domingo, 13 de outubro de 2019

Domingos de calor

Saí olhando pros lados, com o coração vibrando o peito, ainda me recompondo do mergulho que demos no mar bruto dos nossos encontros. Senti o cheiro da noite quente, ouvi o barulho da vida que acontecia lá fora, com o vento morno refrescando meu corpo que ardia em suor e perfume. Exalava meu cheiro de mulher; de uma pele remexida que se escondera do sol de um domingo vulcânico e que, agora, ao sair pro mundo comum novamente, se assustava com a noite que nem viu chegar.

Uns gatos se embrenhavam sorrateiros em ruelas enquanto eu passava, camuflando-se nos restos aquecidos do dia. Assim como nós, estavam sempre atentos. Eu tentava me camuflar como os gatos, saindo do seu mundo pelo portão branco e me escondendo das primeiras luzes da noite, sem graça de vê-las acordar enquanto eu perdia a noção do tempo. Mas eu já não podia me esconder de nada. As luzes saíam de dentro de mim e todo mundo notava o brilho nos meus olhos, a batida no peito e o cheiro da pele aquecida a descansar. De qualquer canto da cidade ouvia-se a música que tocava no meu Domingo. Passei por uma igreja e até quis falar com Deus. Mas não sei o que Ele pensa e eu talvez não queira ouvir ninguém por hoje. Eu quero ouvir a música que você fez tocar no meu Domingo. Quero pular no mar bruto que descobrimos, sem pensar no perigo que essas águas podem ter. Por vezes, tenho medo desse mar que encontramos, mas você vem e me arrasta e todo o medo vai embora. Então, como os gatos destemidos da noite que não vimos nascer, dançamos no caos como se não houvesse amanhã. Depois corremos de volta pra vida de antes, fingindo não saber que todos os dias, agora, são Domingos de calor.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Meu barco

Nunca contei a ninguém, mas eu conduzia um barco. Por vezes, precisei consertá-lo sozinha ao longo do ano de 2018. A gente tem que ser meio mecânico, bombeiro, eletricista mesmo. A vida volta e meia quebra no meio e fazemos pequenos ajustes que nem sabíamos ser capazes.

De repente, foi ficando difícil navegar. Eu não aguentava mais resolver os pepinos pra continuar viajando e, com medo de qualquer tempestade destroçar o meu barco mal acabado, passei a abrir mão dos momentos de descanso para estar atenta. Estive atenta, porém, um barco meia-boca não aguenta as brincadeiras de mau gosto do mar.

Um dia, percebi que se eu parasse de aparar as arestas, de fazer reparos e de me preocupar, ninguém notaria, pois eu estava sozinha e o barco era meu. Parei, então, e logo de cara o mar cresceu e virou a embarcação e suas gambiarras água adentro. Era um mar oportunista, que aguardara sorrateiro o meu barco enfraquecer. O mar só respeita os fortes e, vendo que eu não podia mais lutar contra ele, me trouxe pra dentro dele, pensando que era o único lugar do qual eu pudesse fazer parte agora.

Caí num gelado lancinante e, diferente dos outros, não lutei contra. A adrenalina não correu nas minhas veias e deixei que o gelo azul me tirasse a sensibilidade dos pés e das mãos. O que o mar queria de mim? Um coral de carne e osso atapetando as profundezas? Não sirvo, não quero. Os corais possuem vida! Os corais fazem por onde. O mesmo mar que quis me tirar do mundo não tem um lugar pra mim no seu fundo. Eu flutuo, então. Eu escolho pra onde vou. Meu protesto é flutuar. É estar sem estar em lugar nenhum. 



quarta-feira, 20 de março de 2019

Carvalho Gigante

Sentamos. A comida do lugar que escolhemos tinha exatamente o gosto da noite que vivíamos: azedo. Um (lindo) filme de 820 dias era exibido na minha frente toda hora que eu resolvia te olhar no olhos. Eu o queria assistir, mas doía na alma em lugares que eu nunca conhecera antes. Tentei não olhar. Contudo, onde quer que meus olhos procurassem refúgio, havia você ali. Percebi que seria impossível não te ver, pois, na verdade, meu olhar havia sorrateiramente invadido teu corpo e tudo o que conseguia enxergar era a tua essência por todos os lados. Eu não via o bar nem seus clientes falantes. Só via o filme que gravamos em dupla, com os olhos presos lá dentro de você, como se alguém os mantivesse abertos à força, até que eu não aguentasse mais segurar o rio que inundava minhas pálpebras. Deixei o rio me levar, do mesmo jeito que deixei essa corrente me refrescar no nosso primeiro encontro.

