quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Atravessar

    Recentemente, me vi atordoada em um sábado de sol. Foi em Ipanema e eu trajava roupas de trabalho na rua depois de gravar coisas que transmitiam autoridade. Sentei em um banco alto do lado de fora da banca descolada da esquina: um lugarzinho bonito que vende discos de vinil e outras coisas legais, na Visconde de Pirajá com a Maria Quitéria. Sentei para fazer a coisa que mais me acalma na vida: ver a vida passar como se eu não fizesse parte dela. Eu amo o conforto de não fazer parte da vida por uma hora que eu invento e ninguém fica sabendo. Então, saí do mundo, temporariamente, para observá-lo com meu café, em frente à loja de vinil da esquina e eis aqui o que eu vi/ouvi: o cachorro mascote da loja que me farejava como se pudesse me ver; os gringos de havaiana que olhavam a capa do disco Tropicália e na caixa de som externa da lojinha tocava Ednardo. Gostei do que tocava. O som era límpido mesmo com o ruído da rua. A vendedora um tanto hippie tentava atender a todos no pequeno balcão interno. Ednardo cantava uma música que se chama "Pavão Misterioso", carregada de uma sonoridade nordestina que acalmou meu coração. Olhei meu reflexo no vidro da loja e me achei bonita. Então agora eu tinha o som, o gosto de um bom café, um cachorrinho por perto e meu reflexo me lembrando quem eu era.

    Pensei que atravessar fases ruins na vida só é possível quando a gente sai do trem em movimento eterno e se nutre um pouquinho do que já conhecemos e gostamos. Eu estava ali escondida (porque tinha desaparecido da realidade, já disse) e rodeada por elementos que faziam eu me sentir segura de novo: gostava do que via, ouvia e sentia. Nutri então o meu pensamento com mais coisas que eu conhecia: o rosto do meu amor, a praia na Paraíba que frequentei na infância, o uniforme da escola e o chão do play onde eu jogava bola em Laranjeiras. Eu não conheci Ednardo pessoalmente, mas a voz dele me lembra o Brasil que é, de certa forma, o lugar onde tudo me é familiar: as dores, o calor e as delícias. Me conectei com essas coisas e lembrei que a travessia é mais serena assim: pousando em lugares conhecidos pra que a gente possa seguir em frente. Levando um pouco de conforto pra aguentar um mar aberto.

    Percebi que eu já brincava disso na infância quando a gente andava na rua só pisando nos detalhes brancos do chão, por exemplo. A passos largos e cambaleantes, seguíamos caminhando em direção a sei lá onde, nos sentindo vencedores e topando o desafio. Pequenas "ilhas de conforto" eram os detalhes brancos do chão. Me senti pisando certo naquela tarde na esquina e, quando voltei pro mundo, segui. 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Todos os artistas

Nas vezes em que cheguei mais perto de Deus, eu estava apreciando a expressão de algum artista. Seja no teatro, em alguma cena de filme, num trecho de um livro ou na sonoridade de uma música, o que vi de mais divino no mundo foi pela janela que algum artista abriu pra mim.

Muitas vezes, gasto horas pensando como pode um cérebro humano fazer as conexões que faz a cabeça de um artista e, como resultado, gerar sons, imagens, palavras e expressões corporais carregados de tanta sensibilidade e potência a ponto de eu voltar a amar o mundo. De eu voltar a acreditar que ele é bom como era antes, como nos dias em que eu sentia o cheiro da minha mãe ao entrar em seu quarto domingo de manhã. Volto a provar da minha doçura, quase tão doce quanto as cocadas que a minha avó fazia nas férias e o sorvete que amávamos no verão.

Entenda uma coisa: no canto do meu privilégio, há muitos dias nos quais não amo o mundo. Aquele amor de querer abraçar e estar perto, de não desgrudar nunca mais...não, não amo. Em muitos dias, não estou apaixonada pela vida. Não chego a sentir ódio mas olho o meu entorno e me questiono se é só isso mesmo que a gente tinha pra ver aqui. Me pergunto se uma planta é só uma planta, se a rotina dos carros, prédios, sons e coisas são isso e pronto. Entende? Com um coração partido mesmo, de decepção amorosa, eu me vejo cabisbaixa com as coisas que meus olhos alcançam e resolvo brigar com o mundo até a indiferença dele com a minha birra me deixar ainda mais exausta. Eu sinto raiva periódica de uma existência que me ensinaram a amar.

De repente, porém, algum carinho invisível alisa meu corpo sob a forma artística. Essa forma bela com que alguns cérebros funcionam nesse MESMO mundo que me dói. Eu olho uma certa cena de teatro e penso que uma fresta do quarto de Deus se abre bem ali, naquela expressão visceral de um ser humano que é uma coisa e que também é outra; naquele exato minuto no qual não sei mais quem ele é e já fui tomada pelo impacto do palco. É na hora em que leio algum trecho de Clarice Lispector imersa no Jardim Botânico, que eu volto a amar o mundo como se tivesse sido agraciada com a resposta maior do mistério da vida. Só eu, com a resposta fresquinha bem dentrinho da minha alma. Um sorriso de canto de boca, meio faceira até, entrega o fato de que eu descobri algo importante sobre a existência de todos nós bem ali, naquela letra de música, naquele último ato, naquele trecho do livro. Saio orgulhosa, como se o artista até soubesse que eu entendi a mensagem; que eu fui tocada pelo amor maior e que a vida "não é só essa mesmo" do carro, do chão, da parede e do ar. Percebe? Eu saio gigante do musical da Elza Soares e também perplexa e solene, pois me impressiona e sempre me impressionará o fato de que em uma vida de TANTA dor, ela deixou um ouro artístico, muita pista e muita mensagem até o último minuto. Eu cresço o peito e me armo de carinho só de lembrar que, no mesmo chão que eu piso, Clarice Lispector pisava e via além do cão, do mato, do ovo e da galinha. Via com olhos mágicos, sob um prisma que um artista tem pra ver o mundo e que, por algum motivo nobre, compartilha conosco pra que a gente veja também. 

Todo artista me causa esse efeito "recarga", de voltar a me encher de dúvida sobre o que é e o que não é. De voltar a questionar, mas sem a raiva agarrada no pé da garganta. Dúvida de explorador curioso achando que tem sim muito mais coisa embaixo da pedra. É justamente duvidando do mundo que é possível gostar dele de novo. Então gosto e desconfio que os artistas são, eles próprios, a nesga de céu onde tanto queremos estar.