quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Para o meu leitor assíduo

É, você. Do cabelo bagunçado, dos comprimidos, da matemática e da música. Você vem, lê, conversa e ri. Riso de quem achou engraçada a explosão de raiva, interessante o desabafo, bem escrito o amor em letras e confuso quando o texto não é meu, mas do coração que se manifesta. E como se manifesta. Você nota, fala e se cala. Pergunta, espera e ganha uma resposta que parece pelo avesso, torcida, esquisita. Mas sincera. De quem nem sabe (não quer) o significado. É que o coração ousou demais esse ano. Cansou minha cabeça. Cansou as minhas pernas. Cansou minhas mãos em um teclado de gritos. E como gritei. Gritei pra mim e pra tela. Pro meu quarto também. E quando saía, pra minha rotina lá fora, pegava um sorriso na bolsa, uma capa de proteção por saber do dia difícil que se inicia, e ia pra base onde minha rotina e a sua se esbarram. Onde os caminhos são iguais. Nessa interseção mostramos as cartas do dia. Eu apresento o cansaço. Você a disciplina. Depois vem você mostrando queda. E eu, orgulhosa, com a placa do incentivo, que tem efêmeras horas nas minhas mãos. Porque oscila tudo. Oscila um bem-estar que anda do lado da angústia. Esta, por sua vez, de mãos dadas com um sono de matar, que é destruído pelo riso bobo dos assuntos inúteis e corriqueiros.

Enfim, meu crítico, logo acaba esse sonhadelo. Logo passa e eu, só pra constar, se pudesse te desejar só uma coisa, não seria a grosseria de cada dia e nem as frases sem sentido. Eu te desejaria "altura". Sim, altura. Estranho. Mas é. Porque lá na frente deve ter uma coisa boa. E que seja sucesso em qualquer caminho que aparecer pra você andar. E você, que diz não entender muito do que escrevo, espero que veja tua cara aqui desenhada. E quanto a mim, fico bem com minhas linhas de confusão que cada vez mais viram clareza, alívio.

Mário Quintana foi quem disse: " Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo" .

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Beija-flor novo

Então, deixa eu explicar.

Tinha uma luz. Veio do nada. Aí crescia. Todo dia, todo dia.
Em um dia desses todos, a luz começou a ofuscar. Era linda. Mudava de cor!
Então, eu vi que tinha ficado cega. Não pra luz. Pra todas as coisas em volta.
Sim, cegueira seletiva. Tudo sumiu. Menos a luz.
Aí, a cegueira não me incomodava. Pelo contrário. Me fazia sorrir. Igualzinho pintura moderna. Tem um bando de tinta, um risco lá, um risco cá, um buraco negro, uma flor no canto, uma assinatura em garranchos, e a tua dúvida do que aquilo significa. Sabe o que vem depois? O sorriso! Não entende nada, mas sorri. Um sorriso arrancado. Que sai pra você fazer as pazes com a obra.
Sim, voltando. Eu seguia a luz porque além dela tinha uma voz. É, uma voz que ganhou minha confiança num segundo.  Então agora temos: a luz, a cegueira e a voz. Eu só seguia. E só sorria. Doses mais fortes eu fui precisando. E sabe o que o proprietário da luz fez? Um dia resolveu apagar. Como se fosse um " você não pagou a conta". Só sei que desde esse dia até hoje, eu só recuperei a visão do olho direito. O esquerdo tá voltando, mas ainda é complicado.
Até hoje me pergunto que diabos ocorreu.

Mas que vazio que dá de não tê-la mais por perto. Pego a mochila, meu orgulho e a garrafa d'água. Hoje sou eu que apago luzes. Hoje sou eu que aprendi a calcular a cota. Por fim, quando menos espero, me aparece um jardim. E eu começo a sentir vontade de seguir o beija-flor. É luz disfarçada? É voz enganosa? É não, é vida, é dia, som, cheiro, cor, é certo.
Eu quero que a luz e tudo mais vá pro inferno.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Pulso

Descobri que tenho coração quando comecei a escrever.
"Que nada! " você dirá.
Mas veja bem, o mundo de quando em vez confunde coração com máquina ou saco de pancadas. Isso me traz crise de identidade cardíaca (sim, anote aí).
Então, olhe que maravilha são as palavras. Vão puxando sua angústia lá de dentro e estampando no papel, na tela, na parede, na mão. Enquanto o mundo entope as artérias, as palavras vão drenando. Saem fortes, corajosas (às vezes autônomas demais) e pulsantes. Esclarecem a confusão, aliviam a dor entalada, que a voz já desistiu de explicar.

