quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O tal do fim do dia.

Eu entrei no carro, direcionei o ar pra mim. Disse um "oi" arrastado e cansado. Enquanto ela dirigia, eu fechava os olhos, ainda colocando o cinto e tirando a mochila do colo.
O dia começou em comum na mesa do café. Depois sempre nos separamos numa bifurcação por demais contrastante. E no fim, estávamos ali. Cada uma com seu dia nas costas, mas com o final em comum.
O estresse estragava qualquer início de diálogo.
Eu tocava as pálpebras com os dedos gelados. Tentando me tranquilizar.
Ela acelerava nas ruas já sem movimento; a cidade toda recolhera seus pesados dias e foram desmaiar na cama.
No rádio, uma voz que anunciava o convidado da noite na MPB.

"Olha, você não faz ideia do que passei no meu dia hoje." - disse ela.
Eu retrucava, entrando na inútil e boba disputa de quem tem o maior cansaço.
Finalmente, quando o silêncio chegou e a casa estava próxima, olhei e vi como ela era linda. Ela ia chegar em casa, colocar um sorriso falso no rosto e receber as visitas que aguardavam pro jantar. Que coisa tola essa de postura social. Seria tão mais legal entrar e falar " saiam todos. comam em outro lugar porque só quero tirar essa roupa e amar minha casa como nunca".
Eu desejei poder falar isso por ela.

Mãe tem dessas coisas. Vivemos num 8 ou 80, preto ou branco, bipolaridade semanal, fins de semana alegres e segundas-feiras cinzas, abraços, gelos, manha, bom dia, boa noite, vem comer, vai dormir, vai sair? vai voltar?.

E no fim gostamos. Porque olho pra ela às vezes, e alguma coisa boa invade o peito. Me dizendo que não há coisa mais certa. Coisa mais minha. Coisa mais rara.

domingo, 24 de outubro de 2010

Não serei escritora dos amores passados.
Não direi o que penso, porque as palavras saem cortanto. Elas cobram pedágio para estar aqui.
Queria conseguir transmitir a você, leitor, o que sinto agora. Ou melhor, o que não sinto. Estou numa estranha insensibilidade. E, o que é mais estranho ainda, pareço estar em uma aguda felicidade.
Sinto que consegui recuperar todas as partes de mim. Pois eu estava dividida. E agora estou egoísta. Mas posso, não posso?
Me dói quando a cabeça pede pra pôr em palavras os acidentes do coração. É tarefa árdua. Requer força. E muito controle. Sangue frio também. Pra não se assustar quando a palavra (mesmo escrita por minhas próprias mãos) me revela algo que nem eu mesma sabia que guardava em mim. Angustiada. São pequenos golpes quando a escrita toma vida própria e faz das minhas dores um filme pra mim mesma. Como uma desgastante e aterrorizante palestra de 'como aprender com suas quedas e, depois, arriscar cair de novo'.

Tudo isso me consome. Martiriza às vezes.
Mas me preocupa muito mais agora a estranha neutralidade que estou vivendo. Me tenho toda pra mim agora. Estou fria. Mas feliz. Isso é ruim? É que sinal?
Sinto os pés pisarem o chão, um pouco trêmulos, como se eu tivesse voado esse tempo todo. E, agora, tivesse que reaprender a andar um pouquinho.
Hoje, não vou tomar a dose de frescura pra escrever o coração aqui.
Pra escrever os rostos que atordoam minha cabeça.
Pra escrever as saudades que atordoam meus olhos e garganta.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Antes de dormir

Escrevi um texto aqui um dia que se chama "A cara da saudade". Sorri pra ele. Li mil vezes. Olhei o resultado como se só depois do esforço de escrita pudéssemos apreciar as letrinhas. Que nem uma montanha: na hora de escalar é só pedra ou gelo, tem nem sentido pensar no esforço porque senão você desistiria de só olhar cinza, branco, altura pra baixo, caminho pra cima. Mas lá em cima, a paisagem é só sua. Só sua.

