terça-feira, 21 de junho de 2016

Respira

Cheguei em casa ainda com a imagem dos reflexos das gotas de chuva no seu rosto. Joguei o corpo na cama, a bolsa num canto e dei o suspiro profundo que não tinha dado o dia inteiro. A voz interior, que sempre me acompanha ao final de dias difíceis, já vinha dando o ar da graça pra dizer alguma coisa. Estava com medo de brigar comigo e quis pedir a ela que me desse um desconto só hoje. Mas não, é preciso conversar (se você acha estranho eu ter uma voz na consciência, talvez precise de silêncio de espírito). 

- Está cansada, hein? Olha esses olhos fundos de quem pede uma noite de sono pro dia acabar logo. - disse a voz toda imponente.

- Não preciso do seu julgamento. Preciso ficar quieta agora, sem pensar coisa nenhuma. - respondi.

- Olha, eu vi tudo. Me lembrou quando você era criança. 

- Como assim?

- Sabe, quando criança, às vezes você chegava na cozinha, numa dessas tardes de tempo ruim que nem hoje, e encontrava um grande bolo de massa paradinho no balcão. Enquanto que pra outros aquilo era o meio de uma receita deliciosa, pra você era tipo um brinquedo novo. Queria mexer, tirar pedaço, fazer bolinha e brincar de massinha. - disse a consciência em tom de riso.

- Affe, apenas explique o que isso tem a ver com meu dia caótico. Pra quem estava do meu lado, parece que você quer mais me irritar do que ajudar a enxergar as coisas.

- Calma, moça. Vamos lá. O problema é que ninguém deixava você tocar na massa apoiada ali, sob o estranho argumento de que "a massa estava descansando". Você fitava aquele potencial playground e não entendia o porquê de uma coisa daquelas precisar "descansar". Só sei que demorava pra aceitar, viu? Tentavam te explicar que se você mexesse, se apertasse e tocasse ia estragar a receita e o resultado não ia ser tão bom. Alguma coisa maior estava por trás daquilo e tudo o que pediam a você, ansiosa, era que tivesse calma e não mexesse antes da hora. Por mais que o desejo fosse grande, por mais que a vontade pinicasse nos dedos, aquela era a hora de manter distância e não interferir, pra no fim dar certo. Entendeu?

- Mais ou menos. - disse eu.

- Ora, a noite de hoje me fez lembrar de você catucando coisas que pediam distância. Achando que seu toque e sua interferência iam ser bons, mas depois se arrependeu e lembrou que ter calma, pro ser humano, é tão importante quanto comer.

Eu fechei os olhos, como quem sente vergonha. Pedi pra voz me dar um tempo e disse:

- Você está fazendo sentido agora.

- Não é? - respondeu ela - Quanto mais você falava, mais se embolava. Quanto mais você se deixava levar pela ideia doida de surgir do nada, mais consequencia ruim vinha. E, de repente, você não fazia mais sentido. Tentava falar, mas a voz embargada do choro na garganta abafava suas ideias. Eu queria te abraçar e te tirar dali pra tomar um bom banho quente, mas eu, que não tenho corpo, às vezes nem voz tenho também porque você me perde nos seus momentos de muita angústia e esquece que sou sua amiga e funciono muito bem na sua rotina normal. Tenho certeza, minha querida, que você quis sumir e voltar tudo atrás porque estava arrependida de todos os movimentos em prol de uma coisa que só pedia: calma. Respira.

- Sim. Não seja tão dura...mas sim.

- É, moça. Às vezes falta alguém pra te dizer "calma, respira" ou "não toque aí agora". Porque eu, consciência, sou abafada, muitas vezes, pelas coisas que você quer muito. Você luta com uma gana pelas coisas que te importam que, às vezes, esquece do tempo que elas precisam sem você. Esquece que muita coisa não está no seu controle e que não tocar em nada é o melhor jeito de resolver. Você é ótima para agir, mas muito ruinzinha pra esperar.

- Sinto que se eu esperar, vou deixar muita coisa passar.

- Bobagem! Se dê a chance de ver as coisas chegando até você. E quando aquela semente de ansiedade tentar te dominar, você vai ser mais forte e entender que, em certos momentos, é melhor observar. Tem que parar de querer fazer tudo, porque o fato de não ter sua mão ali no meio, não significa que o resultado não virá. Por acaso o que te irritou hoje depende só de você? Não, não e não. Por isso, calma! Respira.

- Calma, respira. Calma, respira. - repeti como um mantra.

