quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Pra não doer demais

Existem pessoas que simplesmente estão de passagem. Você pode sentir saudade. Querer que volte. Que o filme se repita. Mas não sabe que elas entraram na sua vida para realizarem a dolorosa função de saírem dela um dia. Aqui no meu desabafo ninguém morreu não. Ninguém desapareceu, nem deixou de existir. É gente que continua existindo depois sair pela porta dos fundos. Mas algum dia, não se sabe por que nem muito bem a partir de quando, a pessoa foi a peça perfeita no quebra-cabeça da sua vida. Mas, sendo a vida um processo, uma coisa fluida, mutável, inconstante e absolutamente imprevisível, deixe-me revelar a você que todas as peças mudam de forma nesse jogo. E simplesmente um dia você acorda sem encontrar o encaixe perfeito que existia anteriormente. E aí parece que fica um buraco. Parece que a coisa desanda. Mas é só a vida te cobrando um tempo pra que tudo se ajeite novamente. Então outra peça toma o lugar da antiga. Trazendo a harmonia que você tanto se esforça pra ter consigo, sempre. Mas que graça haveria se todos os encaixes de gente na tua vida fossem perfeitos? Graça nenhuma, eu te digo. A dor da despedida não é pior que a dor silenciosa da rotina. É melhor tirar o curativo de uma vez só, do que puxá-lo lentamente, ponta por ponta, e você já está cansado de saber. Toda pessoa incrível que sai de nossas vidas do dia pra noite, toda peça que muda de forma pra você é um curativo puxado em 1 segundo. Quando você tenta remoer o ocorrido, tenta voltar, se martiriza forçando um contato que já não existe mais, que já não faz mais sentido a não ser na ilusão que você mesmo constrói por medo de enfrentar a coisa de cara, quando age desse jeito, está puxando o curativo da forma mais lenta que pode. Mais dolorosa. E sem assoprar.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Aos editores

Imagino como deve ser a vida desses cronistas de jornais e revistas de renome. O prazer de escrever; de correr com a ponta do lápis linha por linha em um papel de rascunho qualquer; de apressar o passo atrás das letras quando elas começam a caminhar com pernas próprias, termina industrializado. O texto tem que sair. O prazo tem que ser cumprido. Os leitores estão esperando, e tempo, desde que você nasceu, é dinheiro!Não...palavras são dinheiro. Mas então, eu acredito que esses escritores devam ter um momento a sós com seus rascunhos. Porque não há coração que segure tanta artificialidade quando o que mais se precisa é de um bom e espontâneo desabafo em rabiscos. Palavras tão gritantes que parecem caladinhas quando deitam no papel. E a tua dor? Logo se cala também. Ainda que provisoriamente. Sim, eles têm desses momentos. Se trancam no banheiro e em vez de pegarem a gilete para maltratar os pulsos, em vez  de colocarem a escova de dentes na garganta- como uma adolescente de corpo perfeito- ou em vez de jogarem água gelada na nuca pra passar a ressaca, eles param. Sentam. Pegam dramaticamente um pedaço de lápis ou qualquer coisa que escreva. Um papel amassado do bolso. E se deleitam com os riscos. E o prazer não se descreve nessa hora. É a dose de palavras que pediram o dia todo. Como a dose de uísque que pede o alcóolatra em crise. É a dose de expressão que aquela dorzinha aguda lá do fundo pedia para ter. Discreta, mas torturante. E, acima de tudo, humilde. Porque não queria mil olhos lendo a sua versão escrita. Não queria os holofotes que recebia do segundo caderno do jornal. Da sessão especial da revista. Só queria estar ali, com seu fiel dono em desespero. Pura, simples, escrita, sincera, rápida e espontânea. Ufa. Desculpe. Achei que devesse saber disso.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O que há de bom na inveja.

Você já devia saber que sempre haverá esses maus elementos. Sempre que a tua felicidade chega ao pico, é preciso lembrar que a raiva de alguns também aumenta. Quanto mais alta for a escada, mais baixo será o que ficar parado no chão. Então, sempre que o teu bem-estar atingir níveis extremos, a inveja lá embaixo também atingirá. Então não se preocupe. Eu já disse e repito pra que você esqueça esse rastro negro que temem em colocar nos sorrisos mais felizes, e viva o que quiser viver. Pense pelo lado bom. Não é mais gratificante atingir algo quando se nada contra a correnteza? Quando há obstáculos no caminho? Assim são os invejosos. Fazem de tudo pra frear o teu êxito. Mas acabam tornando a linha de chegada um mar de rosas ainda maior. Afinal, não existe doce sem o amargo. Não há felicidade sem a lágrima. E não há prazer nesse mundo que se sustente sem a dor.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Sobre felicidade.