Sabe, olho as inúmeras marcas tuas na minha vida e me pergunto qual delas eu gostaria de deixar em você. Uma música dessas que eu tentava tocar? Um cheiro bom dos nossos cafés? Cheiro da minha pele ou do cabelo ao acordar? Sob que forma quero ocupar tua memória? - pensei. Já sei. Quero ser o carvalho gigante, que ninguém viu crescer na lentidão e simplicidade de muda, mas que, de repente, ocupa seu lugar na vida com grandiosidade e beleza. De repente, o carvalho gigante está lá e ninguém sabe como adquiriu tanta força nas raízes para sustentar o seu tamanho.
Quero ser o carvalho gigante e, assim, esbanjar na tua vida a beleza gritante com que você fez eu enxergar a minha.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O menino e a pipa

Retornando à casa em um domingo nublado, com pistas vazias e um silêncio desértico na ilha em que eu, como um pêndulo, ia e voltava todos os dias. As tardes pós-trabalho não me animavam jamais, no entanto, guiavam meus pensamentos pelos mais profundos caminhos de uma mente cansada da superfície.

Em algum quilômetro do caminho, avistei um menino soltando pipa em cima de uma laje, sem ligar para a ameaça de chuva.
Pensei no quanto as pipas já me ensinaram sobre o amor. Veja bem, nunca há controle total do carretel sobre a pipa e, por vezes, se a deixarmos voar bem alto, talvez não volte igualzinha ao que era em nossas mãos. Uma vez, encurtei demais a linha para que eu nunca perdesse a pipa de vista e pudesse observar melhor seus movimentos, porém, ao invés de dançar conforme o vento, a pipa se descoordenou de repente e quebrou com um choque ao chão. Ainda com a linha curta, pude vê-la rasgar à medida em que resistia às rajadas de ar ao invés de deixar o vento guiar, como nas vezes em que voava alto.

As pipas me lembram o amor. Nos dias de céu azulzinho, a linha, se esticada ao máximo, chega a sumir de vista, mas sentimos que está lá, unindo um ponto ao outro com o mínimo de tensão. Quanto mais alto deixamos ir, menos força nos é exigida, pois uma estabilidade celeste controla por nós o incontrolável.

Gosto de pensar nos seus voos em outros céus. Nem sempre é fácil, eu sei. Voar por alguns cantos pode gerar medo. Mas a maior felicidade é te ver voltar pra mim com histórias pra contar, como toda boa pipa que saiu pra voar alto.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Rio de Heráclito

Do catálogo de filmes em cartaz na minha cabeça, tenho agora este aqui que envolve muito dos teus olhos percorrendo o meu rosto, iluminados pela meia luz com que suas luminárias criativas banham a casa. Você é de pouquíssimas palavras, porém de uma linguagem corporal que fala como um contador de histórias a entreter uma plateia interessada como eu.
Neste novo filme, seus olhos exploraram meu rosto tão de perto que eu podia apenas me concentrar no que dizia um de cada vez. E diziam muito. Conversavam comigo curiosos. Por vezes, sorriam discretamente e, em seguida, voltavam a trabalhar garimpando minhas linhas de expressão. A cada vez em que você passeava por outras curvas e voltava a fitar meu rosto bem de perto, parecia que algo novo te atiçava a curiosidade mesmo em território já conhecido. Me senti o próprio rio de Heráclito, no qual não se pode entrar duas vezes. A cada mergulho que você dava, só com os olhos de ressaca, eu me sentia um dos seus livros, do qual você folheava páginas de pele, osso e alma. E toda vez em que voltava a se concentrar no livro, uma brisa com cheiro de nova te fazia cair em uma parte diferente dessa leitura sem fim.

domingo, 1 de julho de 2018

Pontilhismo

Tentei achar, nas últimas semanas, o ponto exato em que nos perdemos e, em vez disso, minha mente me pregou peças mostrando cenas do dia exato em que nos achamos. Verdade é que existe um filme da nossa história na minha cabeça - que só eu tenho o prazer de assistir - e nele estão, em alta definição, as cenas da noite esquisita em que te vi a primeira vez. Enfim, sacudi a cabeça como quem sai de uma hipnose em desenhos animados e tornei a me concentrar no que fazia antes, garimpando o rio que passou em nossas vidas em busca de um divisor de águas. Porém, passadas as horas preguiçosas deste domingo de casa vazia (os melhores papos comigo são em domingos assim), não obtive êxito e percebi que nossa história é como aquelas obras de pontilhismo. Quer dizer, apreciar uma arte dessas focando nos pequenos pontos enfileirados e tentar desvencilhá-los uns dos outros é perder completamente a harmonia do todo. Apesar de você ser um marco claro em minha vida, a harmonia e a beleza dessa história só tem sentido se respeitarmos o limite de distância imposto a quem aprecia as obras de um museu. Às vezes, por teimosia, volto a focar em um ponto colorido específico do todo e, rindo, me desaprovo, obviamente.

Nossa história pontilhista, como toda boa arte, permite mil interpretações distintas. É observador-dependente, assim como o é tudo aquilo que envolve amor. Mas não importa muito. Mesmo passando por todas as nuances de sentido que passam as obras-primas aos olhos do mundo, nossa história também carrega a vantagem artística de poder ser para sempre apreciada.



domingo, 20 de maio de 2018

Pingamentos

Tive um Domingo de ressaca. Doses de pensamentos queimaram minha garganta dia após dia durante a semana. Tão fortes quanto álcool purinho, pensamentos desceram meu esôfago sem pena. Pingamentos. Arderam o estômago, depois anestesiaram o cérebro e eu, bêbada, segui a semana virando doses das reflexões que degustei por aí. Como uma adolescente desregrada, eu quis mais. "Mais uma, por favor!", eu dizia à vida. E ela atendia, queimando meus neurônios com a aguardente mais alcoolica que encontrou no mercado: os diálogos comigo mesma.

