sábado, 19 de novembro de 2011
"A única preocupação será, então, o cuidado pra não cair na rotina", dizia ela, firme e decidida.
Queria mesmo sentir na pele a imprevisibilidade da vida. Andar por aí sem esperar nada, deixando-se surpreender como uma criança que arregala os olhos quando vê uma lagarta listrada. Deixar por conta do vento o estilo do cabelo. Sair de casa entregue ao dia e ao seu estranho itinerário em tempo real. Não traçar no papel o caminho a ser feito, mas confiar que de alguma forma ele vai se fazendo.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
E você tentava falar, e não saía nada. Falava, falava. E não falava nada. Se no outro dia você havia falado demais, agora o que imperava era o silêncio, alguma culpa e muita fuga. Me pego pensando, às vezes, que diabos eu estava achando que você poderia me dar. Nós, dois túmulos fechados sem o menor traquejo em expressão. Mas o problema não era bem esse. Se usássemos sinais, escrita, códigos, o que fosse, ainda assim não nos entenderíamos. Você havia falado um mundo naquele dia e, agora, não sabia o que fazer com o que havia criado. Só sabia fugir e se afastar da responsabilidade. Colocando no meio uns traumas passados pra dar aquela caprichada. Enquanto eu, quieta no meu canto, observava a cena sem acreditar. Talvez risse um pouco, dentro de mim. Ria da minha falta de experiência. Pois eu agia como menina ao confiar em você, achando bobamente que a regra de só confiar em si mesmo mudaria por acaso nessa vida de armadilhas.
Então tá. Amanhã logo passa e eu sigo de novo com meu pé atras.
Já você seguiria com o peso da imaturidade, do medo de mergulhar e com aquela cobrança excessiva da qual tinha me falado, que talvez acabasse se você prometesse um pouco menos.
Ou, então, seguiria sem peso nenhum. Nem sei mais o que se passa na sua cabeça. Vai ver não passa nada.
Abro mão de pesquisar.
domingo, 23 de outubro de 2011
Dois cafés e a conta
Era engraçado ver como o tempo havia passado. Por fora, você havia mudado. Por dentro, eu nunca saberia. Já de mim, eu falava das mudanças interiores. Enquanto por fora, era ainda igualzinha. Tudo bem, ainda era tímida e desajeitada. Pois se não ficasse vermelha (roxa, azul, quem sabe) e não deixasse cair o café um pouquinho que fosse, definitivamente não seria eu. E falávamos da vida. Da vida de agora e alguns flashes da de antes. E eu ria. E te fazia rir com as coisas mais bobas que fossem. Andaria pelas ruas do Leblon quanto tempo quisesse. Porque o tempo, na verdade, nunca andava no seu ritmo normal quando eu estava com você. Saía correndo tresloucado, como se tivesse raiva da nossa descontração. E era assim. Em algumas horas era impossível eu te contar todos os detalhes do que eu pensava agora.
Todo mundo espera muito de sábado à noite. E eu não esperava muito mais do que um bom papo como aquele.
Mas, se tivéssemos tempo pra uma cerveja, eu faria um brinde.
A você, todo o meu carinho.
E a mim, mais doses de maturidade como as que a vida vinha me oferecendo.
domingo, 16 de outubro de 2011
Esconderijo
Eu não queria voltar por nada. A chuva de São Paulo, os cimentos de São Paulo e o movimento de São Paulo nunca foram tão acolhedores, tão o meu lugar. Aí eu penso direito e vejo que o meu lugar, atualmente, poderia ser também Guaporé, Timbaúba, Conchinchina ou Paris. Qualquer lugar que não fosse minha casa, e que não tivesse os trejeitos da cobrança. Eu poderia ficar aqui, tranquilamente, existindo. Invisível, longe desse mundo um pouquinho que fosse. Talvez só sobrasse meu interior para estar à vontade. E aí eu vejo que nem aqui dentro eu vou dormir tranquila. Definitivamente, meu corpo não era o melhor lugar para estar agora.
