Um café.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025
Sala de espera
segunda-feira, 3 de junho de 2024
finais de domingo
Tenho uma memória nítida e curiosa sobre os meus finais de Domingo na infância. A gente ia almoçar em Campo Grande, quase sempre, para encontrar a pequena parcela da família que morava no Rio. O dia transcorria lento. O andar lento de minha bisavó para a mesa; o almoço cozinhando lentamente e se demorando no fogo mais do que em todos os outros dias. A lentidão da fumaça de um cigarro que dançava sob o sol até o muro do vizinho. Eu não lembro direito o que era a vida nessa época, mas me recordo de não perceber o Domingo passar. Apesar de toda a lentidão que me era dada aos Domingos, eu conseguia, de repente, me surpreender que já era noite. Não a noite escura de silêncio da madrugada: era aquela noite imatura e caótica, com buzinas de carro e os primeiros postes se acendendo. A noite que acabara de chegar. E aí que vem a curiosa memória: eu me sentia ansiosa. Lembrava dos deveres de casa da escola para o dia seguinte, do cartaz de cartolina para apresentar e de afazeres que, já naquela idade, tinham uma influência estranha sobre os meus pensamentos. Voltávamos para casa em um Vectra cinza e eu lembro do cheiro do carro, do som da voz do radialista narrando um jogo com ecos e do tecido do banco do carro que fazia minhas coxas coçarem. Eu lembro de me sentir aflita com a semana que se iniciaria no dia seguinte, mas não consigo descrever o porquê de tal pensamento existir na minha infância. Acho que de todas as características que adquiri com o tempo, a ansiedade possa ter vindo de fábrica. Hoje, ainda tenho esse Sunday blues quando a primeira noite se insinua. Diferentemente da época de criança, a escola não é mais uma preocupação e a vida se impõe complexa e adulta. Perguntas desproporcionais para um dia tão comum vem à tona e, muitas delas, colocam minha vida toda em um projetor. Você gosta do filme que vê? - pergunta o Domingo em tom rude e frio. Resisto e apago as luzes que ainda restam acesas na minha cabeça. Sinto raiva do excesso de pensamentos de e como me provocam voltas no estômago. Questiono o maldoso final de Domingo: qual é a coisa mais importante da vida?
"É manter o interesse por ela, todos os dias".
segunda-feira, 27 de novembro de 2023
Minha primeira grande luta
Há 4 anos conheci a minha primeira (e única) doença: a depressão. No início, muito me questionei sobre a real causa disso. Diferente das doenças com as quais eu estava acostumada a lidar na prática médica, não havia um exame preciso que comprovasse a minha condição. Me restava aceitar resignada que era possível, sim, ter a minha personalidade modificada de repente por razões químicas além do palpável. A partir dali, iniciei, sem acreditar muito, tratamentos (farmacológicos e comportamentais) que me devolveram de volta pro mundo (mundo esse que aprendi a amar de novo). Contudo, faz poucos meses que, na tentativa de me despedir das receitas médicas aos pouquinhos, o fantasma de 4 anos atrás retornou à minha vida. Dessa vez, no entanto, mais velha e mais madura, o recebi sem grandes desesperos ou inquietudes - apenas com a tradicional tristeza e fadiga inerentes ao bicho. Percebi que me perguntar o porquê da coisa era equivalente a perguntar o porquê de um ser humano com hábitos saudáveis descobrir um câncer de repente ou mesmo o porquê do início de uma pneumonia em alguém com plenos pulmões: não há explicação. A busca por uma razão é frustra e nos afunda cada vez mais no mar gelado em que mergulhamos. Quanto mais fundo, mais escura e fria a água se torna e, por isso, não caí nessa armadilha desta vez. Agora, diferente de antes, sou capaz até de escrever sobre isso. Com choro fácil (que não me envergonha mais) e com nenhuma vontade de viver o dia de trabalho eu vos informo: estou aqui falando sobre a depressão. Tornando legível o ilegível. Dando uma forma tipográfica à doença invisível aos exames. Dando voz àquela que se alimenta de silêncio. E como este blog é regado a metáforas, inventei uma para representar a depressão: é como andar em um mar de lama até o peito mas, diferente do que seria natural, não se importar muito se, por acaso, se afundar. Não ter muita força pra sair, afinal, a lama é grossa e é necessário muita energia para chegar até a borda. "Tudo bem se eu ficar aqui. Tudo bem se o destino assim o quiser". Alguém consegue imaginar?