Elas pulsam!


Li   teratura
Meta   linguagem
An      gústia
Fe      licidade
Me     do
Es      curo
Sau    dade
Lub    Dub


Sístole    Diástole.

sábado, 18 de setembro de 2010

Entreouvido

De madrugada, um pouco antes do sono, naquela hora em que os pensamentos tomam a cabeça no silêncio da casa dormida. Ela toma um susto com o celular. Ele já estava se preparando há horas.

Ele: - Eu cansei de esperar. Tentei falar, tentei mudar tua cabeça, tua impaciência por mísera coisa. Mas você não me deixou mover um dedo sequer. Então, preciso ir embora, pra começar a acordar.

Ela: - Eu entendo. Isso não me agrada muito. Mas entendo.

- Não precisava ser assim. Desaparecer. Dá pra deletar gente?
- Não precisa. Tem como consertar as coisas.
- Eu acabo de desistir de te entender. Ficou no silêncio repentino, enquanto eu tentava te trazer de volta. Então quando finalmente entendo o recado e resolvo tentar esquecer, você vem com um discurso diferente. Escolha! Ou você é toda ódio, ou você é toda amor!
- Digamos que eu esteja lá no meio. Naquele estágio em que a cabeça se afasta. E o coração teima a ficar.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Rio de Janeiro, fevereiro e março

Outro dia me perguntaram: "o que levaria se tivesse que ir?". Eu parei, pensei. A parte do pensar demorou 3 segundos, como uma boa carioca. A parte do parar me tomou um certo tempo que nem sei dimensionar por causa do frio que deu na barriga.
Eu mexi o café, tomei um gole. Puxei o ar e, com ele, as palavras embaralhadas que já estavam me tampando a vista, de tão óbvias e numerosas que eram, doidas para responderem sozinhas.
Eu disse a ele (ao autor da pergunta-bomba) que levaria umas coisinhas. "Um Cristo Redentor...uma Baía de Guanabara pra chegar em grande estilo. O futebol de noite na praia, a bicicleta e o vento no rosto de uma Lagoa Rodrigo de Freitas. Todo o charme do Leblon, um pôr-do-sol de Ipanema. Uma pedra do Arpoador. A alegria e o samba da Lapa. Um gol do Maracanã. Umas vozes do Baixo Gávea e uns encontros num bar de rua em Botafogo. A grandiosidade e a cultura do Centro e aquele dia que olhei pra você e ri com o bondinho passando nos seus óculos escuros. Levaria a tranquilidade do Jardim Botânico e até esta cena que agora observo do posto 6 de Copacabana, enquanto meus olhos fotografam a princesinha do mar. Levo esses itens pra montar um cenário no meu quarto. Faço questão de marcar o meu caminho ao andar por lá. E se não for pelo estilo que me falta, que seja pelo jeito de falar. Caraíba, Parioca, seja lá o que tiver de ser, escolho ir pela metade. Se a vida assim quiser, terá que aceitar o meu acordo. Metade vai, metade fica. Porque muda a rotina e o diploma da faculdade, mas o amor, meu amigo, você lava, esfrega, arranha e não sai a tatuagem. O sol nasce primeiro lá, mas sempre tive a sensação de que brilha mais forte aqui. "

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Nota II

Como eu sempre digo, escrever é um exercício da mente; transbordamento de criatividade.
Passeando por blogs alheios e fazendo a visita assídua aos textos de uma amiga, resolvo clicar em mais um blog que vi no painel de comentários dessa minha amiga.
Qual não foi minha surpresa quando RECONHECI MINHAS FRASES nadando na última postagem da escritora em questão. Não gosto de plágio. Vou chamar de inspiração (ou criatividade nossa de cada dia).
Tudo bem, eu devo ser boa nisso. A partir de hoje, vendo frases, dois reais. Se quiser comprar a idéia matriz, é um pouquinho mais caro. Preços a combinar.