Desculpe o fluxo da consciência, não era sobre isso que queria falar.
É que no fim do texto sobre a cara da saudade, ela continuou sem mostrar sua face. Fui saber disso ontem e não podia deixar você desatualizado. Meu Deus. O que é saudade? Dorzinha aguda na garganta/pescoço/peito. Mas não seria pior se não sentíssemos? Então é dor prazerosa? Masoquismo comunitário da Associação dos Possuidores de Coração do Planeta? É o que? Eu tentei falar. Tentei organizar. Tentei fechar os olhos e deixar sair só o que sentia. Senti que domei o sentimento! (irônico que até para sentir essa "superioridade" com relação ao sentimento precisamos deixá-lo nos invadir, ou seja, precisamos sentir. e só).

Parabéns pra você saudade. Nós passamos a vida tentando te matar. Mas você tem 7 delas. E nós só temos uma. "Quando olhar pra ele, vou matar minha saudade!" . Aguarde algum tempo, pra vê-la brincar no túmulo que insistimos lacrar! Matamos nada. Nós é que morremos um pouco. E o pior, é que gostamos. Sim, gostamos porque a facada da saudade dá frio na barriga, lágrima nos olhos, confusão na cabeça...mas no fim...continue explorando o turbilhão de sensações...e lá no fim, pulando pra ser vista no mar das emoções doloridas, está ela.
Sim, a estrela.
A razão de tudo.
A atração principal...
Ela: a sensação de viver intensamente.


Parabéns saudade pela sua esperteza. Vamos continuar lutando com você. Pois o homem tem dessa mania de achar que tudo pode. E sim, venha matar mais corações...

Porque nessa vida tão contraditória,
morrer de saudade
é ter vivido o amor.

Ter vivido o amor,
é ter vivido o...
a...

é ter vivido.

sábado, 16 de outubro de 2010

Para um sorriso de ressaca

Ontem era o cansaço de rotina.
Foi só você chegar, com esse teu sorriso pra tirar o meu de casa.
É ressaca além dos olhos. Os teus olhos riem junto. Mas o golpe é do sorriso.
Chega já chutando a porta.
Sabendo que em mim ele tem lugar de rei.

Ah, esse teu sorriso!
não sabe a força que ele tem...

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Fila

Veja bem, conversei com a consciência para lhe perguntar por que brinca tanto comigo, embaralhando tudo quando mais preciso dela. Ela disse que me explicaria, se eu parasse por um tempo de torturá-la com as dores do coração e seus gritos de frescura (ele fica assim quando alguns poucos conseguem cortá-lo ao meio). Reconhecendo sua razão de pedir paz, eu dei um suspiro aliviada e respondi:

- Eu vou te dar a paz que você tanto pede há meses, e merece. Já estais desatualizada e trago pra ti as últimas notícias da merda do amor, minha cara! Depois de muito tentar, pisar em falso e essas coisas que fazemos nos momentos de cegueira afrodisíaca, eu hoje convivo com a indiferença daquele lado de lá. Então, meu bem, agora é só o tempo pra curar todo o estrago e eu te poupo de lidar com a indiferença. Deixa o tempo cuidar, deixa ele passar...eu que já tanto quis que ele parasse em alguns momentos.

Ela (a consciência, é com ela que estou falando), então, parou perplexa...talvez se sentindo um pouco injusta de ter reclamado tanto, achando que só ela sofria. Somos duas, meu amor. Então, para que fizéssemos as pazes, ela me deu a resposta que eu queria:

-Brinco com teus pensamentos porque você mal sabe como eles são cuspidos pros teus textos. Eles fazem uma fila. Os mais claros, maduros e consistentes ficam na frente. Cheios de coragem para pularem logo. Mas tem dias que você resolve pegar um lá atrás, no setor dos nebulosos, perigosos, difusos e complexos, quebrando a ordem. Você faz isso quando escuta mais o coração do que a cabeça. Aí vem, ceguinha, bagunçar a minha ordem. Lembre-se de que quanto mais profundo o que você tenta catar em si, mais difícil será colocar em letras.

Saímos de mãos dadas, decretando nossas tão merecidas férias.