Eu, tão dona de mim e dona das minhas grandes conquistas; tão bem-humorada e sociável. Eu, logo eu. Calma! Não há razão plausível. Não há nada além da genética e um compilado de nadas. Eu conheço essa luta. Conheço esse jogo e nele já aprendi a jogar. O passar do tempo tem dessas vantagens: não nos tira da frente do perigo, mas nos dá a honra de já conhecer o inimigo.
segunda-feira, 6 de novembro de 2023
As coisas todas de agora
Há uma quadra esportiva de frente para a minha varanda. Todos os dias, por volta das 19h, muitas crianças e adolescentes se reúnem para jogos de vôlei e ali passam horas Animados, gritam, cantam, riem e comemoram pontos no micromundo da Mena Barreto. Eu paro para observar como se movem. Olho os mais tímidos de fora e os mais extrovertidos com pinta de líderes. Como se divertem os meninos na quadra, em plena segunda-feira, sem pensar no que fizeram do ano que passou; sem pensar no horário de acordar amanhã. Apenas a bola importa e a maneira como vivem o agora me encanta.
Lembrei, numa memória cristalina, de quando eu vivia o agora com a intensidade que a inocência dá pra gente. Me transportei para a quadra de vôlei da escola e lembrei como era importante, para mim, ganhar o jogo das olimpíadas escolares, com o rosto pintado com as cores da turma. Lembrei do fatídico dia em que errei o último saque em quadra e liguei assustada para a minha mãe, no trabalho, pra dizer que perderam por causa de mim. Eu vivia tão focada e intensa no que fazia que, às vezes, provava também a dor maior das minhas quedas. Hoje, pensando friamente, o sofrimento real daquela pequena jogadora não acontecia pelo seu mergulho no presente, mas por um apego ao passado (que acabara de nascer). Eu chorava o ponto perdido.
Cresci e, intensa como no dia do saque no vôlei, ainda deposito a maior energia do mundo em tudo que faço. Coração vindo na boca ao escutar o apito surdo do juiz. As pernas tremendo e as mãos frias batendo na bola. Nem sei quanto durou um momento desses pra mim. Tudo intenso. Tudo com ânsia de vômito. Como se em vez da bola eu carregasse o mundo e, passá-la pro outro lado fosse salvar a humanidade da fome e do câncer. Assim era o momento do saque pra mim. Era segurar o mundo com as mãos e salvar a humanidade que vestia roupas de time de escola.
Mas, uma vez que a bola encontra a rede, tudo o que experimentei vira passado. O coração disparando é passado. O tremor das mãos e a boca seca pela vitória são passado. Não existe mais ponto, bola e nem jogo. A vida piscou e me entregou só o que existe, ignorando minhas lágrimas verdes de tinta. Tive raiva da vida e fui ligar pra minha mãe aos 11 anos de idade. Raiva da progressão do tempo; raiva de ter tido o mundo nas mãos há segundos e o ter atirado contra uma rede velha. Tive raiva de as coisas terem virado passado sem que eu construísse o presente à minha maneira. Do outro lado da rede, comemoravam. As coisas são o que são e sempre há alguém feliz com aquilo que lamentamos.
Hoje, aos 31, ainda acho que meu apego ao que se foi é tamanho. Ainda acho que eu deveria aprender a lavar a tinta do rosto mais rápido; a respirar os ares do presente e a me vestir de Agora como quem troca de roupa nos bastidores de uma peça: nem sempre confiante, mas rápida e certeira. O presente, encenado ou não, é sempre urgente.
Na quadra da Mena Barreto, os guris viviam o agora. Eu, sem perceber, também.