Felicidade, pensava ela, era gostosa assim porque era uma das coisas mais intangíveis que existiam nessa vida. E só vinha em ondas. Assim, de repente. Sensação de anestesia. Coisa invadindo mesmo. Chutando a porta de você e entrando como rainha, já conhecedora da casa que havia deixado por uns tempos. Talvez estivesse de férias...mas nao importava. Dessa vez chegara forte. Ou talvez fosse ela que estivesse fraca? Também não importava. O que realmente devia ser levado em conta é que a felicidade havia chegado. Era meio rosa. Amarela. Laranja. Quase um sol se pondo. Não! Nascendo. Sim, porque agora as coisas nasciam na vida dela. Fazia questão de aniquilar as velhas. Pois não eram lembranças. Eram lixo. Lixo podre. E no lixo havia dias, momentos, acontecimentos pontuais e, principalmente, pessoas.
Já havia feito a cova do ano de 2010. Orgulhosa estava só do finalzinho dele. Mas o final era tão disfarçado de 2011 que podia vir pra ala das coisas novas. E realmente importantes. E que todo o resto se apagasse. Era assim que pensava. Era assim que se sentia. E tinha todo, mas todo o direito.
Felicidade...repetia ela. Respirando um ar novo.
Felicidade. Parecia um fantasminha. Ela não via. Mas sentia a felicidade brincar com sua boca, colocando sorriso bobo e fácil. Ouvia a risada de dentro dela mesma. E sentia as cócegas que a vida agora lhe fazia.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Tempo rei

Ah, ela tinha saudade sim.
Dessas coisas que produzem sorrisos de graça. Tinha saudade de dormir até tarde. De sair pro sol e só voltar pra casa quando ele voltasse também. E, ainda por cima, tendo o prazer de degustar aquela longa despedida de todos os fins de tarde, para a qual a sua cidade sabia ser o melhor palco do mundo. Tinha saudade dos 18 anos que sentia não ter completado. Saudade da bicicleta na orla, com vento. E sem relógio. Saudade da cerveja com mesa na rua. Do futebol. Sentia falta de sair e voltar com a manhã lhe pedindo pra ir pra casa. Fazia falta também o cinema, não perder um filme sequer. Sentia saudade do namorado, pra quem nunca havia tido muito tempo. Até os dias de chuvas torrenciais faziam falta. Porque esses dias, ao contrário do que pensam, não são de tristeza ou tédio. São dias de lugar aconchegante, livro bom, todo mundo na mesma casa, baralho na mesa, conversa sem pé nem cabeça e a simples e prazerosa sensação de não fazer absolutamente nada.
Sim, alguns diziam que ela estudava demais. Que se preocupava demais. Que era irritada demais.
Mas ela sabia o que estava fazendo. E se tinha algo de que ela não abria mão, era de um objetivo traçado. Entrou na cabeça, pronto. Só sossega quando puder aplaudir toda a sua dedicação. Que leve meses, 1 ano, 2 anos, 3 anos. Isso não importava. O que queria era a conquista que havia saído pra caçar.
Mas isso era caro. E ela, assim como todos, não tinha energias infinitas. Torcia pelo fim disso. Há tempos que não se reconhecia mais. Pela cor pálida que já a incomodava. Pelo sono acumulado. Pela grosseria que às vezes saía de sua boca pra quem não merecia pagar por isso. Ela não era assim.
Era mais livre que isso.
Talvez fosse drama, pensava. Mas logo sentia que não. Estava no seu completo direito de pedir arrego. De implorar pela passagem rápida dos dias e dessa rotina já forçada, automática, desgastante e difícil. Sim, difícil. E não ouse dizer a ela que ela ainda não conhece as verdadeiras dificuldades da vida. Cada um atravessa os obstáculos de acordo com sua experiência de vida e/ou condição não escolhida. E enquanto fosse aquela menininha em crise, estaria exausta e não a enxergaria em seus próprios olhos castanhos, toda manhã quando se encarava no espelho. Até a imagem a incomodava. Porque dentro do corpo cansado, mas resistente, havia uma alma já em pedaços, gritando com todas as forças pela fuga.
Achavam que tudo isso era pela fase decisiva que atravessava nos estudos.
Mal sabiam eles...que, além da cabeça derrotada, da perda excessiva de peso que não havia procurado e dos olhinhos querendo dormir, o coração tinha dado trabalho esse ano. E pedia, com toda razão, por momentos de renovação, de ânimo e de vida.

