. Dor de não pertencimento também.
 
Entretanto, a mesma dor que machuca também nos dá um grande presente: o prazer de sentir o alívio.
 
Pois bem. Tristezas à parte, o carnaval é, provavelmente, o melhor momento pra retornar e encarar o Rio de novo. Falo por mim, que sempre fui fã dessa época e, novamente, resolvi ir pra rua ver a festa acontecer, mesmo que o ânimo não estivesse lá dos melhores. Houve esse dia, então, em que segui o bloco "Vem cá, minha flor", que eu não conhecia de outros carnavais. Cheguei lá e tinha música boa e gente feliz. Tinha música muito boa e gente muito feliz. Gente dançando como se ninguém tivesse vendo e gente enfeitada brilhando por aí.
 
Gostei. Até que fomos andando e a banda parou na área coberta do MAM. Aí não precisava mais ficar pertinho dos músicos porque o som ecoava por todo lado. O coro das pessoas cantando debaixo do teto fazia a música vibrar o peito e esquentar o coração de qualquer cidadão que estivesse ali naquela hora. Eu parei de pular pra olhar um pouquinho. Uma só voz de carnaval me invadia os ouvidos e, em volta de mim, não dava pra ver nada mais além de felicidade. Muita gente fechou os olhos e dava pra notar a música acariciando a alma de alguns. Todos os ruídos externos não existiam mais e, naquela hora, eu concluí que em um lugar onde se reúnem tantas pessoas felizes ao mesmo tempo, seja lá por que causa, não pode estar TUDO errado. Há alguma coisa de bom e bonito por aqui que a gente não pode deixar ir embora com a purpurina pelo ralo da pia.
 
O bloco seguiu e eu fui atrás. Ainda observando e tentando entender o que tinha acontecido ali. Pelas horas seguintes ficamos no sol. E, antes de ir embora, eu ainda apreciei a cena daquela galera cansada e suada tirando forças de algum canto (talvez da própria energia que emanava de lá mesmo) pra soprar o trombone, balançar o chocalho e bater no tambor.
 
Fui embora com um sorriso no rosto. O sorriso que não tinha quando cheguei lá e que alguém me emprestou e eu esqueci de devolver. Agora era meu. E deveria ser assim daqui pra frente.
 
Toda vez que as coisas não estiverem muito fáceis, vou retomar esse dia na memória. Fechar os olhos e saudar não o Rio, não o carnaval, a dança ou a música. Mas o que realmente aquilo ali representava, que não precisa de época, lugar nem instrumento pra acontecer: a felicidade.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Vai chegar