terça-feira, 17 de outubro de 2023
Mover-se
Andava distraída de mim e atenta às ruas do Jardim Botânico. O início de uma noite quente fazia a cidade fervilhar inteira e explodir em sons, luzes e cheiros. Eu andava rumo à charmosa rua onde tanto desejei morar e que, se eu pudesse, não visitaria assim, tão emotiva, suada e atônita naquele momento específico. Eu suava nas costas, axilas, virilhas e debaixo dos seios, mas seguia a passos largos sem me incomodar com o desconforto do calo do pé. Apenas andava e vivia o calor. Andar e viver o calor era fazer mais por mim do que os últimos 15 dias juntos e somados. Tudo é o que é e o meu destino na noite quente era andar, suar, roçar e sentir o calor. As baratas afoitas na rua também se apressavam em noites quentes. Seguiam funcionando - não sei se suadas - em movimentos determinados, certeiros e rápidos. Tão urbanas e subestimadas, as baratas me mostravam que mover-se era uma regra. Pensei no movimento que o calor traz a despeito de seu muito desconforto. Pensei nas aulas de física da adolescência, onde me contavam que as coisas maciças são todas moléculas em movimento que, quando aquecidas, se enlouquecem ainda mais. Pensei no absurdo que era constatar que uma coisa assim inteira, bonita e potente só é o que é porque se move toda sem ninguém ver. O resultado final está ali a olho nu, mas o trabalho molecular - o movimento quente das moléculas se chocando - este, ninguém vê. O movimento; o ir e vir; ah, como era essencial à vida!
Tudo isso pensei suada ao caminhar pela rua Jardim Botânico. Olhei pros meus pés quase chegando no destino e depois foquei no coração a 112 batidas por minuto, aflito e trabalhador. Sequei o suor do rosto. Senti a brisa quente da cidade em erupção. Me sentia desconfortável por dentro e por fora. Calma - eu mesma disse - o que é hoje pode não ser amanhã. Senti as moleculinhas da alma todas aquecidas; em movimento constante e cíclico no calor do momento, sem se importar se eu estava bem ou não. Apenas seguiam. A vida toda se move sem se importar com nada. O desconforto, coitado, não resiste ao movimento. Calma, TUDO se move.
Segui.
sábado, 26 de agosto de 2023
Sexta
No início da noite de sexta, saí do prédio da rotina e caminhei até o carro movendo os pés com automatismo. Não lembro de ter acionado a ignição e nem de ter pressionado pedal algum, mas de repente eu já estava no trajeto de sempre, subitamente atenta ao mundo. Pela janela - entreaberta a despeito do medo da violência - entrava o cheiro defumado de churrasco de rua e o som das vozes em grupo dos bares da cidade. Era noite de sexta-feira e eu passava despercebida pelo labirinto boêmio que fervilhava ao meu redor. Ninguém me via e isso me fazia mais viva. Eu ia sentindo os cheiros da sexta-feira por uma brecha de vento que me fazia pensar. O cheiro do álcool e dos cigarros acesos. O cheiro do esgoto urbano imundo. Tudo compunha a sexta-feira e evoluía rápido para uma agitação geral com risos e falas estridentes. A noite de sexta acontecia toda semana, mas trazia consigo um vento de novidade e um querer instigante que levantava alguns corpos cansados, pesados e sedentos por felicidade. A vida na cidade mudava com os dias da semana, de modo que, a depender do calendário, o caos urbano se tornava mais ou menos tolerável.
Parei em um sinal e um rapaz com cheiro de perfume doce passou por mim vendendo balas. Senti cheiro de açúcar só de olhar pro saquinho de jujubas no retrovisor - uma experiência sinestésica de cheirar as cores em meio a buzinas barulhentas.
O aroma urbano era misto, quente, forte e mandava na noite mais do que a própria noite. Os cheiros da cidade decidiam por todos o rumo e o tempo das coisas. Cada aroma era um vício sem hora pra acabar ou um ônus de se viver na cidade grande. A cerveja, o cigarro, a fritura, o perfume com lança, a fumaça dos carros, o esgoto e o lixo podre do chão.
Quase chegando em casa, eu ainda refletia sobre odores. Minha sexta-feira cheirava a um medo esquisito do dia seguinte. Eu não estava no agora. Desviei do caos urbano de uma cidade fervilhante e entrei no meu quarto que tinha cheiro de canela. No silêncio absoluto que inventei pra mim, pensei qual seria o cheiro da felicidade. Alguns aromas me vieram à cabeça. O cheiro do jardim do play da infância. Cheiro de perfume Chanel com protetor solar. Cheiro de chuva com café. Cheiro das manhãs da Austrália. Nenhum era a resposta.