(Ps.: Está virando um hábito personificar as partes de mim. Prefiro enxergar isso como um traço de escrita, e não considerar que tem dias que elas tomam vida própria.)

domingo, 10 de outubro de 2010

Com você, os pedaços de mim

Você já teve a sensação de não poder ter algo que muito quer? Eu não falo de fracasso, muito menos de incapacidade. Hoje piso nessas palavras como já pisaram um dia em mim. Mas, deixe-me explicar o que martela a minha cabeça há alguns dias.
Apelo para o brega pois hoje estou com dificuldades de me expressar. Quando criança, eu gostava de montar quebra-cabeças. Cada vez maiores, 500 peças, requeriam um tempo enorme que testava minha paciência sempre curta. Então, quando já estava cansada, eu pegava uma peça muito parecida com o espaço que queria preencher da figura e tentava encaixar. Não era ali, mas eu virava, desvirava e pressionava a peça em vão, claramente percebendo que insistia no erro, ignorando que caíra numa extrema semelhança, mas ainda não no ponto certo. Desistia então, deixando de lado a peça amassada. Ficava um tempo olhando o resto do jogo. Engraçado como nessa hora era bom contemplar o que já havia sido feito. Eu descansava fitando meu trabalho (porque pra mim era uma obra dos deuses) e logo me dispunha a catar pecinhas certas no mar que ainda faltava pra completar a imagem. Esquecia a atitude boba de 5 minutos atrás e o jogo voltava a me entreter, botando fim na raiva e fazendo as pazes comigo. Enfim, peça errada não encaixa não importa o quanto tente, o quanto se esforce. Porque o motivo do não-encaixe não é a tua falta de perseverança ou a tua incapacidade de realizar aquilo. O motivo do não-encaixe é da natureza da coisa em si, é do formato do que você tenta manipular, sem aceitar que aquilo, simplesmente, não foi feito pra estar ali.

Eu hoje, então, me refiro a peças vivas. Sabe qual é a diferença? A coisa não pode ser sua não pela natureza própria ou pela forma como foi "fabricada". Mas sim porque peça viva, meu amigo, é possuidora de liberdade. E como tal, decide o que bem quer. É claro que tem vezes que você cai inesperadamente onde não escolheu. Pode ser bom ou ruim, pode ser no amor, ou na sorte. Mas cabe a você, sempre (sempre), resistir ou não a isso. Sair correndo ou não. A pecinha viva que você tanto quer colocar em um lugar (que parece ser tão certo na sua vida) decide se quer ir ou não. Ela ouve (ou não) os teus anseios, tua vontade e pega a parte das regras que você não alcança e decreta fim ou vida àquilo que está em jogo.

E aí, o que se faz é entender uma coisa que ontem veio bater na minha cabeça. Entender que é preciso valorizar o esforço, a vontade e até aqueles mergulhos de cabeça que a vida te convida a dar de vez em quando. Mas, lembrar também que uma parte ínfima dessa sede boa de tentar matar simplesmente não depende de você. No início é difícil aceitar. Dá vontade de tentar encaixar peça a todo custo. Aprisioná-la e gritar com toda força um quemmandaaquisoueu. Mostrar em luzes neon o tamanho da tua vontade e o desgaste do teu esforço.
Mas no fim, você para. Respira. Olha o suor. Ouve um risinho da peça que você tanto correu atrás. Então, devolve um sorriso cansado. Permita que seja orgulhoso também!
Aí, um dia desses, eu vivi um daqueles dias meus de criança socando a peça do quebra-cabeça no lugar que eu queria, com a garganta já salgada de choro. Então, subi as escadas de um lugar que pouco visito em mim. Onde eu posso assistir minha vida do alto de um mirante, e dar aquele sorriso sereno ao ver a parte da imagem que já está completa. Porque não dá pra ver do lugar onde acontece minha rotina. Eu aplaudi como os cariocas que aplaudem o pôr-do-sol. Larguei, lá de cima, a peça que tanto insisti pra ser minha. Ela não caiu pra fora da vida. Caiu no mar das que faltavam. E sabe? Ela, que um dia já foi tão especial, pareceu tão igual às outras ali no meio! Logo perdi de vista meu amuleto. Sentei, lá no alto, pra olhar um pouquinho as partes de mim lá embaixo. Inspirando cada dose boa de vento. Sentindo sol laranja de fim de tarde clareando a íris castanha. Sentindo também que o jogo, depois de tanto tempo, voltava a me entreter. Vontade de saber se a peça seguinte é do meu domínio. Ou se, de novo, vai me desafiar a convencê-la a ficar mais um pouco. Pra mais um café na minha sala. Eu deixo ela correr se quiser. Entrego a chave da algema. Ou abraço com toda força se ela aceitar o meu convite.

Coisa boa é acessar a visão panorâmica de emergência da vida (porque o bom é a surpresa, sem poder olhar o todo lá de cima). Coisa boa é sentir a leveza de, de novo, ir buscar o encaixe perfeito entre os pedaços de mim.