Sete dias sonolentos, quentes e preenchidos por muito rosto, beijo e abraço. Sete dias em que fui amada, acolhida, perguntada e informada sobre como andam as coisas aqui. Sete dias, também, em que a cabeça não para e deitar pra descansar o corpo está longe de significar também o descanso da mente.
Me disseram que lá eu não tinha "vida real". Mas o problema é que poucos sabem que a vida real pode ser assim prazerosa, boa, justa, limpa e excitante. Não é preciso estar sonhando para se ter uma experiência boa e eu te garanto que meus olhos estavam abertos e alertas do início ao fim. Nem o discurso do "dinheiro garantido todo mês" serve para deslegitimar o que eu sinto agora, pois pra quem se entregou a todas as experiências possíveis, a realidade acontecia todo dia lá. Eu escolhi não fugir dela (sim, podíamos escolher fugir e sonhar o tempo todo se quiséssemos).
Sinto falta das manhãs, pois aprendi a acordar cedo pelo simples fato de entender, pela primeira vez, que dormir demais é, de fato, perder parte das surpresas boas do dia. E, nessas manhãs, sinto falta da casa já acordada, do café que combinávamos, do violão que tantas vezes me avisava que era hora de começar o dia. Sinto saudade de pegar a bicicleta e ir pra faculdade. E, ao chegar lá, me faz falta ter aquele mundo de facilidades à minha volta. Deitar na grama no intervalo ou chegar de madrugada na biblioteca: eu podia usufruir do que eu quisesse. Sinto falta de considerar a universidade um lugar aprazível, e não um antro de problemas. Não contava as horas pra ir embora porque eu não tinha pressa de nada. Não tinha protesto marcado, nem nada que me trouxesse uma tensão diária extra. Sinto saudade da gentileza nas ruas, no trem, no bar, no ônibus. Obrigada, licença, desculpa e bom dia eram essenciais no vocabulário. Me faz falta também a paz ao se andar pelas ruas. Sinto falta da liberdade que eu tinha. Poder usar a roupa que eu quisesse e andar pra onde eu quisesse sem ter de lidar com olhares estranhos, comentários inapropriados ou qualquer tensão nos ombros.
Sinto falta das pessoas que fizeram o lugar ter mais vida. Que caminhavam comigo e seguravam a barra se algum dia eu tropeçasse sem querer. Sinto falta da praticidade pra encontrar alguém, pra resolver alguma coisa ou pra ir de um canto a outro em duas rodas.
Eu era a pessoa mais feliz que eu já conheci. E eu tinha o sorriso mais bonito que eu já vi. Eu fui também a mais livre e adorei conhecer o quão grande posso ser em tantas situações.
Em sete dias, eu não posso dizer que saí do melhor e vim pro pior lugar possível. Mas acho que, na verdade, eu mesma me tornei um lugar hostil, assim, num piscar de olhos. Sim, o nosso estar no mundo é influenciado pelo que está ao redor e, às vezes, a armadura quebra e deixa a sujeira de fora manchar um pouco o interior.
Mas eu não preciso me preocupar. Descobri, depois desse longo encontro comigo, que a nossa essência às vezes perde o voo e só chega depois. Eu lembro o quão atrasada ela estava quando eu cheguei por lá. Então, agora que eu vim de volta, por enquanto me sinto só um corpo sem nada preenchendo por dentro, pois as outras partes estão por vir. Eu não esqueci lá, pois só o mais estúpido ser humano deixaria isso pra trás. Eu sei que está vindo, mas a viagem é mais longa. Talvez demore semanas. Meses. Não sei.
E de novo, eu vou ser a pessoa mais feliz que eu conheço. Com o sorriso mais aberto. Livre também. E em paz. Vai chegar esse dia. Vai chegar. Vai chegar. Vai chegar.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Lado de lá

Tenho respirado fundo. Todo dia, quando chega a hora de ir embora, eu me levanto, pouso o copo na mesa e dou um abraço apertado em quem quer que seja o da vez. Abraço com ternura todo mundo a quem não posso mais dizer o rotineiro "see you". Olho nos olhos pra fotografar o rosto e, então, me sento de novo com os ombros tensos e um choro escondido dividindo a garganta com um gole de cerveja.
 
Tenho respirado fundo pra ver se junto com o ar vem um sopro de paz. Pra ver se a alma se acalma e se retenho em mim tudo o que eu puder sugar daqui. Tenho sentido os gostos de todas as comidas, provado todas as bebidas, abraçado cada um com um abraço prolongado e deixado a cidade atiçar meus sentidos. Acordo com o coração acelerado, mas faço o dia valer a pena e no final, mesmo que a dor volte, eu tenho sido forte. Desde o início, aprendi a caminhar com dor. Agora, no final, todo esse aprendizado já me deu calos o bastante pra todo dia arrumar uma razão pra ser feliz.
 
Aqui eu aprendi a contar o tempo em semanas e entendi o valor de cada um dos sete dias. "Um dia após o outro" - repito 20 vezes como criança se esforçando pra decorar a tabuada. É difícil, sabe? Mas não sou mais de me entregar assim fácil. Penso que vou ter que abandonar uma casa, mas logo ali do outro lado também tem coisas que eu deixei. Vou descansar o corpo e a mente e sei que vão cuidar de mim. Até que, sem notar, vou acordar e respirar o ar de lá. E alguma hora vai fluir e preencher a alma de novo. Devagarzinho vou respirando e sentindo novamente o ar de lá encher o peito. E os rostos, os cheiros e os gostos me botando cara a cara com a outra parte de mim. Me lembrando que a vida é mesmo feita de ciclos e me ensinando, novamente, que toda vez que um acaba, outro novo começa.
 
