A tarde quente do Rio se despedia jogando os últimos resquícios de brasa na cidade derretida. De dentro do carro, eu observava apaixonada o mar dourado de São Conrado, ainda que o ar condicionado fosse o meu maior amor. Devagar, aparecia o pôr-do-sol no retrovisor e eu, ainda que tentada, não podia assistir continuamente. Olhar o espelho virado pra trás era apreciar algo bonito, mas o trânsito não permitia uma prolongada retrovisão. "Nem o trânsito, nem a vida"- pensava, no silêncio da viagem. A voz de dentro dela sempre falava pelas tabelas nos momentos em que o mundo se calava. E então concluíam, as duas (ela e a voz), que nem no trânsito nem na vida poderíamos viver olhando pra trás. Quer dizer, as coisas passadas têm lá sua beleza, têm seu valor e merecem o devido reconhecimento, como merece, todos os dias, o pôr-do-sol que abençoa o Rio de Janeiro. Mas, pensava baixinho, estava na hora de fazer do presente, de novo, o combustível da vida. "Considere o passado, viva o presente e lembre que o futuro nem sequer existe ainda" - repetia como quem aprendia o dever de casa. Há muito tempo o retrovisor guiava a sua vida, causando cada acidente bobo, cada topada na cara que, estranhamente, não eram o bastante para fazê-la aprender a olhar pra frente. É que o pôr-do-sol era belo demais e, refletindo no mar de São Conrado, chegava a ser hipnotizante. Ora, as coisas que ficam pra trás têm disso mesmo. Hipnotizam e têm a forma perfeita da tentação. Algemam, prendem, puxam e derrubam todo e qualquer ser insistente com mania chata de avançar. Ah, sim. O passado tenta mesmo. Às vezes até brinca de vivo de novo.
Mas algum estalo ali na frente, alguma luz de sinal vermelho ou uma buzina mais estrondosa a fez voltar o pescoço e, com ele, a atenção pra vida que acontecia agitada. Tudo acontecia bem diante dos seus olhos. O presente presenteava e entupia o caminho com as surpresas do agora!
Trocou a marcha, ligou os faróis pra noite que vinha caindo e repetiu, sozinha: "em frente agora. De uma vez por todas, em fren-te".