No fim das contas eu não estou em lugar nenhum. Me escondi por aí e não faço a menor ideia de onde eu possa estar andando.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Relicário
E se há algum vínculo, eu vou lutar por ele. Vou querer saber de você, da sua vida. E quando te vir passando, ainda vou sentir o frio na barriga. Não é porque o amor foi embora que nós, enquanto carinho e bem querer, temos que ir também. Aquela tênue ligação, frágil como a linha de um telefone sem fio, vai ser protegida por mim todas as vezes que eu sentir a sua voz indo pra longe. Me falta ar toda vez que penso na memória indo embora. Não deixe que vá.
Eu e você somos duas lembranças que o tempo não há de tocar.
domingo, 25 de setembro de 2011
Corrida
Eu costumava pensar que tudo na vida que mexe muito com a gente precisa de um tempo pra ir embora. Não é mágica, não é piscar os olhos e nem acordar no dia seguinte pra nos vermos livres dos pensamentos.
A questão é, então, por quanto tempo trabalharemos pra ir tirando aos poucos aquilo de dentro de nós. Dose homeopática, eu sei. De pouquinho em pouquinho. Que nem criança pra tirar um curativo...não consegue puxar tudo de uma vez só. Ainda que tenha que sentir cada pontadinha de dor espaçadamente. Pois bem...eu estava indo aos poucos. Permitindo que minha cabeça e coração tomassem seu tempo.
Acontece que um dia cansamos.
Nos vemos suspirando por aquilo que um dia era a razão de nossa disposição.
Simplesmente, então, abrimos mão. Paramos de correr. E sentamos no meio-fio.
E pela primeira vez não há choro.
Nó na garganta.
Nem nada.
É algo parecido com quando vamos pegar um ônibus parado no ponto à distância. Ele acelera, sem esperar. Então corremos atrás. E corremos. E corremos. E corremos...
Até que, um hora, simplesmente paramos. Voltamos pro ponto e esperamos o próximo.
Acho que me sinto assim agora.
Parando de correr.
E, incrivelmente, sem a sensação de derrota.
Eu pensava que toda desistência era sinal de derrota.
Dessa vez não...
Eu estava serena.
Com a tranquilidade que tanto havia procurado.
E justamente quando paro de procurar por ela, ela vem cair na minha mão. Me alisar o cabelo. Enxugar o suor. E me abraça forte, finalmente dizendo baixinho:
"Tudo bem, meu bem."
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
E aí você entende que ainda tem suas próprias pernas. Não está impossibilitado de caminhar sozinho nem doou sua autonomia pra ninguém. Lembra de se colocar de novo em prioridade, de onde nunca deveria ter saído. Lembra também que as dores não são eternas...e, no fim das contas, por trás de todo o drama e choro, você ainda sabe andar sozinho. Tá, talvez falte alguns pedaços, talvez seja um esforço descomunal. Talvez, no início, seja só mecânica mesmo essa coisa de seguir em frente. Mas funciona. De algum jeito vai.
De algum modo você entende (duvidando muito, mas entende) que o coração não parou e você ainda é dono de si próprio.
Nessa hora é que a vida se sente segura, finalmente, pra mostrar as surpresas que ainda guarda pela frente.
E dá seguimento ao seu processo de cura.
Te provando, mais uma vez (porque você teima em esquecer), que nada que aconteça com você vai, um dia, conseguir ser maior que a imprevisibilidade da vida e a sua admirável capacidade de auto-renovação.
sábado, 10 de setembro de 2011
Calmaria
Deitada num deck da Lagoa Rodrigo de Freitas, eu contemplava minha vida esparramada na madeira do meu lado. Cada passo dado por quem chegava pra observar a vista estalava nos meus ouvidos. Do meu outro lado, alguém sentado num long também curtia a serenidade daquele lugar. Um time de remo cavava as águas ao longe e em alta velocidade. Uma criança se aproximava da ponta do deck e, correndo logo atrás, vinha a mãe em desespero, segurando a bola, o carrinho e deixando cair a pipoca. Um casal passava em um pedalinho. Uma família tirava fotos. O cristo se encobria por neblina, provavelmente frustrando os turistas e suas máquinas. O mormaço da manhã aquecia meu rosto. E minha respiração acompanhava a oscilação da plataforma.
O mundo inteiro acontecia.