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Anti-amor urbano

Quando buscam inspiração
Os que amam com vertigem
Inspiram poluição
Comem os pretos da fuligem

Quando buscam ter calor
Na agonia carnal
Derretem vivos no ardor
Do aquecimento global

E se acaso mergulham
Na mais linda declaração
Não é com caneta de pele
No papel-areia do chão

Escolhem o mais limpo cimento
E cospem tinta e borrão
Pintando a cidade-tormento
Com a não-voz do coração

Assim a vida que queria
Viver mais a cada ano
Morre um pouco a cada dia
Neste desamor urbano!

domingo, 3 de outubro de 2010

Choque

Eu sempre gostei da escrita como forma de expressão. Lá na primeira ideia desse meu espaço eu já a colocava em um pedestal, enaltecendo-a. Mas, sabia que brigamos outro dia? Eu disse a ela pra parar com mistérios e linhas ambíguas porque minha dor está forte e precisa decifrar o que leio daquele outro coração. Fui veemente, cheguei a gritar (porque a confusão faz isso com a gente). E acrescentei que ela era minha melhor amiga, já que a fala sempre me traía, mas que ultimamente estava me dando cada golpe no peito, entrando em cada contradição! Parei de falar, respirei aliviada, o rosto afogueado, o sangue pulsando quente (talvez se chame desespero), certa de que havia sido clara. Ela (a escrita), então, levantou serena, em  um quarto com mistura de cinema e New York, olhou pra mim, sábia, e disse como quem joga uma bomba: " Não há mistério nas palavras transparentes que lhe apresento. Não há abstração, rebuscamento, devaneios nem rodeios. Há apenas o teu coração querendo enxergar o que já não existe, fazendo teus olhos trocarem as frases."

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Para o meu leitor assíduo

É, você. Do cabelo bagunçado, dos comprimidos, da matemática e da música. Você vem, lê, conversa e ri. Riso de quem achou engraçada a explosão de raiva, interessante o desabafo, bem escrito o amor em letras e confuso quando o texto não é meu, mas do coração que se manifesta. E como se manifesta. Você nota, fala e se cala. Pergunta, espera e ganha uma resposta que parece pelo avesso, torcida, esquisita. Mas sincera. De quem nem sabe (não quer) o significado. É que o coração ousou demais esse ano. Cansou minha cabeça. Cansou as minhas pernas. Cansou minhas mãos em um teclado de gritos. E como gritei. Gritei pra mim e pra tela. Pro meu quarto também. E quando saía, pra minha rotina lá fora, pegava um sorriso na bolsa, uma capa de proteção por saber do dia difícil que se inicia, e ia pra base onde minha rotina e a sua se esbarram. Onde os caminhos são iguais. Nessa interseção mostramos as cartas do dia. Eu apresento o cansaço. Você a disciplina. Depois vem você mostrando queda. E eu, orgulhosa, com a placa do incentivo, que tem efêmeras horas nas minhas mãos. Porque oscila tudo. Oscila um bem-estar que anda do lado da angústia. Esta, por sua vez, de mãos dadas com um sono de matar, que é destruído pelo riso bobo dos assuntos inúteis e corriqueiros.

Enfim, meu crítico, logo acaba esse sonhadelo. Logo passa e eu, só pra constar, se pudesse te desejar só uma coisa, não seria a grosseria de cada dia e nem as frases sem sentido. Eu te desejaria "altura". Sim, altura. Estranho. Mas é. Porque lá na frente deve ter uma coisa boa. E que seja sucesso em qualquer caminho que aparecer pra você andar. E você, que diz não entender muito do que escrevo, espero que veja tua cara aqui desenhada. E quanto a mim, fico bem com minhas linhas de confusão que cada vez mais viram clareza, alívio.

Mário Quintana foi quem disse: " Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo" .

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Beija-flor novo

Então, deixa eu explicar.