Um dia, segui com minha marcha ebriosa para o lugar preferido dos trêbados na madrugada: minha cama. Foi aí que a vida, como uma amiga sem limites naquelas festas de jovens sem lei, me agarrou pela boca e enfiou goela abaixo mais uns goles de água de fogo. Por essa, não pedi. Eu queria parar de me afundar na própria mente, mas a vida achou que eu precisasse me machucar. Levei um tombo da própria altura e machuquei bem na altura do peito.

Estou de ressaca. Não tão lindos quanto os de Capitu, meus olhos estão vermelhos e inchados. Todos os músculos doem do trem-bala que me atingiu. Morrendo de sede, vou hidratando a alma, reagindo aos poucos a este brinde final.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Café e pão de queijo

O início da noite já invadia a minha tarde curta, enquanto a brisa do Jardim Botânico se decidia por fria ou quente. Nunca havia amenidade nas brisas da minha vida, de modo que os ventos sempre me eriçavam os pelos de frio ou me suavam a pele a arder de calor. Bem, eu andava assim mesmo, acostumada com a intensidade de sensações que os dias geralmente me traziam. Com a boca amarga de café e pão de queijo - combinação gostosa que me agrada o coração - eu andava a passos lentos ouvindo os estalos do meu próprio caminhar. Ora, sons e cheiros me trazem tenras memórias e o barulho do meu salto batendo ao chão me chamava a atenção para a mulher que venho me tornando. O barulho, contudo, ressoava nos ouvidos como ecos de responsabilidades mil que agora me enchiam a rotina e pesavam um pouco nos ombros.

Toc, toc, toc. Era o som do meu presente de tanto pensar e batalhar um futuro.

Mudei o foco. O cheiro de dama-da-noite ao virar a esquina da minha rua me lembrou o dia em que me mudei para lá. Em seguida, fui retrocedendo, de repente, até chegar misteriosamente no cheiro do bolo assando no forno nas tardes de chuva das Laranjeiras depois da escola. Até chegar no som de uma só rodinha na bicicleta do play. E, por fim, cheguei no cheiro do lençol da casa de vó dos Janeiros ardentes na Paraíba, até perceber que alguém segurava, já impaciente, a porta do elevador para que eu entrasse. Uma nova sucessão de tocs - agora taquitocs - me enfiou correndo porta adentro e, de repente, casa.

A cabeça, aérea como nunca, insistia em retomar os cheiros e sons mais aconchegantes que a vida já me dera o prazer de experimentar. Talvez fosse o corpo pedindo uma trégua do mar de novidades em que eu nadava agora. Jogando a boia do aconchego antes que eu me afogue no desconhecido. Trazendo sons familiares para abafar os barulhos da mente e cheiro das flores de sempre pra não me perder nos jardins do presente.

sábado, 14 de abril de 2018

O dia em que quase briguei com Deus


Saí da praia às pressas aquele dia. Mal tinha pisado na areia e já era a fatídica hora de voltar, arrumar a mala e partir para te ver uma última vez. O sol daquele Janeiro no Nordeste torrava a cabeça dos preocupados e abençoava os despreocupados jogados no mar (tudo é relativo). Ah, essa volta. Enchi os olhos de lágrimas, vestida de férias, mas com a cabeça batendo panelas pelas ruas escaldantes de João Pessoa.

- O senhor poderia ir mais rápido, por favor? – perguntei ao taxista.

- Posso sim, senhora – respondeu meio sem graça ao ver meu rosto vermelho no retrovisor.

Cheguei, corri pro banho e me arrumei. Vestindo uma regata florida, ouvi reclamações de que a roupa não era pro clima. Uma regata florida. Você AMAVA flores! Tenho certeza de que elogiaria a estampa e faria, na semana seguinte, uma roupa ainda melhor, afinal, sua criatividade nunca encontrou um limite.

No carro, rumo à mesma Recife fúnebre que encontrei dias atrás, engatei a pensar, novamente, naquilo que pensava aqui no Rio, jogada na cama, imóvel de cansaço: por que você? As coisas nunca possuíram lógica desde o dia em que a doença chegou na sua (na nossa) vida. Eu queria brigar com Deus por nos fazer experimentar a vida envoltos em mistério, guiados apenas pela fé que precisamos cuidar para manter acesa. Por nos dar o gosto de viver, mas com a tarefa de crer. Eu queria brigar com Deus porque você era boa demais pra ir embora e nós precisávamos muito mais de você do que Ele. Senti raiva. Onde estava Deus, afinal? Por que nos momentos mais difíceis eu sempre achava que Ele não passava de uma imaginação humana? Uma criação desesperada?