Em meio ao silêncio que eu tanto amava, com o corpo sereno e doído também, concluí que ali a minha felicidade apenas me cheirava bem.
domingo, 30 de julho de 2023
Crença
Estava eu, sudoreica e corajosa, caminhando a passos largos em direção ao que havia de ser feito. Eu, sentindo o peso da responsabilidade nas costas, enrugando a testa sem perceber, andava taquicárdica rumo à comunicação de notícias ruins no corredor da enfermaria do hospital. Cheguei, chamei aquela mulher no canto, enchi os pulmões com a verdade e exalei os fatos de forma lisa, breve e firme. Alguém deveria ser firme. Entendi, desde sempre, que a firmeza era minha obrigação:
- Não tem mais jeito, então? - perguntou ela como quem procurava poças d'água nas areias de um deserto.
- Infelizmente, não - respondi com a secura do próprio deserto, pois mesmo não vivendo 24h naquele clima árido, eu sofria da mesma sede que ela.
Me preparei para o deságue dos rios que não havíamos visto até então: as lágrimas torrenciais de quem entendeu a despedida. Porém, para a minha surpresa, o rosto daquela mulher estava sereno e esboçava uma expressão de luz. Me ajeitei na cadeira, pensando em outras palavras para explicar o óbvio inevitável, mas fui surpreendida pela calmaria de uma resposta-surpresa:
- Acho que quando chega o limite da ciência, é a hora em que a fé prova não ter limites - disse a moça vestida de paz e bastante contente com sua própria conclusão.
Eu e ela, unidas pelos mesmos fatos em um diálogo difícil, éramos separadas por uma coisa apenas: a crença.
Eu estava pesada, triste, cansada e aflita, enquanto ela, informada das mesmas coisas que eu, escolhia acreditar que tudo (tudinho) era passível de acontecer dali pra frente. Ela, agarrada fortemente ao que escolheu acreditar, havia se tornado maior do que as paredes, portas e chão daquele hospital gelado, onde correntes de vento desafiavam as chamas que muita gente tentava conservar acesas.
Saí pensativa acerca disso - do poder da crença. Olhei pra vida atrás de mim e tentei lembrar de algo que não fosse composto daquilo em que eu fortemente acreditava. Não havia. Varri com o pensamento os 31 anos que me foram dados até então e concluí que o filtro da crença sempre esteve na minha interface com o mundo. Pensei no que mais poderia mover as pernas em direção às coisas se não fosse o ato de crer. Acreditar, por exemplo, que água do mar em um domingo gelado é a única coisa que pode curar o corpo e o cérebro de todos os problemas num mergulho só. Ter a crença num amor tranquilo e livre. Jogar a fé em cima de tanta coisa que só existe porque ela está lá, cobrindo os momentos todinhos com o véu da nossa própria verdade.
Pensei, por fim, que vivi todos esses dias depositando a minha fé naquilo que julguei valer a pena, tal qual a moça tranquila da enfermaria do hospital. Lembrei que tudo é o que é, sim, justíssimo. Mas a realidade aumentada da crença numa coisa maior e mais bela é, talvez, o que me fez ficar viva em tantos momentos de morte.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023
As tardes da infância
Lembro-me, com clareza, das tardes de férias no verão do Nordeste. Um mês inteiro eu passava à toa, junto à minha avó e alguns primos, sem perceber exatamente o quanto, de fato, durava um mês.
Ao entardecer, tenho a recordação de uma sensação olfativa sempre me atiçar. Havia um cheiro de planta molhada nos ventos da tarde, ainda que chuva nenhuma se insinuasse ou que ninguém molhasse o jardim. Um cheiro verde e úmido me acalmava no meio da cidade lenta e do marasmo vespertino. Além dele, do tal cheiro clorofílico, aguado e selvagem, dois outros aromas marcavam as minhas tardes de criança: o cheiro doce e decomposto de fruta madura que morria no chão e o cheiro salgado de mar, mesmo que eu estivesse no interior. Brisas de fruta caída na rua, de caules encharcados e de água do mar eram os elementos que me faziam atinar para o fato de que já entardecia.