- Homenagem a " IMAGENS LITERÁRIAS". Não vou postar o link, é um desrespeito (oi?).
A literatura é sempre uma caixinha de surpresas! -

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Nota

Hoje eu parei de ser você, de ver o mundo nos seus olhos e de rir com seu sorriso. A chave não está mais debaixo do tapete nem no vaso de flores do hall. Levei comigo aquele chocolate, as fotos da viagem de Janeiro, aquele casaco que você gostava de usar em noite gelada, a garrafa de vinho daquele dia (lembra?) e aquele frasco de perfume que entornamos a metade na pressa pra pegar o início do filme. Procurei seu coração pra deixar no seu quarto mas não achei (você já deve ter guardado).
No mais, estou indo embora.

domingo, 5 de setembro de 2010

Função fática morta

Tem dias que desejo desaprender a falar. Só pra não ficar abrindo canais que eu já deveria ter abandonado. Comunicação é, ao mesmo tempo, uma dádiva e uma praga. Esses dias minha fala resolveu pegar o controle do meu (bom) senso e desconfigurar. "Fique quieta porque 80% das coisas que você ainda pensa em dizer já estão enterradas. Segura a vontade de dar uns passinhos pra trás e olha quanto progresso já veio. Cada vez que você ressuscita a palavra, o lado oposto ganha cem pontos. Deixa morrer esse canal velho. E se concentre naquele novo que você abriu há pouco tempo, no qual cada palavra é uma dose de renovação. "

Você não entendeu nada, eu penso.

domingo, 29 de agosto de 2010

O que não consigo te falar cara a cara

Não, você não faz ideia. Não tem e nunca terá a mínima noção de como está sendo importante pra mim. Eu estava prestes a cair, apoiada em um único dedo, já assustada com a altura que meus olhos observavam aflitos e o corpo (coitado) colhendo os cacos daquilo que meu coração resolveu aprontar há algum tempo. Geralmente ele é bem quieto, nunca tem vontade de correr atrás de nada, comportado, estável. Outro dia ele me disse que se dava bem com você. Outro dia meu sorriso me falou também que há muito não sentia tanta vontade de sair de casa como ultimamente. Os meus olhos te agradecem pelo resgate do afogamento (foi por pouco). E eu, pegando a parte que controlo de mim, te digo que você acertou. Acertou a hora de vir e me dizer que segurava se eu caísse. E segurou. Eu sei que a rotina é cansativa, e que às vezes eu passo muito tempo na realidade e me esqueço daquelas viagenzinhas nos meus pensamentos, e em você. Mas o sol tem aparecido. E eu levanto um pouco mais a cada dia.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A cara da saudade

Dá pra ver a saudade sim. Não em forma de pessoa. É o corpo que te mostra. É como um trajeto sem saída.
Começa lá na cabeça, com os filminhos do cérebro. Tela de inquietudes passadas, transmitindo em cores a cara da saudade. Depois desce pros olhos. Primeiro vem vermelha, em forma de veiazinhas pulsantes que mais parecem pequenos rios das águas das tuas lembranças. Quando os rios transbordam, a saudade não sai vermelha não. Sai transparente. Tendo a fineza de se apresentar em cor pura, cristalina, inocente...o mais constrastante possível com os efeitos que causa. Continuando seu caminho, a saudade vem  brincar com a boca, causando a vontade de falar palavras que você nunca encontra. Ou de gritar pra quem não pode te ouvir. Ou de beijar os lábios de quem botava sorriso nos seus. Depois atinge a garganta, formando um nó. Sim, um nó que dói de tão apertado. Um nó salgado, que você não sabe se é na garganta ou no peito. Que diferença faz? O próximo passo é mesmo o coração! E quanto a este, me dê o direito de pular. Você bem sabe que o coração é alvo fácil, núcleo daquela dor que você tanto quer arrancar. Não se preocupe, são só uns machucados até a saudade descer pros braços e mãos, te dando a vontade de escrever, de discar, de ajudar a disfarçar a inundação dos riozinhos lá de cima. Não satisfeita, ela te faz querer abraços que não vão voltar nunca mais. Por último, é a vez das pernas. Vem a vontade de correr. Às vezes correr pra longe. Pra fora. Pro nada. Ou correr atrás de quem causou essa inquietude toda.