Parei. A cabeça quase explodiu naquelas estradas vazias até que lembrei de um detalhe: você NUNCA questionou. Eu disse: você sabia do seu fim próximo e nunca, nem uma vez sequer, deixou de amar a vida exatamente do jeito que ela acontecia. Com dor. Com limitações. Com tratamentos. E com alegria. Você nunca pareceu sequer suspeitar de que nosso Deus havia te deixado um pouco de lado para tratar de alguém que, porventura, precisasse mais. Você apenas sorria e permanecia com seu humor que, cada vez mais, me soava paradoxal. Todo o seu dia, desde o despertar até o boa noite, era envolto por uma aura esquisita de felicidade plena e – pasmem - de paz.

Foi aí que entendi. Todas as vezes em que você dizia que estava tudo bem, eu me dei conta de quem é que estava falando comigo. Percebi o recado que estava sendo passado. Percebi que não era mesmo para me preocupar. Que quando você falava, Deus preparava nossos corações atordoados para ficar em paz do jeitinho que você estava. Me senti, então, naquelas tardes de Domingo, monótonas, em que saímos pela casa, tresloucados, procurando por horas o celular que está no próprio bolso, até acharmos e cairmos no riso. Ou os óculos que estão quietos no rosto. Ou a caneta agarrada bem ali na mão direita. Não era óbvio? Sorri.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Geometria

O lado ruim de viajar é que a cabeça e o coração se expandem tanto que passam a esbarrar nas paredes dos corredores estreitos da rotina.

Às vezes, gostaria de voltar à infância por 1 dia e brincar novamente com aquelas peças geométricas que se encaixavam em buracos com seus respectivos formatos. A cada perfeito encaixe encontrado, alguém comemorava ao fundo, aplaudindo com sorrisos o pequeno-grande feito.

Hoje, esbarrando vértices pontiagudos nas pequenas ruelas da mesmice, não sei que peça sou. Nem que lugar contém o meu formato, pr'eu deitar e comemorar a beleza que é viver.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

"Rema, que tá vindo"

Houve uma época em que eu resolvi aprender a surfar. Apesar de amante dos esportes, eu não levava jeito pra coisa e isso fazia a minha experiência com o surf ser bem diferente de outros alunos. A maior dificuldade e o grande foco do meu surf não era ficar em pé na prancha até o final da onda nem fazer alguma gracinha no trajeto, mas conseguir retornar para o local de origem quando a onda acabava. Por mais bobo que isso possa parecer, terminar a onda e voltar lá pra onde estavam todos era uma experiência tenebrosa e, não à toa, eu me lembro até hoje.

Quase sempre, na hora de voltar, a famosa "série" aparecia. Para quem não sabe, isso é uma sucessão de ondas, um tanto maiores do que as usuais para o dia, que vem uma atrás da outra, com um mínimo intervalo de tempo entre elas. Nesse conturbado retorno, acontecia de algumas ondas da série quebrarem antes de eu conseguir ultrapassá-las, o que trazia até mim uma violenta e espessa espuma, arrancando a prancha do meu corpo antes que eu pudesse mergulhá-la e evitar o susto. Mas não termina por aí. Uma vez que eu conseguia voltar para o resto do grupo e sentar novamente para descansar, com os ouvidos e a garganta repletos de água salgada, o professor (o mesmo cara que havia me ajudado a entrar na onda, mas pouco podia fazer pelo meu retorno até ele), de repente, falava o que eu odiava ouvir: "rema, que tá vindo". E saía remando em direção ao horizonte. Sim, mais uma dessas séries começava a se formar e o que você tem que fazer para não ser levado pelas ondas é remar contra elas como se não houvesse amanhã. Nesse momento, o maior desafio para mim estava lançado. Rapidamente eu deitava, posicionando o peitoral no ponto da prancha onde haviam me ensinado, já tremendo os braços, com o coração a mil. E aí, com o sangue inundado de adrenalina, ofegante e com os olhinhos arregalados, eu começava a remar rumo ao paredão de água que subia na minha frente. À medida que subia, a água da onda ia formando uma sombra sobre si mesma, tornando aquele cenário ainda mais assustador. Todos se separavam, remando cada um à sua maneira e velocidade, sendo o barulho dos meus braços puxando a água com força o único ruído que eu podia ouvir. De repente, quando parecia que não ia dar tempo de alcançar a crista da onda antes que ela me alcançasse primeiro, eu já estava lá no topo, vendo-a escorregar por debaixo da prancha. Esse momento era o mais gostoso pra mim. Enquanto todos se recompunham sentando novamente, como se nada tivesse acontecido, eu dava o suspiro mais aliviante do dia, sentindo a prancha descer a colina de água que eu havia deixado para trás. Orgulhosa de mim, com o troféu que só eu conhecia, eu amava a descida gostosa que vinha logo depois do sufoco, recebendo os respingos da crista da onda que o vento trazia pra refrescar os que não desistiram.

Você deve estar se perguntando por que eu ainda insistia em frequentar aulas de surf diante do estresse que aquilo me causava. É porque nas aulas de surf, ali dentro d'água, a única resposta que podíamos dar ao medo era remar rumo à origem dele e ultrapassá-lo antes que ele crescesse demais.
Curiosamente, no pico do sufoco, ali no auge do cansaço, com os braços já fracos de dor e sem a alternativa de parar, era também o momento no qual eu estava mais no alto e já podia abrir um sorriso cansado comemorando o que, pros outros, era normal.