E eu, deitada sobre o Rio de Janeiro, não ousava emitir nenhum ruído, pra deixar a vida repousando como estava. Os ruídos de fora não atingiam o silêncio da minha mente.
Um vendedor se aproximou. Vendia quebra-cabeças de raciocínio constituídos por umas pecinhas de metal, presas umas às outras.
- Moço, deixe primeiro eu resolver o problema aqui da minha cabeça, que depois compro outros pra me ocupar.
- Mas esses estão num preço ótimo. Faço desconto.
- Tenha certeza de que o preço não é a questão. Esses aqui da minha cabeça têm me custado caro demais, e ainda assim eu tento resolver.
Ele riu. E saiu.
A sintonia com o lugar continuava. Minha vida não acordava por nada.
Talvez quisesse mesmo esse tempinho de paz, cansada que estava.
E eu poderia ficar ali deitada.
Até que finalmente começasse a fluir.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Para um breve talento
Eu seguia tranquila, sabendo que o coração já estava em outra direção há tempos. Agora apenas confirmaria. Seguiria firme, corajoso e sem receio pra buscar o novo, pelo qual já pedia há tempos.
Colocando o tênis e já com a mochila nas costas, pronta pra sair de uma vez por todas, eu olhava uma última vez pra trás. E lamentava, de certa forma, não o fim das coisas, pois tudo na vida vira pó. Mas o potencial do que tínhamos, comparando ao fim que levou. Que nem aqueles artistas que deslumbram o mundo com sua voz e de repente vão embora, de um dia pro outro, carregando nos seus 20 e poucos anos toda a intensidade de uma vida passageira.
No fim, depois de muito discutirmos pra ver quem ganhava o troféu (ou razão, como queiram), eu soltei a corda. Deixei você seguir com o que quer que você quisesse nas mãos. Que nem criança quando chora muito, damos um brinquedo qualquer, ou alguma coisa que ela esteja fitando, e pronto, temos paz e silêncio.
Junto com o troféu do qual você tanto fazia questão, levou também uma coisa pela qual eu não lutei. E, infelizmente, você não conseguiu descarregar por aí, em qualquer esquina. O peso na consciência. Esse, só de não levar pra casa (ou vida, como queiram), eu já estava realizada.
Talvez pertencesse mesmo a você. E não se encaixasse em nenhuma estante (ou cabeça, como queiram) que não fosse a sua.
Uma pena, eu dizia pra mim mesma. Segura por confirmar, mais uma vez, que confiança é algo raro. E não se acha por aí. E finalmente, quando eu cansei de procurar em você, você me provou que não existia.
Eu diria que você apressou a nossa morte como um artista às vezes apressa a vida nas drogas. Mas ele se eterniza. E nós não.
Depois do fluxo de consciência, eu fui embora. Seguir a luz que a vida me acendia. Porque sempre acende.
E você pensando que iria conseguir apagar todas.
Tudo bem. Conseguiu.
Mas não foi na minha vida.
sábado, 27 de agosto de 2011
"Se o homem não sabe a que porto se dirige,
nenhum vento lhe será favorável."
(Lúcio Anneo)
Não, não há como continuar andando sem ter algo pra alcançar. Meta, objetivo, ideal, como queira chamar, é o que move o indivíduo mais cansado pra frente; é o que faz com que as pernas, que parecem não mais aguentar o peso do corpo, continuem andando, quase como um milagre.
Você não precisa começar do grande para estipular metas. É difícil, pede tempo e paciência. Pede força de vontade e tudo aquilo que te faz vasculhar o seu interior, de cima a baixo, fazendo-o duvidar de que o que você procura pode realmente estar dentro de você.
Comece pelo simples, então. Que nem naquelas horas nas quais você se incomoda com o sedentarismo, respira fundo e toma a difícil decisão de que aquele é, finalmente, o dia de dar uma corrida na praia. Então...as metas precisam sair pra correr com você, ou nada feito. Elas aparecem, assim, da forma mais simples possível, mas não menos desafiadora. Algo como: " não paro até chegar naquele posto" , ou "só depois do prédio vermelho pra poder beber água". E assim vai. Pontos demarcados no seu trajeto e você não para até que passe por eles. O corpo grita de cansaço, só que o seu objetivo vai além desses detalhes.