"Já vai passar" , repetia baixinho, todas as noites, antes de dormir.
"Já está passando", respondia outra voz, alguém que ela não sabia dizer quem. Mas que a confortava toda vez que fechava os olhos.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Surto


'Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma. Até quando o corpo pede um pouco mais de alma.'

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Fim dos moldes

É um apelo. A única coisa que peço. É que este mundo aceite mudanças. Que não haja repressão quanto à personalidade. Que não haja depressão eterna e dramática pelo fim de um grande amor. Eu peço que aceitem, todos os dias, a mutabilidade da vida. Vocês sabem (eu sei que sabem), que a vida é um processo. E como tal, não permite estagnação. Definir-se É estagnação. Tem dias que você acorda com aquela espinha no rosto. Outros dias, parece que cresceu mais cabelo. Ou então, acordou mais magro. Às vezes acorda com uma vontade louca de comer doce. Outras vezes, acorda sem vontade de acordar. E quando o dia realmente começa, tem tanta gente nova que aparece. Mas o que eu quero destacar é aquilo que você teima em negar. Tenho certeza de que, a cada dia, suas vontades mudam também. Às vezes dá vontade de inovar. E você se prende. Porque toda uma platéia está a te vigiar. Por favor, esqueça. Por favor, eu peço que valorize a vontade de ser outro. Se isso não for prejudicar ninguém, faça. Reprimir desejos é a pior tortura que alguém pode fazer a si mesmo.

Valorize a mudança, meu amigo.

Porque já disse a Biologia.
Só evolui a espécie que muda.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Despedida

Meu bem,

Se há algo que perdemos nessa vida, não é a companhia dele, as fotografias dela ou a confiança dos outros.
São canetas Bic, elásticos de cabelo, um só brinco do par e a paciência para o amor.

Mas, nada de pânico.

Essa última é que nem criança no shopping. Logo, logo alguém anuncia pra você ir lá buscar no setor infantil do piso 2.
A paciência é algo assim.  De repente alguém vem e te anuncia que encontraram a danada lá em outro coração.

sábado, 27 de novembro de 2010

Tesoura da sua vida

Estava eu, ontem, naqueles dias vestibuláveis que já conto as horas para que terminem. Com a paciência que finjo ter no presente momento da minha vida, eu estava escrevendo um texto, desejando que a UERJ explodisse. Era sobre proibições na vida do homem. Enfim, só sei que no meio daquele super passatempo sacrificante pra uma noite de sexta, começam a gritar as crianças da casa do lado. Tem tipo um pátio/garagem ao ar livre que, todos os dias, vira um parque de diversões. Elas gritavam. E a redação travou. Elas gritavam e eu acompanhava com o ouvido a brincadeira. A irritação subiu à garganta e, como uma boa e cansada vestibulanda, quem gritou fui eu aqui em casa:


- Mãe, ATÉ QUE HORAS A LEI DO SILÊNCIO PERMITE FAZER BARULHO NA RUA?

(Sim, eu estava incluindo a brincadeira das crianças como um tópico da Lei do Silêncio. Isso se chama estresse).

- Até 22h, filha, por quê?

- Porque essas crianças só conseguem brincar se tiverem um ataque de histeria. São 21:30, se não pararem até 22h eu vou lá. Você não acha isso um absurdo?

Ela riu. O que aumenta ainda mais a irritação numa hora dessas.

-Luiza, elas estão brincando. Você também gritava quando descia pra brincar.

- Não, não. Eu brincava normalmente, sem ignorar que vizinhos existiam, independente do meu mundo mágico da infância.


Enfim. Eu não desci, e isso é óbvio. Desisti do texto e fui arejar a cabeça, ver um filme, comer algo na varanda. E ri um pouco, sozinha, de mim e dos meus pensamentos de alguns dias difíceis. Eu queria chegar lá e mandar todos calarem a boca. Tipo cortar a graça. Por causa da lei do silêncio e, pior, por causa da minha redação. “Não pode. Não pode gritar agora. Todo mundo calado.”