Eu abandonei as aulas de surf por falta de tempo. Mas gosto de dizer que nunca parei de surfar. Volta e meia, numas semanas difíceis dessas, nas quais cada dia é uma onda da série, eu tento parar um pouquinho para me posicionar na prancha, lembrando com saudade do desenho que faziam na areia lá nos meus 14 anos (e eu fingia não entender só pra ficar mais tempo sem precisar entrar na água). Depois, só há uma direção para que eu reme sem poder voltar atrás. E então, as horas de maior desespero e suor se tornam, também, as de maior crescimento. 



sexta-feira, 26 de maio de 2017

Muro

Um dia, há muito tempo, fui injustiçada. É, bem direto assim mesmo. Escolhi mal as companhias, desperdicei oportunidades de sair fora e, por fim, fui injustiçada. O que se sucedeu a isso foi o nascimento, em mim, de um pequeno monstrinho, a princípio inocente: o sentimento de vingança. 

A partir daí, eu passei a imaginar situações hipotéticas por meio das quais a tal justiça poderia ser feita. Quer dizer, dar o troco era um objetivo claro e único, capaz de produzir as coisas mais malucas que a imaginação possa criar. Eu pensava, por horas e horas (sem notar) em como seria bom se, de repente, houvesse a oportunidade de estar no lugar certo, de frente pra pessoa certa e pôr um fim naquela pendência de uma vez. Cheguei, por vezes, a pensar em quem poderia estar comigo nesse dia, mas depois desisti e voltei a me querer sozinha. O sentimento de vingança é uma espécie de droga alucinógena que, por meio do pensamento (ou de ações nos casos de dependência grave), faz a gente acreditar que as hipóteses ali criadas são boas e aliviantes, não sendo possível identificar seu potencial destruidor nem observar a cadeia sem fim que integram, já que nunca é suficiente apenas uma ideia isolada.

De repente, comecei a notar que grande parte do meu tempo estava sendo doado para o sentimento de vingança e, por nunca realmente concretizar nenhum dos pensamentos de dentro de mim, eu passei a não conseguir mais administrá-los sozinha. Acho até que concretizar qualquer coisa maluca que eu chamava de "fazer justiça" iria, na verdade, evoluir o monstrinho-pokemon da minha cabeça e, talvez, nunca mais me deixar em paz - mas isso é outra história. Não conseguindo, assim, guardar só pra mim, resolvi revelar os efeitos da minha droga-vingança para uma amiga. Contei tudo o que tinha acontecido e o que meus dias haviam se tornado depois disso, mas tentando convencê-la de que a única coisa a ser feita em prol da paz interior era ir lá e devolver na mesma moeda.

Sabe, o sentimento de vingança corrompe o puro e nobre sentimento de justiça. A vingança pinta a justiça de preto e faz essa coisa tão grandiosa e necessária adquirir um ar sombrio que nunca lhe pertenceu. A vingança faz com a justiça a mesma coisa que o dinheiro faz com o ser humano: modifica e contorce até a essência sumir todinha, mas preserva o nome para que muitos não notem o estrago.

A conversa com minha amiga seguiu sem que eu ganhasse argumentação alguma:

- É como um muro - eu disse - que me impede de seguir. O muro é justamente a injustiça ali me olhando e, para transpassá-la de vez, preciso quebrá-la. Se eu usar as mãos é claro que eu posso quebrar alguns ossos, talvez o pé ao tentar chutar o muro, talvez o braço também mas, por fim, vencerei isso, passarei pro outro lado. Afinal, você espera que eu desista? Que dê meia volta e fique aceitando uma derrota? Quem que é injustiçado e simplesmente desiste de enfrentar a situação? - dizia eu, ardorosa, batendo no peito naquele cantinho anatômico onde a gente guarda o orgulho.

- A única forma de enfrentar não é quebrando o muro e, segundo você, dando o troco. O oposto de quebrar o muro não é desistir dele, mas pular por cima.

- E deixá-lo inteiro?!

- Não, pra trás.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Meu carnaval

Lembro que ano passado, bem nessa época do ano, eu retornava ao Brasil depois de viver o ano mais marcante da minha vida. O carnaval, vocês sabem, talvez seja a melhor época para retornos difíceis como esse. Quero dizer que, na ocasião daquele retorno, eu precisava de uma felicidade externa gritando por aí pra me fazer acordar e viver o dia de forma quase natural. Se dependesse apenas de mim, as coisas meio cinzas que eu carregava aqui dentro não seriam suficientes para me fazer levantar. Sendo assim, eu fui lembrando pouco a pouco, no meio daquele monte de gente feliz, que sorrir em qualquer parte do mundo é necessário. Por mais que estivesse decidida a manter minha cara fechada, alguma fantasia engraçada me contraía o canto da boca e a purpurina na cara até que ficava legal. O carnaval de 2016 me carregou nos braços e me deu além de boas vindas, uma injeção de ânimo.