Quando pequena, pra recortar uma folha de papel, eu gostava de fazer um risquinho no fim da linha imaginária que minha tesoura percorreria. Então, assim que começasse, não podia olhar pra mão, nem pra tesoura, nem pra nada que não fosse aquele risquinho parado ali, marcando a linha de chegada, esperando pra ser atingido. A linha saía. E com os errinhos mais tênues que você pode imaginar. Uma curvinha aqui, outra ali, mas nunca uma interrupção. Era meu objetivo o risquinho lá parado, e eu não sossegaria a mão antes de alcançá-lo.
Acredito que a vida tem dessas coisas também. Uns pontinhos que significam as suas conquistas pessoais. Não importa o que seja. Terminar um livro, ganhar uma corrida, acertar o gol, zerar o videogame, fazer alguém parar de chorar ou até se tornar um grande médico. Qualquer objetivo é válido desde que faça você caminhar.
E não vale parar até passar daquele poste.
sábado, 20 de agosto de 2011
Eu, você e a chuva. De vez em quando eu deixava meu ombro molhar só pro guarda-chuva te proteger por inteiro. Pegava no seu braço e te trazia pra perto. E andávamos com pressa e em silêncio. O silêncio ganharia de nós em conteúdo se tentássemos abrir a boca. Finalmente, quando cheguei em casa, deixei você se acomodar. Água, bolo e demais cerimoniazinhas de praxe até eu lembrar que a casa sempre foi sua. Sentei na sua frente. E começamos a falar, sufocados pelo peso do ambiente. Eu procurava no seu rosto, desesperadamente, alguma coisa que fizesse, em 2 segundos, todo o nosso sonho voltar pra gente de novo. Mas não voltaria. Dali em diante eu teria que ser forte. Minhas lágrimas vieram antes. As suas apareceram depois. Mas no fundo competíamos, de igual para igual, pra ver que coração estava correndo mais risco de vida. Eu tinha, em mim, uma caixinha com motivos pra pensar que o sentimento nunca foi o dono de toda a verdade, de toda a festa. E dessa vez ele havia me deixado na mão. Eu queria proteger você por inteiro dessa dor que toma o peito e a garganta, que deixa o olho vermelho e embaça a vista a cada minuto. Mas eu não poderia. Precisava, primeiro, era cuidar de mim. E dizer pra você o que a vozinha de dentro de mim sempre me diz: "olhe, vai passar. Sempre passa."
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Certo, muitas ilusões dançaram - mas eu me recuso a descrer absolutamente de tudo... Também não quero dramatizar e fazer dos problemas reais monstros insolúveis, becos-sem-saída.Nada é muito terrível. Só viver,não é? A barra mesmo é ter que estar vivo e ter que desdobrar, batalhar um jeito qualquer de ficar numa boa. O meu tem sido olhar pra dentro, devagar, ter muito cuidado com cada palavra, com cada movimento, com cada coisa que me ligue ao de fora. Até que os dois ritmos naturalmente se encaixem outra vez e passem a fluir.Porque não estou fluindo".
(Caio Fernando Abreu)
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Amor-coragem
Primeiro o amor vem como um mar de felicidade. Uma sensação inexplicável de disposição e vontade. Vem também no corpo de uma ansiedade boa, constantemente impulsionando para o encontro e para as conversas demoradas ao telefone. Amor chega e domina, já mostrando quem é que manda agora que você foi atingido por um dos mais gostosos estados da mente e do corpo humano.
Acontece que o amor também cega de primeira. Cega você pros eventos paralelos que acontecem enquanto se ama, de modo que nada nem ninguém consegue ter a dimensão que tinha antes, quando você enxergava. Tudo é tão pequeno pra quem agora pensa tão grande...
Mas então, chega uma hora em que sua visão começa a ser recuperada lentamente. Não porque o amor acabou, mas porque está passando pra uma outra fase, não menos gostosa de se viver, mas bem diferente da primeira.
Nesse momento, você passa a enxergar aquela cicatriz no supercílio, que não via antes. Passa a detestar a ironia da pessoa de vez em quando ao falar, e isso você também não via antes. O jeito de comer às vezes incomoda, a lentidão pra se arrumar, o gosto para filmes e alguma vezes você se magoa com grosserias e discussões que sempre se iniciam do menor problema que existir no dia.