Ah, saudade. Faz a curva e volta fortalecida (mais?), pra mais uma viagem rasgando a alma de quem procura paz!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O poeta e a tinta

O poeta pegou a pena, sentou-se na grande poltrona junto à lareira e pôs-se a encarar o papel branco que tinha no colo. Poderia passar a noite toda escrevendo o turbilhão de idéias que tinha em mente. Eram lembranças, fatos do dia e um punhado de sonhos que cismava em atribuir um significado especial. Antes de tudo, sabia que não poderia demorar muito em sua reflexão, pois assim os ecos da cabeça abafariam a voz do coração. Molhou, então, o fiel escriba de sua alma (que parecia ter vida própria quando ele começava a escrever) e, assim que aproximou o objeto do papel, uma gorda gota azul tomou sua frente e, com toda a imponência, caiu vagarosa e elegantemente na imensa superfície branca que parecia não lhe amedrontar com suas dimensões vertiginosas, tamanha era a ousadia daquele ato. O poeta observou cada segundo da corajosa gotinha sendo absorvida pela folha, espalhando-se agoniada nos seus últimos momentos de vida; naquele seu territoriozinho azul do qual se orgulharia caso pudesse ver o resultado de sua façanha.
O rapaz parou um instante para ouvir o que uma daquelas vozes apaixonadas que moravam dentro dele estava dizendo. Dizia que aquela gota de tinta parecia com ele quando foi tomado de amor por ela (aquela moça que ele viu passar duas vezes em toda a sua vida). Naquele dia que ele arriscou pôr o pé no mar de encantos que transbordava dela, e acabou mergulhando por inteiro, sem que nada pudesse fazer para se livrar daquela folha de papel.
Por fim, lembrou-se que agora morria de amor. Morria de saudade. Morria com sua condição de poeta apaixonado, que nunca aprenderia a se defender de uma onda de sentimentos. Em sua vida, ele sempre nadava contra a maré, alcançando um bocado de areia de quando em vez, mas logo arrastado para o fundo novamente.

Pegou, então, a pena que tinha em mãos, mergulhou-a com vontade no vidro de tinta e salpicou milhões de gotas na folha que o desafiara. Em seguida, subiu as escadas e foi se deitar. Certo de que aquela era a poesia do dia. Certo de que seu coração muitas vezes tomava as rédeas de suas obras e o intrigava com aquele mistério sempre silencioso. E quanto a isso, nada podia fazer. Porque se tinha uma coisa que não possuía naquele momento era a tal da razão que perdera por ela. Parecendo uma gotinha de tinta dessas que caem no papel e se afogam na própria aventura, parecendo pular ao encontro do sofrimento. Parecendo saber, acima de tudo, que o destino do fogo é a água, do branco é a tinta, do riso é o pranto, da voz o silêncio e o seu, o amor.

sábado, 14 de agosto de 2010

Da segurança máxima que inventou pra si.

Ele chegou aflito no local onde haviam combinado. Acabara de sair da faculdade e não fazia ideia do que ela tinha pra falar.

Ele: - Tentei te ligar pra avisar do trânsito.

Ela: -Tudo bem, não esperei muito...

- O que houve? Tanto mistério seu.
- Mistério?
- É, parece meio nervosa.
- Sim, estou.
- Algo que eu possa fazer? Você não é assim normalmente.
- É que ontem decidi ir embora.
- Como assim?
- É, sumir.
- É algum tipo de brincadeira?
- Não, não é. Sei que parece estranho, mas é isso.
- Você não gosta mais de mim?
- Não se trata disso. Tudo que falei foi verdade. Você foi a melhor coisa que podia me acontecer. Te amei com uma intensidade que eu nunca tinha visto.
- Então o que eu fiz de errado?
- Não foi você. Mas todas as coisas que te impediam de ter mais tempo. Eu sei, eu sei. Eu disse que estaria com você não importa o que acontecesse. Mas, não quero lidar mais com isso.
- Você não tinha um modo melhor pra me fazer entender isso? Simplesmente ficou a pessoa mais estranha do mundo essa semana, me tratando como se eu não fosse mais tão importante. Até que marcou de nos encontrarmos aqui nessa praia, à noite, pra jogar essa bomba?
- Eu sei. Desculpa por tudo.
- Você entende a minha dor?
- Entendo. Eu também senti bastante. Não foi fácil esquecer tudo.
- ESQUECER?
- Simplesmente me conformei que agora não vai dar. Nossos ritmos são diferentes. Eu não quero abrir mão da minha vida.
- Por que eu te pediria pra "abrir mão da sua vida" ?
- Você entendeu.
- Na verdade, não.
- Desculpa mesmo. Odeio te fazer mal.
- Olha, você querer ir embora, ou não gostar mais de mim é até mais fácil de entender. A única coisa que me deixa realmente triste é você ter escolhido uma forma traumática.
- É, eu sei...
- Engraçado você ter a consciência disso. E mesmo assim continuou agindo da pior maneira possível.