Este ano, entretanto, escolhi sair do núcleo da folia pra uma breve injeção de ar puro, grama e cheiro de chuva com terra. Fui notando que olhar pra você acordando numa barraca apertada acelerava o coração e simulava as baquetas golpeando os surdos nas ruas. Era festa em mim como há muito eu não presenciava. Não tinha fila pro xixi nem ninguém pisando no pé, mas alguns contratempos fizeram parte do meu feriado do jeitinho que manda o figurino de qualquer carnaval. Falamos com desconhecidos, gastamos mais do que o planejado, bebemos pouca água e vimos o tempo sair voando como é clássico desses dias de festa. Eu queria multiplicar as horas do jeitinho que desejam todos os amantes da melhor época do ano.

Eu que outrora precisei desse feriado como fuga de um momento ruim, hoje utilizava esses dias como reprodução perfeita do meu Agora. Não te vi de fantasia durante o meu carnaval, mas qualquer figurino perderia o sentido pro quão real você é. 

Desta vez, quando chegou a quarta de cinzas, sorri quietinha ao acordar e perceber que meu carnaval tem purpurina pra durar daqui pra frente.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Domingos

Nunca gostei dos cheiros que o Domingo exala. Quer dizer, as coisas todas tem um cheiro: o mar, o suor, o livro, o café, o sexo, o medo e, é claro, os Domingos.

O primeiro cheiro desse final ou início de semana era do almoço ultrapassando as frestas da porta e cobrindo meu corpo ainda adormecido. Em vez de despertar com o cheiro de café invadindo as narinas, eu acordava cheirando a óleo de mim mesma e churrasco da varanda do vizinho. Domingo seguia, então, preguiçando pelas horas assustadoramente rápidas que, assim como eu, detestavam demorar demais nesse dia. Ao sair na rua, havia o cheiro do perfume das famílias passeando rumo ao Jardim Botânico. Cheiro dos cachorros correndo na praça, do cigarro do flanelinha correndo atrás de um carro, do frango rodando no boteco da esquina. Domingo tinha cheiro de peixe de feira, de fumaça de moto e de asfalto evaporando daquelas poças invisíveis que o calor faz a gente enxergar. No fim da tarde, vinha o cheiro que mais desgosto: o das tarefas inacabadas. Ah, Domingo era quase uma força do além puxando meu corpo fraco rumo a um poço de improdutividade.

Rapidamente, Domingo ganhava o cheiro da noite chegando e, consequentemente, das luzes acesas no quarto abafado. Havia o cheiro das roupas empilhadas na cama por fazer, de moedas espalhadas na escrivaninha e de café seco em xícaras vazias.

De repente, o cheiro de Segunda invadia a sala, abafando todos os cheiros que Domingo carregava. Domingo ia embora silencioso, sem se despedir. Nunca se despedia, como se, no fundo, soubesse que algum cheiro estranho surgia toda vez que entrava em cena.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Leito 05

Noventa e três anos. Eu olhava para você notando as linhas que cada um dos noventa e três anos havia deixado no seu rosto magro. Noventa e três anos. Se eu juntasse três vidas minhas, não conseguiria chegar a uma sua. Te ver naquele leito, dormindo encurvada, invadida por tantos acessos e com os pulmões enchendo por máquina me fazia pensar. Será que teve a chance de se apaixonar? Será que viajou para algum lugar sonhado? Quantas vezes comeu a comida favorita? Mergulhou no mar, abraçou alguém, assistiu a um filme que tocou o coração? 
Eu olhava para você tentando imaginar a vida que o seu sangue pulsando carregava. Tentando imaginar a história por trás do corpo consumido sobre aquele leito de CTI em uma tarde de segunda.
Quantas vezes você teve a chance de ver o pôr-do-sol? Quantas vezes cantou alto a sua música preferida?

Chamei o médico.

- O que houve? - perguntou.

- Está desconfortável ao respirador - respondi.

Ele checou. Não estava. Me olhou sorrindo com um olhar fraterno que alguns têm ao olhar para projetos de médicos inseguros, como eu. Checou, também, a sedação e analgesia. Tudo ok. Saiu.

Não havia nada errado. Eu é que estava desconfortável. A faculdade de medicina não havia me ensinado. Digo, aprendi o mecanismo do respirador, os modos de ventilação, os fármacos para sedação e analgesia, as escalas de avaliação mas, de fato, não me ensinaram a lidar com o desconforto de se estar de frente para a vulnerabilidade humana.

"Não queria estar no seu lugar" - pensei. Mas logo a cabeça fez lembrar que um dia sou eu. Queria que, quando for a hora, alguém olhasse pra mim (pode ser um estudante confuso ou alguém sem jaleco mesmo) e chegasse à conclusão de que uma vida bem vivida (ou não) merece sim uma morte bem morrida. Merece ir embora sem que nenhuma memória gostosa escape sem querer pelo tubo do respirador. Sem que nenhuma dor no leito de um CTI seja maior do que as dores de saudade que a vida causa na gente. Ou do que as dores de amor, que rasgam tudo por dentro mas que fazem a gente se sentir vivo como nunca.