E aí viagem começou.


Penso que esses cortes no viver do homem podem dar um ar de disciplina pra quem vê de longe. Mas no fundo, bem no fundo, fica um desejo que não morre assim por decreto não. Pelo contrário, fica forte, como se fosse um protesto pela tentativa de homicídio que ele (o desejo) sofre todo dia. É que nem saudade. Quanto mais se tenta suprimi-la, mais fortalecida ela fica. Assim é, pois, o desejo humano de ser livre. E olhe o que estou lhe falando...a própria natureza me prova que é assim: desses cortes repentinos, cresce mais e mais o que você tentou disciplinar. Sim, digo natureza porque ela já cansou de demonstrar: quando se poda o ramo de uma árvore, crescem ramos laterais. É assim. Não me faça explicar. Você corta uma ponta-mãe, e crescem, então, as pontinhas-filhas pelos lados, deixando a árvore com a copa mais gordinha. E então ela ri de você e de sua tesoura estraga-prazeres (caso a sua intenção fosse realmente diminuí-la).



Por favor, não pensem que eu não sei que a vida em uma sociedade racional seria completamente inviável não fosse o mínimo de consenso proporcionado por alguns pontos da lei. Mas o que quero lhe dizer, leitor, é que não se pode utilizar a tesoura estraga-prazeres com pessoas, assim, de repente. Não estou aqui para fornecer uma revolucionária alternativa às normas para que todos sejam bonitos e felizes, ao mesmo tempo. Não. Mas você me entende...só estou dizendo que a supressão da liberdade do jeito que é aplicada não está sendo eficaz. Ninguém deixa de usar drogas porque é proibido. Outro dia um indivíduo correu pelado na praia de Botafogo. E isso é proibido. Já vi um casal de namoradas receber uma “advertência” do segurança de uma boate não-gls por darem um selinho. Na (limitada) cabeça de muitas pessoas, isso é proibido. Meu Deus. Será mesmo que PROIBIR é tipo uma palavra mágica? “Não pode”, “Ta bom”. Se a coisa proibida não remeter a crimes de assassinatos, roubos e outras atrocidades unanimemente proibidas (por motivos óbvios), então é preciso tomar cuidado. Cortar o prazer, apagar a luz do show, expulsar a platéia ou os convidados da festa cultivam uma coisa em potencial lá no fundo, fruto de uma supressão do desejo próprio do homem. Fruto de uma equivalência errada do ser humano a pontas de cabelo, borrões de lápis e manchas na blusa. Você corta, corrige. Você apaga, corrige. Você lava, corrige. Mas você proíbe, e corrige?



Eu poderia continuar falando e desabafando com você que teve a paciência de chegar até esta linha. Poderia discutir com você, então, qual é a melhor forma de “corrigir” o homem. Mas isso é outra história. Agora, eu termino esperando que amanhã aquelas crianças gritem muito. Mas provocativamente muito. E eu inclusive jogarei uma faixa pintada por minhas próprias mãos, para que elas pendurem orgulhosamente no gol do futebol (a origem de todos os gritos) em frente à minha varanda:



“SOMOS FELIZES, NÃO PERTURBE”


Luiza Toledo.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um brinde

De vez em quando sinto aquele ímpeto de renovação individual antes do reveillon. Sim, porque no reveillon ninguém está imune à gostosa sensação de que tudo será diferente no ano que se inicia. Vontade de sorrir. A roupa branca dando um ar de limpeza da sala antes ocupada pelo ano que se despede. E a casa nova pronta para receber o mais novo integrante da sua vida, o ano novo. Todo o turbilhão de emoções é natural dessa data. Mas o que tenho para lhe falar hoje é que meu ano novo chegou antecipado. Veio me consolar dando uma amostra de boas surpresas e acabou me colocando em um clima bom, renovado e, finalmente, disposto. O bom da vida é ser esse processo não cíclico. Quando você acha que já pode ser comparado a um móvel velho e empoeirado, a uma relíquia da natureza ou a um robô e sua rotina, vem uma coisa e surpreende. Um belo dia hoje. E eu só precisei fotografar um par de olhos pra que ele valesse a pena. Fotografo com os meus próprios. Porque nada é um banco de dados tão perfeito quanto a mente humana. Ou seria o coração?

