quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Fila

Veja bem, conversei com a consciência para lhe perguntar por que brinca tanto comigo, embaralhando tudo quando mais preciso dela. Ela disse que me explicaria, se eu parasse por um tempo de torturá-la com as dores do coração e seus gritos de frescura (ele fica assim quando alguns poucos conseguem cortá-lo ao meio). Reconhecendo sua razão de pedir paz, eu dei um suspiro aliviada e respondi:

- Eu vou te dar a paz que você tanto pede há meses, e merece. Já estais desatualizada e trago pra ti as últimas notícias da merda do amor, minha cara! Depois de muito tentar, pisar em falso e essas coisas que fazemos nos momentos de cegueira afrodisíaca, eu hoje convivo com a indiferença daquele lado de lá. Então, meu bem, agora é só o tempo pra curar todo o estrago e eu te poupo de lidar com a indiferença. Deixa o tempo cuidar, deixa ele passar...eu que já tanto quis que ele parasse em alguns momentos.

Ela (a consciência, é com ela que estou falando), então, parou perplexa...talvez se sentindo um pouco injusta de ter reclamado tanto, achando que só ela sofria. Somos duas, meu amor. Então, para que fizéssemos as pazes, ela me deu a resposta que eu queria:

-Brinco com teus pensamentos porque você mal sabe como eles são cuspidos pros teus textos. Eles fazem uma fila. Os mais claros, maduros e consistentes ficam na frente. Cheios de coragem para pularem logo. Mas tem dias que você resolve pegar um lá atrás, no setor dos nebulosos, perigosos, difusos e complexos, quebrando a ordem. Você faz isso quando escuta mais o coração do que a cabeça. Aí vem, ceguinha, bagunçar a minha ordem. Lembre-se de que quanto mais profundo o que você tenta catar em si, mais difícil será colocar em letras.

Saímos de mãos dadas, decretando nossas tão merecidas férias.


(Ps.: Está virando um hábito personificar as partes de mim. Prefiro enxergar isso como um traço de escrita, e não considerar que tem dias que elas tomam vida própria.)

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