Eu espero te ver semana que vem. Mas, se não der, espero que Deus esteja lá sentado pra me contar que você estava em paz.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Lista

Lembro que quando eu era pequena, me reunia com meus primos e irmã lá na casa de Campina Grande, na Paraíba, naquelas tardes incandescentes de verão, com cheiro de cocada no forno percorrendo os corredores. Enquanto todos dormiam derrotados pós-almoço, a gente sentava em volta do centro da sala, naqueles tapetes brancos felpudos, para decidir o que iríamos fazer. Sim, havia uma votação para elegermos três coisas a se fazer durante a tarde. Então, cada um escrevia suas três opções preferidas num papel e, em seguida, votávamos para eleger o top 3 geral. Dava certo porque as opções eram sempre as mesmas, de coisas que a gente já estava acostumado a fazer mas, naquela época, a rotina perdia a luta para o encantamento que criança tem com as coisas da vida. A nossa lista de afazeres percorria coisas como: brincar de detetive de papel, catar soldadinho (uns bichinhos engraçados que habitavam o quintal), catar siriguela no terreno, ver filme de terror, roubar comida da despensa e esconder (por algum motivo, a gente AMAVA roubar as coisas da despensa sem ninguém ver), ouvir o CD de Sandy e Júnior e coisas assim das mais simples e estranhas que você pode imaginar.

No entanto, eu não consigo me lembrar da última vez em que minha lista de afazeres foi recheada de coisas assim tão leves. Não falo sobre voltar a ser criança, pois as responsabilidades chegam para todos nós, mas falo de leveza - coisa que não deveríamos perder em nenhuma fase da vida. Sem querer ser utópica, reformulo: eu não consigo me lembrar da última vez em que minha lista de afazeres continha um tópico sequer que fosse leve como os soldadinhos do quintal, que chegavam a voar levados pela brisa do fim da tarde. Cometi o erro de me deixar levar pela correnteza da ansiedade, contra a qual nadei com tanta coragem durante meu ano no exterior e, agora, minha lista de afazeres devora meu dia num piscar de olhos, deixando de resto um corpo cansado, deitado sobre a colcha da cama de calça jeans e sutiã.

Preciso parar. Sentar em volta da mesa do centro e repensar minha lista de coisas a se fazer no dia, na semana, na vida, talvez. E quando a responsabilidade da vida adulta pesar demais ao percorrer os itens da lista, espero que eu lembre de imediato que vida é doce como a cocada saindo do forno, como as colheradas do achocolatado da despensa e as frutas madurinhas do terreno do vovô. A vida é doce sim.

domingo, 16 de outubro de 2016

Filme

Houve horas em que te observei sem que você percebesse, como um filme daqueles que a gente não espera encontrar ao passar os canais da TV numa noite quieta de sábado. Assistia a trechos, depois mudava o canal subitamente e voltava a prestar atenção no entorno. 
O filme de você era bonito demais. Em algumas cenas, você tentava ajustar a música com o computador apoiado no degrau da escada. Nessa hora, eu assisti ali do alto do corrimão em silêncio. Outras vezes, passava por mim com pressa, procurando alguma coisa que há segundos estava na sua mão ou mudando as almofadas de lugar. A câmera dos meus olhos acompanhava sem perder detalhe algum, até que parou e filmou você de costas, captando o áudio que vinha do violão e, de vez em quando, uns sorrisos de perfil que você deixava escapar. Às vezes não havia foco, porque eu estava perto demais. Outras vezes, havia só um corte bem de pertinho das curvas das suas costas, me lembrando aquelas dunas de areia intocadas do deserto, lisas e sem nenhuma imperfeição, nas quais a gente tem vontade de se jogar quando vê em foto por aí. Fazia calor mesmo. De vez em quando subia um fogacho me queimando a pele, mas o frio na barriga - constante elemento dos meus encontros com você - tratava de refrescar o corpo inteiro pra mim.

Você é filme. Me lembra a música de Cordel, numa versão modificada. Você é filme! "Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando você passa. Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica. Dá felicidade, dá duvida, dor de barriga!" Você é filme.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Flor da mesa da sala

Lembro daqueles amores intensos. Das raras vezes em que eu tinha certeza de querer tanto alguém que nada mais importava muito. Essas paixões que chegam do nada e, infelizmente, costumam ir embora tão rápido quanto apareceram. Acabamos esquecendo daquilo que chega devagarzinho. Acostumados a uma vida de sensações arrebatadoras e fugazes, esquecemos que amor também cresce aos pouquinhos. A gente sabe muito bem que pequenos danos, pouco a pouco, desgastam relações inteiras a longo prazo, mas não paramos pra pensar que carinho e companheirismo, de pouquinho em pouquinho, constroem um amor inteiro quando menos esperamos.

Chegar na primavera e ver um jardim imenso, colorido, transbordando de flores, é de brilhar os olhos e encantar de cara. Apaixona o coração de quem teve a chance de ir cheirar ali, quase sugado por um perfume desconhecido e intenso. Mas é preciso lembrar da flor que é regada, dia a dia, e que a gente chega até a esquecer que ela também desabrocha. Quietinha, ninguém a viu chegar.