 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Cheiro da partida

A gente sabe que veio só de passagem mas quando olha pra trás vê que construiu uma vida inteira. Dá tempo de escolher uma comida preferida e de achar um lugar pra ser nosso esconderijo. Dá tempo de formar uma família e de firmar laços mais fortes do que a gente achou que fosse fazer nesse tempo. Dá tempo de arrumar problema e se sentir orgulhoso após resolver sozinho. Tempo o bastante pra viajar e, ao retornar, sentir a sensação de estar pisando em casa de novo. Dá tempo de mudar de casa, de aprender como gastar o dinheiro, de se perder e se achar de novo. Há tempo o bastante para se familiarizar com rostos, sons e cheiros. Som de pássaro, de trem e dos passos no piso de madeira da casa. Cheiro de café, da rua e do lar. E quando os cheiros se tornam comuns e familiares, você sabe que ganhou um novo lar. O cheiro da casa e da grama quando chove. O cheiro de algo queimando numa noite quente. Do churrasco num dia de sol. O cheiro do vento gelado nos longos dias de inverno. Da vela aromatizada que um dia você comprou pra mim e eu acendo todo início de noite. Dá pra sentir e reconhecer o cheiro dos temperos fortes que viraram rotina. Dá pra lembrar do cheiro do perfume de quem está sempre por perto.
 
Mas, de repente, veio um cheiro novo. É o cheiro da despedida. Você tenta camuflar, sobrepondo os outros cheiros que são bons e acolhedores, mas não funciona. Dia após dia o cheiro da despedida domina a sala e a cozinha. Entra no meu quarto e me dá dor de cabeça. Passo fins de semana fora e percebo que o cheiro da partida se dissipou num piscar de olhos por todos os lugares onde eu piso. Percorreu distâncias enormes e eu não consigo entender como a fonte é tão potente. É tão forte que arde e escorre umas lágrimas nos olhos, como o cheiro da cebola cortada contra o qual a gente tenta sempre lutar mas não funciona. O cheiro da despedida também invade os nossos encontros, mas eu tenho medo de perguntar se você também está sentindo.
 
Olho por todo lado e descubro que a fonte sou eu. Em meio ao perfume das flores da primavera, há sempre esse incômodo e eu não consigo mais fingir que não é real.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Mar de gente

Eu pensei que o meu primeiro texto na Austrália fosse ser sobre o lugar. Juro que me vi fazendo um diário de viagem e postando coisas do tipo "Semana 1: viagem pra tal lugar". Mas não. Em vez disso, resolvi escrever sobre as pessoas que, bem ou mal, também contribuem para a minha impressão daqui e que, por muitas vezes, me fizeram enxergar beleza onde não havia paisagem nenhuma.

Olho pros dias passados aqui e, quando revisito essas memórias gostosas e fresquinhas, percebo que grande parte delas são compostas por rostos. Um leque grande de pessoas que passaram pela vida que comecei aqui e talvez nem saibam que deixaram uma coisa qualquer comigo. Rostos que só vi uma vez e me renderam boas risadas e uma aula de cultura local. Gente que repetiu pacientemente 20 vezes as instruções no futebol, durante o breve período em que participei. Gente que eu não gostei de morar junto e, por isso, me ensinou a ter paciência. Gente que não se importou se eu era filha mesmo ou não, e me tratou como tal no dia em que mais me senti vulnerável na vida e em que a dor aguda se misturou com o medo de estar sozinha. Nesse dia, também ganhei irmãs-por-um-dia e, no meio das lágrimas, eu consegui sorrir por dentro. Foi então que, estranhamente, depois da semana mais difícil, limitada e conturbada, eu senti o claro contraste da perna fraca com o espírito forte como nunca. Também houve rostos brasileiros, que nunca me pareceram tão reconfortantes como aqui. Teve gente que fez surpresa no aniversário e me fez sentir o calor de família daqui de tão longe. Gente que me fez lembrar que amor não fala inglês nem português. Gente que em meio a cigarros e uma vida de excessos, parou um pouco pra me dar um carinho e atenção sem precedentes. Que não mediu esforços pra fazer eu me sentir a pessoa mais cuidada dessa vida. Gente lá do início que sempre brota pra saber as novidades. Gente que tá sempre keen for a coffee. Gente que é tão australiano que eu não entendo uma palavra do que diz. Gente que é tão south american que capta a mensagem antes de eu terminar a frase. Gente que me leva pra um bom filme. E gente que eu chego em casa, cansada de um dia incrível ou mesmo só um dia comum, e fico imensamente feliz de encontrar.

Esse mar de gente, no qual ainda mergulho, me faz acreditar que os presentes da Austrália possuem nome, sobrenome e carregam, muitos deles, um sorriso impossível de esquecer.