Tinha uma luz. Veio do nada. Aí crescia. Todo dia, todo dia.
Em um dia desses todos, a luz começou a ofuscar. Era linda. Mudava de cor!
Então, eu vi que tinha ficado cega. Não pra luz. Pra todas as coisas em volta.
Sim, cegueira seletiva. Tudo sumiu. Menos a luz.
Aí, a cegueira não me incomodava. Pelo contrário. Me fazia sorrir. Igualzinho pintura moderna. Tem um bando de tinta, um risco lá, um risco cá, um buraco negro, uma flor no canto, uma assinatura em garranchos, e a tua dúvida do que aquilo significa. Sabe o que vem depois? O sorriso! Não entende nada, mas sorri. Um sorriso arrancado. Que sai pra você fazer as pazes com a obra.
Sim, voltando. Eu seguia a luz porque além dela tinha uma voz. É, uma voz que ganhou minha confiança num segundo.  Então agora temos: a luz, a cegueira e a voz. Eu só seguia. E só sorria. Doses mais fortes eu fui precisando. E sabe o que o proprietário da luz fez? Um dia resolveu apagar. Como se fosse um " você não pagou a conta". Só sei que desde esse dia até hoje, eu só recuperei a visão do olho direito. O esquerdo tá voltando, mas ainda é complicado.
Até hoje me pergunto que diabos ocorreu.

Mas que vazio que dá de não tê-la mais por perto. Pego a mochila, meu orgulho e a garrafa d'água. Hoje sou eu que apago luzes. Hoje sou eu que aprendi a calcular a cota. Por fim, quando menos espero, me aparece um jardim. E eu começo a sentir vontade de seguir o beija-flor. É luz disfarçada? É voz enganosa? É não, é vida, é dia, som, cheiro, cor, é certo.
Eu quero que a luz e tudo mais vá pro inferno.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Pulso

Descobri que tenho coração quando comecei a escrever.
"Que nada! " você dirá.
Mas veja bem, o mundo de quando em vez confunde coração com máquina ou saco de pancadas. Isso me traz crise de identidade cardíaca (sim, anote aí).
Então, olhe que maravilha são as palavras. Vão puxando sua angústia lá de dentro e estampando no papel, na tela, na parede, na mão. Enquanto o mundo entope as artérias, as palavras vão drenando. Saem fortes, corajosas (às vezes autônomas demais) e pulsantes. Esclarecem a confusão, aliviam a dor entalada, que a voz já desistiu de explicar.

Elas pulsam!


Li   teratura
Meta   linguagem
An      gústia
Fe      licidade
Me     do
Es      curo
Sau    dade
Lub    Dub


Sístole    Diástole.

sábado, 18 de setembro de 2010

Entreouvido

De madrugada, um pouco antes do sono, naquela hora em que os pensamentos tomam a cabeça no silêncio da casa dormida. Ela toma um susto com o celular. Ele já estava se preparando há horas.

Ele: - Eu cansei de esperar. Tentei falar, tentei mudar tua cabeça, tua impaciência por mísera coisa. Mas você não me deixou mover um dedo sequer. Então, preciso ir embora, pra começar a acordar.

Ela: - Eu entendo. Isso não me agrada muito. Mas entendo.

- Não precisava ser assim. Desaparecer. Dá pra deletar gente?
- Não precisa. Tem como consertar as coisas.
- Eu acabo de desistir de te entender. Ficou no silêncio repentino, enquanto eu tentava te trazer de volta. Então quando finalmente entendo o recado e resolvo tentar esquecer, você vem com um discurso diferente. Escolha! Ou você é toda ódio, ou você é toda amor!
- Digamos que eu esteja lá no meio. Naquele estágio em que a cabeça se afasta. E o coração teima a ficar.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Rio de Janeiro, fevereiro e março

Outro dia me perguntaram: "o que levaria se tivesse que ir?". Eu parei, pensei. A parte do pensar demorou 3 segundos, como uma boa carioca. A parte do parar me tomou um certo tempo que nem sei dimensionar por causa do frio que deu na barriga.
Eu mexi o café, tomei um gole. Puxei o ar e, com ele, as palavras embaralhadas que já estavam me tampando a vista, de tão óbvias e numerosas que eram, doidas para responderem sozinhas.
Eu disse a ele (ao autor da pergunta-bomba) que levaria umas coisinhas. "Um Cristo Redentor...uma Baía de Guanabara pra chegar em grande estilo. O futebol de noite na praia, a bicicleta e o vento no rosto de uma Lagoa Rodrigo de Freitas. Todo o charme do Leblon, um pôr-do-sol de Ipanema. Uma pedra do Arpoador. A alegria e o samba da Lapa. Um gol do Maracanã. Umas vozes do Baixo Gávea e uns encontros num bar de rua em Botafogo. A grandiosidade e a cultura do Centro e aquele dia que olhei pra você e ri com o bondinho passando nos seus óculos escuros. Levaria a tranquilidade do Jardim Botânico e até esta cena que agora observo do posto 6 de Copacabana, enquanto meus olhos fotografam a princesinha do mar. Levo esses itens pra montar um cenário no meu quarto. Faço questão de marcar o meu caminho ao andar por lá. E se não for pelo estilo que me falta, que seja pelo jeito de falar. Caraíba, Parioca, seja lá o que tiver de ser, escolho ir pela metade. Se a vida assim quiser, terá que aceitar o meu acordo. Metade vai, metade fica. Porque muda a rotina e o diploma da faculdade, mas o amor, meu amigo, você lava, esfrega, arranha e não sai a tatuagem. O sol nasce primeiro lá, mas sempre tive a sensação de que brilha mais forte aqui. "