( Silêncio)

Ele: - Não sei dizer a sensação de agora. O meu amor cresceu tão rápido. Parei de duvidar e estive entregue a você. Confiei com toda a força que você me fez ter. Foi como pisar no escuro, como não costumo fazer. Eu, sempre relutante. Sempre cheio de mim. Duvidando das coisas, das pessoas. Vi em você uma chance de tirar os pés do chão de vez. O que aconteceu com a gente e com a surpresa boa, só nossa ?

Ela: - Não espero que entenda. Mas você sabe. O primeiro "eu te amo" é sempre o que mais vale. Quanto mais amor, menos amor.


Levantou-se, e foi embora. Fingindo levar também o coração. Fingindo sair no tapete vermelho. E ele, comparando sua tristeza com o mar ali na frente. Mas ela foi mais forte, nem sequer olhou pra trás.

domingo, 8 de agosto de 2010

Desfibrilador

Eu quero ir com tudo pro final desse ano que mais parece uma década. Levantar e dar a arrancada que estava esperando, deixar o mais triunfante pro ato final. Voltar a me reconhecer com toda a vontade que alguém pode ter dentro de si. Muita queda já aconteceu. Aconteceu também vontade de largar tudo. Muita queda foi culpa minha, culpa da fraqueza que não trabalhei pra ir embora logo. Mas pouco da queda foi também dos outros; alguns que me puxaram pro ponto de partida quando eu já me sentia na chance de ganhar. Não há coisa melhor do que sentir a energia retomar os batimentos cardíacos quando já se tinha decretado morte. Não há coisa melhor do que ver a ferida se curando quando você já tinha se conformado em seguir mancando, cansada, se arrastando. Eu quero ver onde o caminho vai dar. Onde o caminho que eu mesma fiz pra mim vai dar. A vida tá pedindo, gritando alto pra voltar com toda a plenitude que ela merece. Eu seguro, peço calma ( mais?). Eu escrevo aqui com a vontade de gritar. Gritar na cara de alguns que me fizeram recuar. E gritar pra mim mesma de alívio. Escrever é catarse também. Catarse de extravasamento. Lembro-me do estilo da Geração Ultra-romântica, onde pra ler um poema daqueles é melhor subir na cadeira e gritar os versos com toda a força que tiver no peito para, assim, tentar captar 10% que seja da emoção que esconderam nas letras.
Eu quis correr com o corpo mais rápido do que a alma podia acompanhar. Parei, deixei ela me alcançar. Sentir-se em casa novamente e tomar as rédeas de mim.
Depois de muito tapa, eu quero andar com pernas próprias novamente.
Quero sentir de novo o que reprimi durante esse tempo. Deixar as coisas virem como há de ser. Já dá pra enxergar um pouquinho do fim. Tem cara de luz. Se, mais perto, tiver cara de escuro, eu quero poder ser mais forte que isso.
" Mas pense no agora! Não sentes a repiração voltar ao ritmo? A cicatrização dar sinais de avanço? O sorriso inesperado brincar nos lábios de novo? "

Segura. Falta pouco.