"Os ventos que às vezes tiram algo que amamos são os mesmos que trazem algo que aprendemos a amar."

Feliz ano novo.

domingo, 14 de novembro de 2010

Desconhecido

Conheço tudo de você. O seu prato preferido. O lugar de que mais gosta. Sei que ama o pôr-do-sol. Não gosta de acordar cedo. Sei dos livros que te atraem. Sei do teu medo maior. Sei que gosta de cigarros. Sei que ama chocolate. Sei que gosta de cerveja. Sei que a praia é teu lugar. Conheço bem o teu sorriso. A tua cara de cansaço. Sei qual é o teu perfume. O desenho do all-star. Eu copio a tua letra. Eu conheço a tua música. Não larga o violão. Não engole desaforos. Não aceita injustiça. Quando é sol tu queres mar. Quando é chuva, mar também. Conheço a tua silhueta. Cada curva do teu corpo. Cada traço do teu rosto. Sei que gosta de rir alto. O cinema é relaxante. As viagens, tentadoras. Sei da mancha da tua íris. Sei de todas as manias. Mão no cabelo. Mão na nuca. Mordida no lábio. Riso de lado. Dedo estalado. Eu conheço a tua voz. O tom, o timbre e a frequencia. Tanta coisa, bem querer. Conheço a fundo o teu estilo. Tanta coisa, meu amor. Mas o teu coração, meu bem, é um mar de obscuridade. Caixinha de códigos em braile trancada a 7 chaves.

Por quem te conhece de verdade.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Nós

Nunca estás sozinho. Há dias em que precisas de outros braços como uma mesa precisa de seus apoios. Deixe então que a tua vida seja uma sala de visitas. Não me refiro a uma praça pública. Mas deixe o teu caminho ter halls de entrada, sirva um café ao inquilino e, quando bater o tédio e a vontade de dar mais uns passos, deixe aberta a porta dos fundos para que se encaminhem os indesejados. Não ande em corredores, pois eles são uma linha de estreitas paredes. Não vês a luz, nem os rostos alheios nesses caminhos sem bifurcações tentadoras. Queira as portas e as janelas. Pois eu repito: nunca estás sozinho. E quando bater o desespero, a sensação de insegurança, solidão repentina e a leve impressão de que só sobrou você na eterna brincadeira-de-nós-todos, eu quero que se lembre da borboletinha que vive apenas dois meses e, apesar disso, a sua viagem anual dos EUA até o México termina com sucesso. Sabe como?

Este vôo épico envolve nada menos do que 4 gerações de borboletas.

Nunca estás sozinho.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O tal do fim do dia.

Eu entrei no carro, direcionei o ar pra mim. Disse um "oi" arrastado e cansado. Enquanto ela dirigia, eu fechava os olhos, ainda colocando o cinto e tirando a mochila do colo.
O dia começou em comum na mesa do café. Depois sempre nos separamos numa bifurcação por demais contrastante. E no fim, estávamos ali. Cada uma com seu dia nas costas, mas com o final em comum.
O estresse estragava qualquer início de diálogo.
Eu tocava as pálpebras com os dedos gelados. Tentando me tranquilizar.
Ela acelerava nas ruas já sem movimento; a cidade toda recolhera seus pesados dias e foram desmaiar na cama.
No rádio, uma voz que anunciava o convidado da noite na MPB.

"Olha, você não faz ideia do que passei no meu dia hoje." - disse ela.
Eu retrucava, entrando na inútil e boba disputa de quem tem o maior cansaço.
Finalmente, quando o silêncio chegou e a casa estava próxima, olhei e vi como ela era linda. Ela ia chegar em casa, colocar um sorriso falso no rosto e receber as visitas que aguardavam pro jantar. Que coisa tola essa de postura social. Seria tão mais legal entrar e falar " saiam todos. comam em outro lugar porque só quero tirar essa roupa e amar minha casa como nunca".
Eu desejei poder falar isso por ela.

Mãe tem dessas coisas. Vivemos num 8 ou 80, preto ou branco, bipolaridade semanal, fins de semana alegres e segundas-feiras cinzas, abraços, gelos, manha, bom dia, boa noite, vem comer, vai dormir, vai sair? vai voltar?.