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Nota II

Como eu sempre digo, escrever é um exercício da mente; transbordamento de criatividade.
Passeando por blogs alheios e fazendo a visita assídua aos textos de uma amiga, resolvo clicar em mais um blog que vi no painel de comentários dessa minha amiga.
Qual não foi minha surpresa quando RECONHECI MINHAS FRASES nadando na última postagem da escritora em questão. Não gosto de plágio. Vou chamar de inspiração (ou criatividade nossa de cada dia).
Tudo bem, eu devo ser boa nisso. A partir de hoje, vendo frases, dois reais. Se quiser comprar a idéia matriz, é um pouquinho mais caro. Preços a combinar.


- Homenagem a " IMAGENS LITERÁRIAS". Não vou postar o link, é um desrespeito (oi?).
A literatura é sempre uma caixinha de surpresas! -

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Nota

Hoje eu parei de ser você, de ver o mundo nos seus olhos e de rir com seu sorriso. A chave não está mais debaixo do tapete nem no vaso de flores do hall. Levei comigo aquele chocolate, as fotos da viagem de Janeiro, aquele casaco que você gostava de usar em noite gelada, a garrafa de vinho daquele dia (lembra?) e aquele frasco de perfume que entornamos a metade na pressa pra pegar o início do filme. Procurei seu coração pra deixar no seu quarto mas não achei (você já deve ter guardado).
No mais, estou indo embora.

domingo, 5 de setembro de 2010

Função fática morta

Tem dias que desejo desaprender a falar. Só pra não ficar abrindo canais que eu já deveria ter abandonado. Comunicação é, ao mesmo tempo, uma dádiva e uma praga. Esses dias minha fala resolveu pegar o controle do meu (bom) senso e desconfigurar. "Fique quieta porque 80% das coisas que você ainda pensa em dizer já estão enterradas. Segura a vontade de dar uns passinhos pra trás e olha quanto progresso já veio. Cada vez que você ressuscita a palavra, o lado oposto ganha cem pontos. Deixa morrer esse canal velho. E se concentre naquele novo que você abriu há pouco tempo, no qual cada palavra é uma dose de renovação. "

Você não entendeu nada, eu penso.

domingo, 29 de agosto de 2010

O que não consigo te falar cara a cara

Não, você não faz ideia. Não tem e nunca terá a mínima noção de como está sendo importante pra mim. Eu estava prestes a cair, apoiada em um único dedo, já assustada com a altura que meus olhos observavam aflitos e o corpo (coitado) colhendo os cacos daquilo que meu coração resolveu aprontar há algum tempo. Geralmente ele é bem quieto, nunca tem vontade de correr atrás de nada, comportado, estável. Outro dia ele me disse que se dava bem com você. Outro dia meu sorriso me falou também que há muito não sentia tanta vontade de sair de casa como ultimamente. Os meus olhos te agradecem pelo resgate do afogamento (foi por pouco). E eu, pegando a parte que controlo de mim, te digo que você acertou. Acertou a hora de vir e me dizer que segurava se eu caísse. E segurou. Eu sei que a rotina é cansativa, e que às vezes eu passo muito tempo na realidade e me esqueço daquelas viagenzinhas nos meus pensamentos, e em você. Mas o sol tem aparecido. E eu levanto um pouco mais a cada dia.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A cara da saudade