Nessa hora, o amor toma sua forma mais madura. Em vez de cegueira e conforto puros, o amor também toma a face da coragem. E passa a significar um constante processo de recuperação. Não algo como aquelas massagens cardíacas de reanimação nos últimos minutos do segundo tempo. Não é desespero, nem desgaste pra quem vive esse amor-coragem.
É a força de vontade pra entender que o amor, acima do conforto pleno, é comemorar vitória juntos nas quedas que a vida resguarda por aí. Dar as mãos apesar dos defeitos.
E abrir um sorriso no rosto, de novo, depois de uma longa noite de choro.
sábado, 6 de agosto de 2011
De volta
Fisicamente havia voltado. Mas a cabeça ainda não havia se ajustado completamente. Não tinha facilidade de se apegar a pessoas, a momentos e, muito menos, a lugares. Mas o outro continente a havia encantado. Talvez estivesse mesmo precisando de novos ares. Ver nova gente. Forçar o cérebro a bagunçar o ritmo do sono.
Foi pra lá e voltou apegada. A pessoas, momentos e lugares.
Mas era isso. Sua casa não era lá, seu estudo também não, nem sua vaga do carro e nem o lugar onde tomava café.
Sentada na cadeira, de frente para a imagem projetada de um encéfalo. O caderno e a caneta em mãos. A sala lotada, um murmurinho no canto esquerdo e a cabeça fora de órbita.
"Algumas subdivisões hipotalâmicas estão envolvidas com o controle do ciclo sono/vigília".
Sono, vigília. Sono, vigília. Sono, vigília.
E essa seria sua rotina até que conseguisse voltar completamente.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
O que ainda vive
Todo dia me pergunto que sensação é essa que vem quando alguma coisa chega ao fim. Por que a cabeça não pode estar logo ansiosa pelo que vem pela frente e, em vez disso, fica um tantinho presa àquilo que já foi embora? Penso que, talvez, as coisas quando não são vividas com 100% de aproveitamento ganham um lugar na memória e te alfinetam sempre com a lembrança.
Mas então lembrei que quando vivemos com o máximo de vigor que pode existir dentro de nós, também há essa sensaçãozinha. Um nó na garganta. Uma mini agonia porque algo chegou ao fim.
O que não entendemos é que sempre caímos nessa mesma armadilha. De que as coisas terminam na semana 1, fulano foi embora no dia 4 e a viagem acabou no mês 5. Na verdade, não temos o real conhecimento sobre o tempo das coisas. Não é você quem dita as regras do relógio. É por isso que aquilo que pra nós é a saudade, na verdade, na verdade, é só um modo de as coisas da vida continuarem vivas. Uma maneira de a vida andar no seu ritmo. Te provocando como bem quer. Sempre mutante...existe um pouquinho em experiências, seguindo o mesmo tempo que você. Deixando seu corpo ser cobaia dos acontecimentos. E depois, a vida encarna na memória. Vira um filme, um espetáculo. E você ainda chama de saudade...é a mesma fase ali vivinha. Só vestida de outro jeito. Você não perdeu nenhum detalhe.
Garanto que você já fechou os olhos pra uma dessas lembranças. E sentiu, novamente, o corpo participando daquilo que passou. Dando sinais de leve, às vezes, com lágrima, com sorriso de canto de boca ou até com riso alto que chama olhares pra você. É nessa hora que o corpo brinca, te trazendo confusão acerca do limite, nunca muito bem esclarecido pra mim, entre o sonho e a experiência em si.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
"A única coisa mais inconcebível do que ir embora era ficar; a única coisa mais impossível do que ficar era ir embora. Eu não queria destruir nada nem ninguém. Só queria sair de fininho pela porta dos fundos, sem causar alvoroço nem conseqüências, e depois só parar de correr quando chegasse à Groenlândia."