Mas desabrocha. Aí a gente se espanta com a beleza no meio do que, um dia desses, era terra. E fica de cara com o quanto ela dura ali na mesa da sala. E vai durando. Uma coisa tão pequena, que eu mesma não vi chegar. E vai durando. E causa apego de modo que sem ela a mesa da sala nem é mais tão bonita.
A flor não-arrebatadora apaixona devagar. 

domingo, 28 de agosto de 2016

Só ir

Tenho a mania de querer dizer tudo. Qualquer coisa que angustie ou que me deixe feliz, lá vou eu falar sobre. É bom ser transparente. Tanta coisa boa já me ocorreu por causa disso. É bom abrir o peito e a boca pra tirar de dentro uns pensamentos tóxicos e dizer as coisas das quais discordo, principalmente. Mas ser assim tão nua já me fez perder grandes oportunidades de permanecer calada.

O silêncio é o carinho que a alma precisa às vezes. Muita palavra dita no calor de uma resposta pode parecer um detox instantâneo, mas tantas e tantas vezes volta maior e com mais dor pra um canto qualquer escondido no corpo. E aí vai te causando o mal estar tardio que você jurou ter evitado. Aquela náusea chatinha de uma coisa que na hora parecia a pílula da renovação. Que nem ressaca de droga, que vai corroendo o corpo depois de horas infinitas de uma sensação gostosa.

Teste sair de fininho. Vá deixando pra trás o que não pede o seu gasto de energia em longas e intermináveis conversas, mas simplesmente um desapego quieto, calado, discreto e final. Como naquelas festas das quais você quer ir embora, mas falar com todo mundo e explicar que já está indo é tão mais desgastante do que simplesmente ir. Só abrir a porta e ir.

Tenho a estranha mania de, ao avistar a porta, dar meia volta pra dizer sei lá o que pra uma multidão que não ia nem notar o meu sutil movimento. Discorro sobre ir embora da vida de quem eu não sei nem se chegou a notar minha chegada. É curioso esse gasto de energia em um simples abrir de porta. Preciso parar. Esqueço, bobamente, que sempre pude andar até a porta. Que ela sempre esteve lá, à vista. E a chave sempre esteve aqui no bolso. É só ir.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Encontro marcado

Cheguei já de noite, como de costume. Entrei no quarto, sentei na cama, olhei em volta. Um livro inacabado, uma apostila, um caderno e umas canetas (sempre) me rodeavam. Abri a apostila. Questão 1. Questão 2. Questão 3. Fechei. Levantei, encostei a porta, apaguei as luzes e deitei.



Deitada encolhidinha, coloquei um despertador para dali a 25 minutos. Calada, fechei os olhos que, na verdade, caíram como duas portinhas de chumbo e ali ficaram. Barulho de talher na cozinha, de botão do microondas, de portão de garagem apitando ao longe e uma sirene de ambulância mais longe ainda. O coração batia no ouvido, como naquelas vezes em que a gente deita a cabeça numa posição estranha e ouve o sangue pulsando todinho. Era bom. O som de mim mesma foi lentamente vencendo os ruídos externos, mas ainda deixava a respiração participar da sinfonia que se formava aqui dentro. O estômago embrulhado murmurava baixinho uns sinais de maus tratos e eu sentia as mãos aquecendo enterradas no corpo, enquanto os pés gelavam dos sapatos recém tirados. Sentia o jeito como os pelos arrepiavam no friozinho da noite no Jardim Botânico. O jeito como os dentes encaixavam com a boca fechada. O jeito como o cabelo bagunçado vendava os olhos e me protegia dos postes de luz da cidade sempre viva. Era bom estar ali, reconhecendo cada canto de mim mesma. Era bom sentir que eu tinha o controle da matéria deitada sobre a cama; que corpo e alma ainda se abraçavam e, em vez de um ser cárcere do outro, eram bons e velhos amigos que às vezes se desencontravam nos labirintos de rotinas doidas. Era bom demais estar ali. Os pensamentos das obrigações, que há alguns minutos aceleravam o coração ansioso, deram lugar a lembranças de suco de mangaba na Paraíba e brincadeiras no play das Laranjeiras, me fazendo lembrar direitinho quem é que estava ali deitada. 
Não, eu não era um corpo moribundo à deriva no mar da rotina. Eu era TÃO mais que isso e tudo o que precisava era de mais desses encontros marcados comigo mesma.

Senti alguém se juntar a mim e participar da sintonia corpo e alma que eu vivenciava ali sozinha. Mas quem poderia invadir algo tão íntimo assim? Eu não sentia outro corpo, mas jurava que alguém estava de conchinha ouvindo comigo meu sangue pulsar no travesseiro. 
Era Deus, concluí. Perguntei por onde andou nesse dia tão comum e Ele sorriu sem dizer nada. Pediu que eu nunca deixasse a vida lá de fora tocar o ritmo da vida aqui de dentro. Que toda vez que corpo e alma brigassem, que eu parasse um pouquinho para que fizessem as pazes de novo. Me disse que um cérebro superestimulado não escuta com clareza os anseios de um espírito negligenciado.
Refleti em silêncio.

O despertador tocou. Levantei vagarosa, esticando os músculos do corpo (menos) cansado. Sentei na beira da cama e disse baixinho:

- A partir de hoje, todas as noites, temos um encontro marcado. Eu, minh'alma e você.