Dá pra ver a saudade sim. Não em forma de pessoa. É o corpo que te mostra. É como um trajeto sem saída.
Começa lá na cabeça, com os filminhos do cérebro. Tela de inquietudes passadas, transmitindo em cores a cara da saudade. Depois desce pros olhos. Primeiro vem vermelha, em forma de veiazinhas pulsantes que mais parecem pequenos rios das águas das tuas lembranças. Quando os rios transbordam, a saudade não sai vermelha não. Sai transparente. Tendo a fineza de se apresentar em cor pura, cristalina, inocente...o mais constrastante possível com os efeitos que causa. Continuando seu caminho, a saudade vem  brincar com a boca, causando a vontade de falar palavras que você nunca encontra. Ou de gritar pra quem não pode te ouvir. Ou de beijar os lábios de quem botava sorriso nos seus. Depois atinge a garganta, formando um nó. Sim, um nó que dói de tão apertado. Um nó salgado, que você não sabe se é na garganta ou no peito. Que diferença faz? O próximo passo é mesmo o coração! E quanto a este, me dê o direito de pular. Você bem sabe que o coração é alvo fácil, núcleo daquela dor que você tanto quer arrancar. Não se preocupe, são só uns machucados até a saudade descer pros braços e mãos, te dando a vontade de escrever, de discar, de ajudar a disfarçar a inundação dos riozinhos lá de cima. Não satisfeita, ela te faz querer abraços que não vão voltar nunca mais. Por último, é a vez das pernas. Vem a vontade de correr. Às vezes correr pra longe. Pra fora. Pro nada. Ou correr atrás de quem causou essa inquietude toda.

Ah, saudade. Faz a curva e volta fortalecida (mais?), pra mais uma viagem rasgando a alma de quem procura paz!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O poeta e a tinta

O poeta pegou a pena, sentou-se na grande poltrona junto à lareira e pôs-se a encarar o papel branco que tinha no colo. Poderia passar a noite toda escrevendo o turbilhão de idéias que tinha em mente. Eram lembranças, fatos do dia e um punhado de sonhos que cismava em atribuir um significado especial. Antes de tudo, sabia que não poderia demorar muito em sua reflexão, pois assim os ecos da cabeça abafariam a voz do coração. Molhou, então, o fiel escriba de sua alma (que parecia ter vida própria quando ele começava a escrever) e, assim que aproximou o objeto do papel, uma gorda gota azul tomou sua frente e, com toda a imponência, caiu vagarosa e elegantemente na imensa superfície branca que parecia não lhe amedrontar com suas dimensões vertiginosas, tamanha era a ousadia daquele ato. O poeta observou cada segundo da corajosa gotinha sendo absorvida pela folha, espalhando-se agoniada nos seus últimos momentos de vida; naquele seu territoriozinho azul do qual se orgulharia caso pudesse ver o resultado de sua façanha.
O rapaz parou um instante para ouvir o que uma daquelas vozes apaixonadas que moravam dentro dele estava dizendo. Dizia que aquela gota de tinta parecia com ele quando foi tomado de amor por ela (aquela moça que ele viu passar duas vezes em toda a sua vida). Naquele dia que ele arriscou pôr o pé no mar de encantos que transbordava dela, e acabou mergulhando por inteiro, sem que nada pudesse fazer para se livrar daquela folha de papel.
Por fim, lembrou-se que agora morria de amor. Morria de saudade. Morria com sua condição de poeta apaixonado, que nunca aprenderia a se defender de uma onda de sentimentos. Em sua vida, ele sempre nadava contra a maré, alcançando um bocado de areia de quando em vez, mas logo arrastado para o fundo novamente.

Pegou, então, a pena que tinha em mãos, mergulhou-a com vontade no vidro de tinta e salpicou milhões de gotas na folha que o desafiara. Em seguida, subiu as escadas e foi se deitar. Certo de que aquela era a poesia do dia. Certo de que seu coração muitas vezes tomava as rédeas de suas obras e o intrigava com aquele mistério sempre silencioso. E quanto a isso, nada podia fazer. Porque se tinha uma coisa que não possuía naquele momento era a tal da razão que perdera por ela. Parecendo uma gotinha de tinta dessas que caem no papel e se afogam na própria aventura, parecendo pular ao encontro do sofrimento. Parecendo saber, acima de tudo, que o destino do fogo é a água, do branco é a tinta, do riso é o pranto, da voz o silêncio e o seu, o amor.