Lá, naqueles dias infantis e puros, eu vivia as tardes enquanto atentava aos cheiros dela. Ou, melhor, vivia as tardes PORQUE atentava aos cheiros dela. O entardecer sempre foi um misto de aromas na minha infância. Tinha o cheiro do cabelo recém lavado, do protetor solar que não saía por completo, de algo no forno assando pra depois e de um café ao longe, em outra casa talvez - tudo isso além da tríade-mãe de todos os aromas do verão. Eu vivia em plenitude o que há de mais verdadeiro nas tardes: um limbo entre uma coisa que nasceu e outra que está para se pôr ainda. Um espaço suave, calmo e tão tenro entre o tilintar das xícaras da manhã e as luzes noturnas da cidade. Entre a avidez por produtividade matinal e o sono do cansaço do final do dia. O entardecer era como um senhor deitado na rede de sua varanda simples, apenas observando os sacrifícios matinais e as lamentações noturnas; balançando quase que imperceptivelmente entre o despertar de homens que ainda não acordaram pra vida e o conformismo de outros tão surpresos com as despedidas.
A tardezinha me abraçava e me fazia refletir sobre a formiga, a brisa, o biscoito e as crianças chutando uma bola. Sobre a própria bola também. Percebi, um dia, que o cheiro da tarde era um completo estado de espírito. Fruta, planta e mar. Seria meu cérebro brincando com os sentidos? Quantas memórias se formaram, moldadas por esses três cheiros. Um tripé de aromas da tarde que não tinham pretensão nenhuma de ser alguma coisa. O cheiro da fruta não queria ser a fruta. O cheiro da planta não queria brotar e nem o cheiro do mar queria ter ondas.
Os aromas vespertinos eram felizes, eles próprios, pois não eram "de onde vinham" e nem o que estava pra ser. Eles eram os cheiros da tarde. E a tarde era eu inteira, cheirando a vida e percebendo tudo.
segunda-feira, 15 de março de 2021
Sentinela
Alguém me perguntou o porquê de amar a noite mais do que o dia. Foi de noite, então, dirigindo na cidade vazia, que refleti sobre a pergunta que, na hora certa, não consegui responder.
A caminho do trabalho, alerta e ativa, eu notava que o silêncio
noturno fazia qualquer ruído bobo virar rei. Era na quietude do escuro quente
do Rio, que eu me sentia mais viva e forte, mais instintiva e acesa, como os
barulhos urbanos outrora banalizados e abafados pelos excessos do dia. Eu me
sentia - como em “Perdoando Deus”, de Clarice - mãe de todas as coisas pequenas
que não vemos na claridade ofuscante. Me sentia vivendo uma maternidade jovem,
indo ao encontro de filhos que não vieram do meu ventre; prestes a embalar o sono
de quem não vive por enquanto, só espera. De quem aguarda a decisão da vida de ficar
ou sair; de seguir ou sumir bem diante dos nossos olhos sedentos por uma luz divina
na escuridão do momento. A noite me
deixava alerta. Me sentia mãe e sentinela de quem não podia espreitar os
movimentos da vida que clandestinamente flutua pelo escuro. Eu era uma jovem
que engravidara cedo demais e que, movida por um misto de adrenalina e de amor,
sentia no sangue uma vontade de proteger e de cuidar com unhas e dentes. De
noite, a fonte de calor que aquece o mundo parecia vir de nós, pois o sol não
era mais tão óbvio. Também durante a noite, quietinha e grandiosa, o barulho desordenado da minha mente não precisava
mais gritar para ser ouvido. Só conversava e me fazia companhia na solitude que
o silêncio noturno parece trazer.
A caminho do trabalho, eu pensava na noite regendo a guarda
dos sentinelas aflitos. Embalando o sono perturbado de quem não dorme, só
descansa. De quem se sente o último rastro de consciência no meio do descanso
dos outros. Encontro, na noite, sentinelas ansiosos como eu e percebo que,
muitas vezes, a minha dor com o sono eterno de alguns é, na verdade, a cópia da
dor de uma mãe real. A minha maternidade falsa é só o reduto do meu amor
sem direção que, agora, aponta como nunca antes para tudo que tem vida ou que
deseja ter.
O porquê de eu amar a noite está no sentimento aflorado de
que a surdina noturna é o último momento antes da incerteza do amanhã. A noite
é o final de tudo e o começo de nada. É a nossa esperança gritando pelos
cantos. É a nossa fé esfarrapada de que se um novo dia vier, ainda estaremos aqui.
terça-feira, 26 de maio de 2020
A árvore das pipas
Um deles corria rápido com um braço servindo de cabide para uma fileira de pipas feridas, enquanto o outro braço já estava estendido para pegar a próxima antes que tocasse o asfalto áspero. As pipas que choviam do céu talvez pensassem ser aquele o último momento de sua dançante existência na Terra, porém meninos esperançosos - os doutores das pipas - as resgatavam numa tarde sem esperança para elas e para nós. A árvore, por sua vez, amortecia a queda como podia e, com um leve balançar ao som do vento, sacudia os galhos para entregar os pacientes aos cuidados de quem ainda acreditava neles.