E no fim gostamos. Porque olho pra ela às vezes, e alguma coisa boa invade o peito. Me dizendo que não há coisa mais certa. Coisa mais minha. Coisa mais rara.

domingo, 24 de outubro de 2010

Não serei escritora dos amores passados.
Não direi o que penso, porque as palavras saem cortanto. Elas cobram pedágio para estar aqui.
Queria conseguir transmitir a você, leitor, o que sinto agora. Ou melhor, o que não sinto. Estou numa estranha insensibilidade. E, o que é mais estranho ainda, pareço estar em uma aguda felicidade.
Sinto que consegui recuperar todas as partes de mim. Pois eu estava dividida. E agora estou egoísta. Mas posso, não posso?
Me dói quando a cabeça pede pra pôr em palavras os acidentes do coração. É tarefa árdua. Requer força. E muito controle. Sangue frio também. Pra não se assustar quando a palavra (mesmo escrita por minhas próprias mãos) me revela algo que nem eu mesma sabia que guardava em mim. Angustiada. São pequenos golpes quando a escrita toma vida própria e faz das minhas dores um filme pra mim mesma. Como uma desgastante e aterrorizante palestra de 'como aprender com suas quedas e, depois, arriscar cair de novo'.

Tudo isso me consome. Martiriza às vezes.
Mas me preocupa muito mais agora a estranha neutralidade que estou vivendo. Me tenho toda pra mim agora. Estou fria. Mas feliz. Isso é ruim? É que sinal?
Sinto os pés pisarem o chão, um pouco trêmulos, como se eu tivesse voado esse tempo todo. E, agora, tivesse que reaprender a andar um pouquinho.
Hoje, não vou tomar a dose de frescura pra escrever o coração aqui.
Pra escrever os rostos que atordoam minha cabeça.
Pra escrever as saudades que atordoam meus olhos e garganta.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Antes de dormir

Escrevi um texto aqui um dia que se chama "A cara da saudade". Sorri pra ele. Li mil vezes. Olhei o resultado como se só depois do esforço de escrita pudéssemos apreciar as letrinhas. Que nem uma montanha: na hora de escalar é só pedra ou gelo, tem nem sentido pensar no esforço porque senão você desistiria de só olhar cinza, branco, altura pra baixo, caminho pra cima. Mas lá em cima, a paisagem é só sua. Só sua.

Desculpe o fluxo da consciência, não era sobre isso que queria falar.
É que no fim do texto sobre a cara da saudade, ela continuou sem mostrar sua face. Fui saber disso ontem e não podia deixar você desatualizado. Meu Deus. O que é saudade? Dorzinha aguda na garganta/pescoço/peito. Mas não seria pior se não sentíssemos? Então é dor prazerosa? Masoquismo comunitário da Associação dos Possuidores de Coração do Planeta? É o que? Eu tentei falar. Tentei organizar. Tentei fechar os olhos e deixar sair só o que sentia. Senti que domei o sentimento! (irônico que até para sentir essa "superioridade" com relação ao sentimento precisamos deixá-lo nos invadir, ou seja, precisamos sentir. e só).

Parabéns pra você saudade. Nós passamos a vida tentando te matar. Mas você tem 7 delas. E nós só temos uma. "Quando olhar pra ele, vou matar minha saudade!" . Aguarde algum tempo, pra vê-la brincar no túmulo que insistimos lacrar! Matamos nada. Nós é que morremos um pouco. E o pior, é que gostamos. Sim, gostamos porque a facada da saudade dá frio na barriga, lágrima nos olhos, confusão na cabeça...mas no fim...continue explorando o turbilhão de sensações...e lá no fim, pulando pra ser vista no mar das emoções doloridas, está ela.
Sim, a estrela.
A razão de tudo.
A atração principal...
Ela: a sensação de viver intensamente.


Parabéns saudade pela sua esperteza. Vamos continuar lutando com você. Pois o homem tem dessa mania de achar que tudo pode. E sim, venha matar mais corações...

Porque nessa vida tão contraditória,
morrer de saudade
é ter vivido o amor.

Ter vivido o amor,
é ter vivido o...
a...

é ter vivido.

sábado, 16 de outubro de 2010

Para um sorriso de ressaca

Ontem era o cansaço de rotina.
Foi só você chegar, com esse teu sorriso pra tirar o meu de casa.
É ressaca além dos olhos. Os teus olhos riem junto. Mas o golpe é do sorriso.
Chega já chutando a porta.
Sabendo que em mim ele tem lugar de rei.