(Comer, rezar, amar)
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Pela vida
Hoje eu quis dormir até tarde, "perder" a manhã, como dizem por aí. Quis pegar a bicicleta e deixar nas mãos do vento o estilo do cabelo. Quis sair de chinelo no frio, tomar sorvete no frio, mergulhar no mar no frio. Comer chocolate sem peso na consciência. Deixar o ônibus passar e seguir a pé. Hoje quis rir alto de um livro. Rir alto de nada. Quis desligar o celular e ponto final. E que mandem cartas se quiserem entrar em contato. Quis chorar com o filme no cinema, ou rir alto pela 3ª vez consecutiva. Hoje quis trocar a luz da luminária do quarto pela luz do sol lá fora. Quis ouvir música nas alturas. Quis ficar de bem com a bagunça do meu quarto, vendo que cada objeto não poderia estar em um lugar melhor que aquele. E se perdi o nascer do sol, quis assistir sua despedida, aplaudir sozinha e respirar com força os últimos raios da tarde, como um carpe diem de minutos por não saber se a tarde iria aparecer de novo. Quis assistir o show de cores do céu. Azul claro...laranja...azul escuro...preto. E quando chegou a noite, quis curtir o frio, tomar vinho com fondue num aconchego só meu. E me senti romântica, como se tivesse motivos e destinatário pra isso. Amor pela vida, quem sabe.
Hoje quis deixar o peso num cantinho. E sentir que a vida é leve. Muito mais do que se pensa por aí.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Flash
Depois de tantas brigas, depois de tanto choro, tanto grito e tanta despedida sem razão, ela se deitou na cama pra mirar o teto. O silêncio da casa dormida parecia convidá-la para assistir os filmes que se passavam na sua cabeça. Ela se cobriu até a rosto. Como quem se esconde do perigo iminente. Que perigo? Não sabia. Vivia assim, em um estado de alerta contínuo que muitas vezes eram fruto dos alarmes falsos que sua cabeça criava. Descobriu-se. O frio logo veio banhar o rosto. Olhou para o lado, querendo achar o sono, e achou, no lugar, uma máquina fotográfica. Um poço de lembranças digitalizadas no qual ela ousou mergulhar naquele momento.
No entanto, para a sua surpresa, nenhuma foto que olhava havia ficado boa. Todas embaçadas. Ofuscadas por qualquer defeito que fosse daquele aparelho de qualidade mediana. Tinham tudo pra ser lindas, as fotos daquela fase. Tinham tudo pra deslumbrar os olhos de quem visse e encher o orgulho do fotógrafo. Mas não. O foco havia sumido. A nitidez nem dava sinal de ter passado por ali.
Ela refletiu, então, sobre o que podia ter dado errado nos flashes da melhor fase de sua vida.
Logo viu quem ofuscava. Logo viu quem tirava o foco dos momentos em que a felicidade reluzia de tão nítida!
Era o medo.
Ele embaçou os melhores momentos da vida da menina porque a impediu de cair de cabeça. Embaçou os sorrisos, os abraços, os beijos e as certezas daqueles dias. Por causa do medo, muita coisa não havia sido vivida com clareza, com nitidez; degustando cada detalhe da paisagem oferecida.
Depois da conclusão, outro pensamento veio bater à porta.
"Se o medo é a limitação da vez, começo a vencê-lo agora. Que venham dias intensos e sorrisos na forma mais pura que a vida pode oferecer. Quero os goles de felicidade em dose dupla, e que todos os mergulhos dados, a partir de hoje, sejam de cabeça, como deveriam ter sido nos dias em que o pé atrás me protegeu, mas, estranhamente, não me fez sorrir logo em seguida". - pensou, de vez.
Ela, então, levantou da cama. E com a máquina em mãos, foi respirar na varanda. Frio. Silêncio. E uma lua absurdamente linda e enorme iluminava com atitude o céu daquela noite. Olhou a máquina...por que não tentar?
Mirou a lua, linda. Observou com cuidado a tela pequena. Concentrou-se. Sem tremer. E apertou o botão sem mais pensar. Segundos de processamento. E lá estava ela. A foto inteira. Nítida. Perfeita.
Não havia sinais de ofuscamento. Era uma lua brilhante. Não mais turva, não mais escondida.
Talvez fosse um novo começo.