domingo, 1 de agosto de 2010

Torcida da sua vida

Mesmo antes de nascer, já tinha alguém torcendo por você. Tinha gente que torcia para você ser menino. Outros torciam para você ser menina. Torciam para você puxar a beleza da mãe, o bom humor do pai. Estavam torcendo para você nascer perfeito. Daí continuaram torcendo... Torceram pelo seu primeiro sorriso, pela primeira palavra , pelo primeiro passo. O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida. E o primeiro gol, então? E, de tanto torcerem por você, você aprendeu a torcer. Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel. Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. Mas torcia por hambúrguer e refrigerante. Começou a torcer até para um time. Provavelmente, nesse dia, você descobriu que tem gente que torce diferente de você. Seus pais torciam para você comer de boca fechada, tomar banho, escovar os dentes, estudar inglês e piano. Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana. Seus amigos torciam para você usar brinco, cabular aula, falar palavrão. Eles também estavam torcendo para você ser bacana. Nessas horas, você só torcia para não ter nascido. E por não saber pelo que você torcia, torcia torcido. Torceu para seus irmãos se ferrarem, torceu para o mundo explodir. E quando os hormônios começaram a torcer, torceu pelo primeiro beijo, pelo primeiro amasso. Depois começou a torcer pela sua liberdade. Torcia para viajar com a turma, ficar até tarde na rua. Sua mãe só torcia para você chegar vivo em casa. Passou a torcer o nariz para as roupas da sua irmã, para as idéias dos professores e para qualquer opinião dos seus pais. Todo mundo queria era torcer o seu pescoço. Foi quando até você começou a torcer pelo seu futuro. Torceu para ser médico, músico, advogado... Na dúvida, torceu para ser físico nuclear ou jogador de futebol. Seus pais torciam para passar logo essa fase. No dia do vestibular, uma grande torcida se formou. Pais, avós, vizinhos, namoradas e todos os santos torceram por você. Na faculdade, então, era torcida pra todo lado. Para a direita, esquerda, contra a corrupção, a fome na Albânia e o preço da coxinha na cantina. E, de torcida em torcida, um dia teve um torcicolo de tanto olhar para 'ela'...
Primeiro, torceu para ela não ter outro. Torceu para ela não te achar muito baixo, muito alto, muito gordo, muito magro. Descobriu que ela torcia igual a você. E de repente vocês estavam torcendo para não acordar desse sonho. Torceram para ganhar a geladeira, o microondas e a grana para a viagem de lua-de-mel. E, daí pra frente, você entendeu que a vida é uma grande torcida. Porque, mesmo antes do seu filho nascer, já tinha muita gente torcendo por ele. Mesmo com toda essa torcida, pode ser que você ainda não tenha conquistado algumas coisas. Mas muita gente ainda torce por você.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Elo Imaginário

Noite. Avião. Pista. Esteira. Mala. Táxi. (Cansaço). (Saudade). (Ansiedade). Rua. Prédio. Elevador. Chave. Porta. Suspiro. Aconchego. Abraço. Sorriso. Choro. Beijo. Conversa. Beijo. Conversa. Beijo. Susto. Camisa. Marca. Batom. Perfume. Olhar. Lágrima. Raiva. Pergunta. Silêncio. Negação. Grito. Pergunta II. Negação. Desespero. Pergunta III. Explicação. Choro. Tapa. Empurrão. Choro. Silêncio.Tapa. Grito. Despedida. Porta. Silêncio. Sapato. Passo I. Passo II. Parada. Olhar. Tristeza. Cabeça baixa. Passo III. Tentativa. Desculpa. Negação. Decepção. Desespero. Passo IV. Joelho. Chão. Pedido. DesesperoCostas. De pé. Hall. Porta. BLAM. Coração. Cacos. Elevador. Térreo. Rua. Noite. Choro. Arrependimento. Bar. Álcool. Álcool II. Álcool III. Desequilíbrio. Rua. Praia. Areia. Desequilíbrio. Passos. Queda. De pé. Passos. Mar. Passos. Fundo. Escuro. Fundo. Ar. Tontura. Inspiração. Água. Superfície. Corpo. Horas. Corpo. Areia. Tristeza. Café. Jornal. Notícia. Xícara. Chão. Cacos. Grito. Choro. Porta. Elevador. Térreo. Rua. Corrida. Carro. Susto. BLAM. Sangue. Cacos. Fim. Amor.

domingo, 25 de julho de 2010

Poeminho do Contra .

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!


Mario Quintana

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Mudança de planos .

Uma quinta-feira sem sal. Dia de sol, muito sol. E uma dor enorme me impedindo de ir além da esquina- algo sobre o dia do futebol e aquela torção lenta pra melhorar. Conformada então a abrir mão da praia, o dia correu com tranquilidade e terminou de maneira inusitada, talvez nem tanto pra você.
Depois de muito reclamar que o tempo relaxante em casa não serviu pra fazer a dor passar por completo, comprometendo os planos de sair à noite, sentei no sofá com a pior cara do mundo pra assistir a um filme com a família. Como há muito não fazia.