Ah, esse teu sorriso!
não sabe a força que ele tem...

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Fila

Veja bem, conversei com a consciência para lhe perguntar por que brinca tanto comigo, embaralhando tudo quando mais preciso dela. Ela disse que me explicaria, se eu parasse por um tempo de torturá-la com as dores do coração e seus gritos de frescura (ele fica assim quando alguns poucos conseguem cortá-lo ao meio). Reconhecendo sua razão de pedir paz, eu dei um suspiro aliviada e respondi:

- Eu vou te dar a paz que você tanto pede há meses, e merece. Já estais desatualizada e trago pra ti as últimas notícias da merda do amor, minha cara! Depois de muito tentar, pisar em falso e essas coisas que fazemos nos momentos de cegueira afrodisíaca, eu hoje convivo com a indiferença daquele lado de lá. Então, meu bem, agora é só o tempo pra curar todo o estrago e eu te poupo de lidar com a indiferença. Deixa o tempo cuidar, deixa ele passar...eu que já tanto quis que ele parasse em alguns momentos.

Ela (a consciência, é com ela que estou falando), então, parou perplexa...talvez se sentindo um pouco injusta de ter reclamado tanto, achando que só ela sofria. Somos duas, meu amor. Então, para que fizéssemos as pazes, ela me deu a resposta que eu queria:

-Brinco com teus pensamentos porque você mal sabe como eles são cuspidos pros teus textos. Eles fazem uma fila. Os mais claros, maduros e consistentes ficam na frente. Cheios de coragem para pularem logo. Mas tem dias que você resolve pegar um lá atrás, no setor dos nebulosos, perigosos, difusos e complexos, quebrando a ordem. Você faz isso quando escuta mais o coração do que a cabeça. Aí vem, ceguinha, bagunçar a minha ordem. Lembre-se de que quanto mais profundo o que você tenta catar em si, mais difícil será colocar em letras.

Saímos de mãos dadas, decretando nossas tão merecidas férias.


(Ps.: Está virando um hábito personificar as partes de mim. Prefiro enxergar isso como um traço de escrita, e não considerar que tem dias que elas tomam vida própria.)

domingo, 10 de outubro de 2010

Com você, os pedaços de mim

Você já teve a sensação de não poder ter algo que muito quer? Eu não falo de fracasso, muito menos de incapacidade. Hoje piso nessas palavras como já pisaram um dia em mim. Mas, deixe-me explicar o que martela a minha cabeça há alguns dias.
Apelo para o brega pois hoje estou com dificuldades de me expressar. Quando criança, eu gostava de montar quebra-cabeças. Cada vez maiores, 500 peças, requeriam um tempo enorme que testava minha paciência sempre curta. Então, quando já estava cansada, eu pegava uma peça muito parecida com o espaço que queria preencher da figura e tentava encaixar. Não era ali, mas eu virava, desvirava e pressionava a peça em vão, claramente percebendo que insistia no erro, ignorando que caíra numa extrema semelhança, mas ainda não no ponto certo. Desistia então, deixando de lado a peça amassada. Ficava um tempo olhando o resto do jogo. Engraçado como nessa hora era bom contemplar o que já havia sido feito. Eu descansava fitando meu trabalho (porque pra mim era uma obra dos deuses) e logo me dispunha a catar pecinhas certas no mar que ainda faltava pra completar a imagem. Esquecia a atitude boba de 5 minutos atrás e o jogo voltava a me entreter, botando fim na raiva e fazendo as pazes comigo. Enfim, peça errada não encaixa não importa o quanto tente, o quanto se esforce. Porque o motivo do não-encaixe não é a tua falta de perseverança ou a tua incapacidade de realizar aquilo. O motivo do não-encaixe é da natureza da coisa em si, é do formato do que você tenta manipular, sem aceitar que aquilo, simplesmente, não foi feito pra estar ali.

Eu hoje, então, me refiro a peças vivas. Sabe qual é a diferença? A coisa não pode ser sua não pela natureza própria ou pela forma como foi "fabricada". Mas sim porque peça viva, meu amigo, é possuidora de liberdade. E como tal, decide o que bem quer. É claro que tem vezes que você cai inesperadamente onde não escolheu. Pode ser bom ou ruim, pode ser no amor, ou na sorte. Mas cabe a você, sempre (sempre), resistir ou não a isso. Sair correndo ou não. A pecinha viva que você tanto quer colocar em um lugar (que parece ser tão certo na sua vida) decide se quer ir ou não. Ela ouve (ou não) os teus anseios, tua vontade e pega a parte das regras que você não alcança e decreta fim ou vida àquilo que está em jogo.