Pensei nas minhas sextas-feiras e em quantas pipas caem nos meus braços sem a menor pretensão de viver. Mal respiram, mal entendem o porquê de estarem enganchadas à arvore que tenta, emergencialmente, acolhê-las. São de todas as cores e tamanhos. Algumas ainda voam por si só. Outras nunca mais verão o vento outra vez.
Quero a esperança e a determinação dos meninos da rua. Que correm atrás das pipas que despencam para vê-las voar outra vez; brincar outra vez; dançar outra vez. Viver outra vez.
domingo, 13 de outubro de 2019
Domingos de calor
Uns gatos se embrenhavam sorrateiros em ruelas enquanto eu passava, camuflando-se nos restos aquecidos do dia. Assim como nós, estavam sempre atentos. Eu tentava me camuflar como os gatos, saindo do seu mundo pelo portão branco e me escondendo das primeiras luzes da noite, sem graça de vê-las acordar enquanto eu perdia a noção do tempo. Mas eu já não podia me esconder de nada. As luzes saíam de dentro de mim e todo mundo notava o brilho nos meus olhos, a batida no peito e o cheiro da pele aquecida a descansar. De qualquer canto da cidade ouvia-se a música que tocava no meu Domingo. Passei por uma igreja e até quis falar com Deus. Mas não sei o que Ele pensa e eu talvez não queira ouvir ninguém por hoje. Eu quero ouvir a música que você fez tocar no meu Domingo. Quero pular no mar bruto que descobrimos, sem pensar no perigo que essas águas podem ter. Por vezes, tenho medo desse mar que encontramos, mas você vem e me arrasta e todo o medo vai embora. Então, como os gatos destemidos da noite que não vimos nascer, dançamos no caos como se não houvesse amanhã. Depois corremos de volta pra vida de antes, fingindo não saber que todos os dias, agora, são Domingos de calor.
terça-feira, 18 de junho de 2019
Meu barco
Caí num gelado lancinante e, diferente dos outros, não lutei contra. A adrenalina não correu nas minhas veias e deixei que o gelo azul me tirasse a sensibilidade dos pés e das mãos. O que o mar queria de mim? Um coral de carne e osso atapetando as profundezas? Não sirvo, não quero. Os corais possuem vida! Os corais fazem por onde. O mesmo mar que quis me tirar do mundo não tem um lugar pra mim no seu fundo. Eu flutuo, então. Eu escolho pra onde vou. Meu protesto é flutuar. É estar sem estar em lugar nenhum.
quarta-feira, 20 de março de 2019
Carvalho Gigante
Sabe, olho as inúmeras marcas tuas na minha vida e me pergunto qual delas eu gostaria de deixar em você. Uma música dessas que eu tentava tocar? Um cheiro bom dos nossos cafés? Cheiro da minha pele ou do cabelo ao acordar? Sob que forma quero ocupar tua memória? - pensei. Já sei. Quero ser o carvalho gigante, que ninguém viu crescer na lentidão e simplicidade de muda, mas que, de repente, ocupa seu lugar na vida com grandiosidade e beleza. De repente, o carvalho gigante está lá e ninguém sabe como adquiriu tanta força nas raízes para sustentar o seu tamanho.
Quero ser o carvalho gigante e, assim, esbanjar na tua vida a beleza gritante com que você fez eu enxergar a minha.
segunda-feira, 15 de outubro de 2018
O menino e a pipa
Em algum quilômetro do caminho, avistei um menino soltando pipa em cima de uma laje, sem ligar para a ameaça de chuva.
Pensei no quanto as pipas já me ensinaram sobre o amor. Veja bem, nunca há controle total do carretel sobre a pipa e, por vezes, se a deixarmos voar bem alto, talvez não volte igualzinha ao que era em nossas mãos. Uma vez, encurtei demais a linha para que eu nunca perdesse a pipa de vista e pudesse observar melhor seus movimentos, porém, ao invés de dançar conforme o vento, a pipa se descoordenou de repente e quebrou com um choque ao chão. Ainda com a linha curta, pude vê-la rasgar à medida em que resistia às rajadas de ar ao invés de deixar o vento guiar, como nas vezes em que voava alto.