Engraçado como toda a falta de atenção que tenho durante a semana caiu em cima de mim naquela hora.
Família é rotina. Todo dia o barulho da chave na porta. O jantar com histórias do dia, uma novidade ou assuntos do trabalho. O telefonema de quem vai chegar mais tarde. E o almoço demorado no domingo.
É mais. Muito mais do que nos habituamos a pensar. Às vezes o valor dá o ar da graça no susto de uma quase perda. Ou até menos que isso.
Outro dia vi um filme em que o pai dizia que quando teve seu filho, passou a ter a constante sensação de que precisava sobreviver. Eu acho que os filhos, não importando a idade, têm a confortante sensação de que possuem proteção. Por mais independentes que sejam. Por mais cliché que pareça.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Sobre precipitar-se .

Decidir nunca foi tarefa fácil. Falo aqui das decisões de verdade, que causam dúvida e demandam tempo. Não dos contrastes óbvios da vida, nos quais o caminho certo está piscando de verde. É preciso pensar com cautela para evitar precipitações. Claro, errar é possível - e preciso. Mas, livre-se da pressa e ingira paciência antes de decidir algo, e aí sim fique à vontade pra errar. Para os pseudo-carpe diem lifestyle, que escolhem pular de cabeça logo de primeira, é preciso lembrar que embaixo do perfeito espelho d'água podem existir pedras.
Não é só para adentrar situações que existe precipitação. Pra sair delas também. Deixar passar uma oportunidade também pode ser resultado da sua antecipação. Da impaciência. Da ansiedade. E então a coisa como era não volta mais. Você pode tentar algo parecido, prometer pra si mesmo que não vai repetir o engano. Mas, o que era antes não volta não. Chata essa ideia de irreparável. Coisa forte essa da vida acontecer em um só tempo.
Racionalidade antes da coragem, e estamos bem para andar ou cair.



domingo, 18 de julho de 2010

Feedback .

Cheguei no Rio sem vontade de chegar. O cheiro da casa e a mala por desarrumar vão me situando pouco a pouco no meu lugar, e as perguntas de praxe já me doem os ouvidos: " Como foi o churrasco? Conta aí ! Tinha muita gente? Saíram que horas? ". Nessa hora eu sinto um escrito coçando na testa: " Me deixem quieta. ". É que voltei encomendada pelo cansaço e por uma vontade mais forte que o normal de ficar sozinha. Engraçado como aqui em casa isso é a coisa mais estranha do universo e sinônimo direto de mau-humor. Então, entrei no quarto e exerci meus direitos invioláveis de ser cansada e só querer comer uma maçã e dar uma bela espreguiçada na cama.
Feito isso, estou aqui. E à vontade, agora, pra dizer que subir lá pro frio foi a melhor coisa que podia me ocorrer neste fim de semana. Faz um tempo que as coisas não caem como uma luva, mas dessa vez foi assim. Não havia nada que eu precisasse mais do que os amigos de sempre, uma boa cerveja e um violão nas mãos de quem sabe (lê-se Dudu). Tudo isso a uma certa distância daqui. E pronto. Deixem-me no meu estado de latência até segunda ordem. Um fim de semana foi o tempo ideal. Ainda mais quando tratamos do frio e minha implicância com ele.

O bom de um momento assim é quando você consegue também transportar a consciência para onde esteja indo. E eu estava precisando mesmo renovar os pensamentos e selecionar alguns pra ficarem por lá. Tento há alguns dias fazer essa faxina na mente, mas muita coisa por aqui já me desagrada. Um enorme passo foi dado então, com 90% de desligamento mental e novos ares pra respirar. Tudo bem, uns pequenos contatos e umas poucas mensagens desnecessárias e ponto final. Fiz ótimo uso da distância e vi como estava com saudade de alguns.

Pondo a cabeça em ordem pouco a pouco, vou acabando com a política isolacionista e curtindo o ritmo da casa. Se continuar assim, eu digo que a semana amanhã começa bem.
Como há muito não começava.