E aí, o que se faz é entender uma coisa que ontem veio bater na minha cabeça. Entender que é preciso valorizar o esforço, a vontade e até aqueles mergulhos de cabeça que a vida te convida a dar de vez em quando. Mas, lembrar também que uma parte ínfima dessa sede boa de tentar matar simplesmente não depende de você. No início é difícil aceitar. Dá vontade de tentar encaixar peça a todo custo. Aprisioná-la e gritar com toda força um quemmandaaquisoueu. Mostrar em luzes neon o tamanho da tua vontade e o desgaste do teu esforço.
Mas no fim, você para. Respira. Olha o suor. Ouve um risinho da peça que você tanto correu atrás. Então, devolve um sorriso cansado. Permita que seja orgulhoso também!
Aí, um dia desses, eu vivi um daqueles dias meus de criança socando a peça do quebra-cabeça no lugar que eu queria, com a garganta já salgada de choro. Então, subi as escadas de um lugar que pouco visito em mim. Onde eu posso assistir minha vida do alto de um mirante, e dar aquele sorriso sereno ao ver a parte da imagem que já está completa. Porque não dá pra ver do lugar onde acontece minha rotina. Eu aplaudi como os cariocas que aplaudem o pôr-do-sol. Larguei, lá de cima, a peça que tanto insisti pra ser minha. Ela não caiu pra fora da vida. Caiu no mar das que faltavam. E sabe? Ela, que um dia já foi tão especial, pareceu tão igual às outras ali no meio! Logo perdi de vista meu amuleto. Sentei, lá no alto, pra olhar um pouquinho as partes de mim lá embaixo. Inspirando cada dose boa de vento. Sentindo sol laranja de fim de tarde clareando a íris castanha. Sentindo também que o jogo, depois de tanto tempo, voltava a me entreter. Vontade de saber se a peça seguinte é do meu domínio. Ou se, de novo, vai me desafiar a convencê-la a ficar mais um pouco. Pra mais um café na minha sala. Eu deixo ela correr se quiser. Entrego a chave da algema. Ou abraço com toda força se ela aceitar o meu convite.

Coisa boa é acessar a visão panorâmica de emergência da vida (porque o bom é a surpresa, sem poder olhar o todo lá de cima). Coisa boa é sentir a leveza de, de novo, ir buscar o encaixe perfeito entre os pedaços de mim.


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Anti-amor urbano

Quando buscam inspiração
Os que amam com vertigem
Inspiram poluição
Comem os pretos da fuligem

Quando buscam ter calor
Na agonia carnal
Derretem vivos no ardor
Do aquecimento global

E se acaso mergulham
Na mais linda declaração
Não é com caneta de pele
No papel-areia do chão

Escolhem o mais limpo cimento
E cospem tinta e borrão
Pintando a cidade-tormento
Com a não-voz do coração

Assim a vida que queria
Viver mais a cada ano
Morre um pouco a cada dia
Neste desamor urbano!

domingo, 3 de outubro de 2010

Choque

Eu sempre gostei da escrita como forma de expressão. Lá na primeira ideia desse meu espaço eu já a colocava em um pedestal, enaltecendo-a. Mas, sabia que brigamos outro dia? Eu disse a ela pra parar com mistérios e linhas ambíguas porque minha dor está forte e precisa decifrar o que leio daquele outro coração. Fui veemente, cheguei a gritar (porque a confusão faz isso com a gente). E acrescentei que ela era minha melhor amiga, já que a fala sempre me traía, mas que ultimamente estava me dando cada golpe no peito, entrando em cada contradição! Parei de falar, respirei aliviada, o rosto afogueado, o sangue pulsando quente (talvez se chame desespero), certa de que havia sido clara. Ela (a escrita), então, levantou serena, em  um quarto com mistura de cinema e New York, olhou pra mim, sábia, e disse como quem joga uma bomba: " Não há mistério nas palavras transparentes que lhe apresento. Não há abstração, rebuscamento, devaneios nem rodeios. Há apenas o teu coração querendo enxergar o que já não existe, fazendo teus olhos trocarem as frases."