As pipas me lembram o amor. Nos dias de céu azulzinho, a linha, se esticada ao máximo, chega a sumir de vista, mas sentimos que está lá, unindo um ponto ao outro com o mínimo de tensão. Quanto mais alto deixamos ir, menos força nos é exigida, pois uma estabilidade celeste controla por nós o incontrolável.
Gosto de pensar nos seus voos em outros céus. Nem sempre é fácil, eu sei. Voar por alguns cantos pode gerar medo. Mas a maior felicidade é te ver voltar pra mim com histórias pra contar, como toda boa pipa que saiu pra voar alto.
terça-feira, 10 de julho de 2018
Rio de Heráclito
Neste novo filme, seus olhos exploraram meu rosto tão de perto que eu podia apenas me concentrar no que dizia um de cada vez. E diziam muito. Conversavam comigo curiosos. Por vezes, sorriam discretamente e, em seguida, voltavam a trabalhar garimpando minhas linhas de expressão. A cada vez em que você passeava por outras curvas e voltava a fitar meu rosto bem de perto, parecia que algo novo te atiçava a curiosidade mesmo em território já conhecido. Me senti o próprio rio de Heráclito, no qual não se pode entrar duas vezes. A cada mergulho que você dava, só com os olhos de ressaca, eu me sentia um dos seus livros, do qual você folheava páginas de pele, osso e alma. E toda vez em que voltava a se concentrar no livro, uma brisa com cheiro de nova te fazia cair em uma parte diferente dessa leitura sem fim.
domingo, 1 de julho de 2018
Pontilhismo
domingo, 20 de maio de 2018
Pingamentos
Um dia, segui com minha marcha ebriosa para o lugar preferido dos trêbados na madrugada: minha cama. Foi aí que a vida, como uma amiga sem limites naquelas festas de jovens sem lei, me agarrou pela boca e enfiou goela abaixo mais uns goles de água de fogo. Por essa, não pedi. Eu queria parar de me afundar na própria mente, mas a vida achou que eu precisasse me machucar. Levei um tombo da própria altura e machuquei bem na altura do peito.
Estou de ressaca. Não tão lindos quanto os de Capitu, meus olhos estão vermelhos e inchados. Todos os músculos doem do trem-bala que me atingiu. Morrendo de sede, vou hidratando a alma, reagindo aos poucos a este brinde final.
terça-feira, 15 de maio de 2018
Café e pão de queijo
Toc, toc, toc. Era o som do meu presente de tanto pensar e batalhar um futuro.
Mudei o foco. O cheiro de dama-da-noite ao virar a esquina da minha rua me lembrou o dia em que me mudei para lá. Em seguida, fui retrocedendo, de repente, até chegar misteriosamente no cheiro do bolo assando no forno nas tardes de chuva das Laranjeiras depois da escola. Até chegar no som de uma só rodinha na bicicleta do play. E, por fim, cheguei no cheiro do lençol da casa de vó dos Janeiros ardentes na Paraíba, até perceber que alguém segurava, já impaciente, a porta do elevador para que eu entrasse. Uma nova sucessão de tocs - agora taquitocs - me enfiou correndo porta adentro e, de repente, casa.
A cabeça, aérea como nunca, insistia em retomar os cheiros e sons mais aconchegantes que a vida já me dera o prazer de experimentar. Talvez fosse o corpo pedindo uma trégua do mar de novidades em que eu nadava agora. Jogando a boia do aconchego antes que eu me afogue no desconhecido. Trazendo sons familiares para abafar os barulhos da mente e cheiro das flores de sempre pra não me perder nos jardins do presente.
sábado, 14 de abril de 2018
O dia em que quase briguei com Deus
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
Geometria
Às vezes, gostaria de voltar à infância por 1 dia e brincar novamente com aquelas peças geométricas que se encaixavam em buracos com seus respectivos formatos. A cada perfeito encaixe encontrado, alguém comemorava ao fundo, aplaudindo com sorrisos o pequeno-grande feito.
Hoje, esbarrando vértices pontiagudos nas pequenas ruelas da mesmice, não sei que peça sou. Nem que lugar contém o meu formato, pr'eu deitar e comemorar a beleza que é viver.