Uma nova chance de não deixar mais que as fotografias se ofusquem, e que a felicidade não fique nítida com há de ser.
domingo, 12 de junho de 2011
Deixe que digam
Ele: - Por que falam tanto? Olham tanto? Espiam tanto?
Ela: - Eu não sei o que veem na gente. Não sei dizer o que, em nós, tem a ver com os outros.
Ele: - Há algo de errado?
Ela: - No amor?
- Não, na gente.
- Mas nós somos amor.
- Ok, no amor, então. Há algo de errado?
- Não. Pra quem o vive, não. Mas pra quem observa, muitas coisas podem estar erradas. Por exemplo, essa sua cicatriz no supercílio...é de fato muito estranha. E, mesmo assim, conseguimos ficar juntos.
Ele riu.
- Eu falo sério.
Ela: - Eu também. Só estou tentando lhe dizer que o amor tem dessas coisas. Escolhe dois indivíduos e os faz enxergar coisas diferentes das que o resto das pessoas veem. Se, pra mim, seu rosto é perfeito, pra eles, sempre haverá essa cicatriz no supercílio.
- Mas por que se importam tanto conosco? Por que não nos esquecem e param de falar, de notar, de espiar?
- Em vez de pensar na sua reputação, pense em mim.
- Mas penso em você todos os dias.
- Me diz então o que falta mais.
- Não falta nada.
- Então fique tranquilo aqui na fortaleza. O amor nos colocou nesse estado de espírito, e nem o verbo na boca dos outros consegue ser maior que o nosso silêncio que diz tudo.
- O que você acha que eles estão vendo?
- Não sei, devem estar vendo um montão de coisa errada. E eu só vejo você.
- Eu só vejo você.
E saíram de mãos dadas. Entre olhares e vozes alheias.
Mas eles estavam cegos e mudos.
E absurdamente felizes.
Ela: - Eu não sei o que veem na gente. Não sei dizer o que, em nós, tem a ver com os outros.
Ele: - Há algo de errado?
Ela: - No amor?
- Não, na gente.
- Mas nós somos amor.
- Ok, no amor, então. Há algo de errado?
- Não. Pra quem o vive, não. Mas pra quem observa, muitas coisas podem estar erradas. Por exemplo, essa sua cicatriz no supercílio...é de fato muito estranha. E, mesmo assim, conseguimos ficar juntos.
Ele riu.
- Eu falo sério.
Ela: - Eu também. Só estou tentando lhe dizer que o amor tem dessas coisas. Escolhe dois indivíduos e os faz enxergar coisas diferentes das que o resto das pessoas veem. Se, pra mim, seu rosto é perfeito, pra eles, sempre haverá essa cicatriz no supercílio.
- Mas por que se importam tanto conosco? Por que não nos esquecem e param de falar, de notar, de espiar?
- Em vez de pensar na sua reputação, pense em mim.
- Mas penso em você todos os dias.
- Me diz então o que falta mais.
- Não falta nada.
- Então fique tranquilo aqui na fortaleza. O amor nos colocou nesse estado de espírito, e nem o verbo na boca dos outros consegue ser maior que o nosso silêncio que diz tudo.
- O que você acha que eles estão vendo?
- Não sei, devem estar vendo um montão de coisa errada. E eu só vejo você.
- Eu só vejo você.
E saíram de mãos dadas. Entre olhares e vozes alheias.
Mas eles estavam cegos e mudos.
E absurdamente felizes.
domingo, 5 de junho de 2011
2º ato
Ir embora não é traumático como parece. O problema é que, olhando de dentro, parece que é o fim. Pode ser o fim da cena, da trilha, da página. Mas não é o fim do filme, do caminho, do livro. Continue assistindo, caminhando e virando páginas. E verá que ir embora é a forma que a vida encontra de te fazer dar passos. Os passos da vida não são os mesmos que você dá pra não perder o ônibus ou para atravessar a rua. Os passos da vida são maiores. Vêm em forma de mudança. Eles querem ser notados, querem mesmo é provocar. Às vezes eles se confundem com tropeços. Mas acredite, são sempre passos. Maiores, menores, que seja. Não deixe de andar pra frente.
Ir embora de um lugar ou de alguém é permitir que o teatro da vida vá para o 2º ato.
Sem comprometer os aplausos do final.
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