- Isso, meu bem. - disse a voz que agora me acalentava o coração, tentando assoprar a dor que estava lá- calma e respira pra vida toda. Pra aquela prova que você tem que fazer e já estudou. Pro jogo de futebol que você quer ver o gol e já tocou a bola. Calma e respira pras coisas que te querem como observadora. Pros amores, que são livres pra pensar o que quiserem. Pras coisas que requerem a sua PACIÊNCIA. Calma e respira, como se você, antes de chegar no conforto bom da casa, estivesse atravessando um caminho com chuva gelada, durante o qual você não tem nada a fazer a não ser observar a água molhando a barra da calça.

- Mas estou! - exclamei.

- Então?

Calma. Respira.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Chave de casa

Sexta-feira, 3 de Junho. Chego afoita em casa pra tirar logo os sapatos, afrouxar a calça jeans e tentar adiantar o trabalho de segunda. Ver o que da faculdade dá pra ir completando, no meio de tanta coisa acumulada. Chegar em casa ainda na luz do dia era raro, oportunidade única pra produzir alguma coisinha.

Entretanto, a tão esperada entrada em casa não foi possível pela ausência do protagonista dessa história feliz: a chave da porta. Jogo a mochila no chão, derrubando a carteira, o pen drive, a bala halls derretida, recibo do banco, caneta e absorvente. Mas nada de chave por ali não. Olhei pra porta da vizinha e ri da minha cabeça me transmitindo a cena hilária de um pedido de abrigo temporário. Enfim, desci. Oi de novo pro porteiro. 

- Tá sem chave?
- To (seco) - disse enquanto me dirigia pro sofá da portaria, que seria meu lugar pelas próximas longas horas.

Deitei naquela posição desconfortável de quem deixa os pés pra fora. Acho que o porteiro leu meu rosto de cansada e resolveu dar uma colher de chá apagando umas das luzes do hall de entrada. Estava frio. Abri minha mochila e só tinha o jaleco amassado por ali. Me cobri com ele mesmo e juro que não consigo me lembrar da última vez em que colocá-lo sobre o corpo me trouxe tamanho conforto. Tinha me esquecido do material macio do qual é feito, já que ao vesti-lo, geralmente, alguma coisa mais pesada que tecido recai sobre os ombros. 

Fecho os olhos e a vida acontece acelerada em volta. Barulho de portão abrindo e batendo. Gente chamando o outro. Criança chutando bola no play (há quanto tempo eu mesma não chutava uma?). Barulho de buzina inútil de gente estressada do fim do dia. Dois cachorros que se estranham na rua. Televisão em alto volume. Meu celular vibra e eu, num ato já reflexo e assustado, viro a luz da tela pra minha cara pra ver o que é. Pode ser email. Pode ser mãe dizendo que tá chegando. Pode ser o grupo do trabalho pra entregar. Pode ser quem eu penso o dia inteiro. Pode ser nada também. Não era nada.

Fecho os olhos novamente. Agora os sons da vida alternam com momentos em que não ouço nada. Luto pra continuar alerta. Estou acostumada com essa luta pra continuar alerta. O celular vibra. Uma, duas, três vezes. Mas não me mexo. Os sons de fora se confundem com um sonho que começa. Alguém interfona. Um cheiro de jantar invade o lugar. Me lembrou a época de colégio, quando eu ficava aflita com o cheiro do jantar percorrendo a casa nas Laranjeiras, porque significava o fim do dia e eu não tinha feito os deveres que havia planejado para aquela tarde. A lembrança me atiça a vontade de lutar contra o sono. De olhos fechados eu tento manter a vigilância. Tento prestar atenção no que ocorre lá fora. Sou dura na queda.

- Sou dura na queda - diz o pensamento.

- Sou dura na queda. Sou dura na q.

E dormiu.
Esquecer a chave é necessário.








segunda-feira, 28 de março de 2016

Pegar a câmera e fechar a lente num único ponto da vida tem lá seus problemas. Essa mania de zoom nas coisas que parecem super importantes tem aí umas desvantagens. Perde-se a capacidade de mover o rosto pros lados. De mover os olhos em círculos e dar a volta na paisagem sem sair do lugar. Perde-se a capacidade até de ouvir os sons que vem dos lados (aqueles que atiçam a curiosidade pra gente catar de onde estão vindo), porque tudo o que se vê é aquela única coisa no altar, que recebe todos os flashes de uma vez só. Aí, se aquela foto começa a sair embaçada; se começamos a estranhar o ângulo e nos decepcionamos com o resultado, não há outra coisa que nos segure da queda.
Zoom pode ser danoso pra quem não sabe usar a câmera.
Tenho preferido as paisagens mais amplas. Tenho procurado enriquecer a vida com mil cores diferentes para, assim, poder me impressionar constantemente; com os olhos de criança que depois de enjoar de um brinquedo chato, olha pro lado e encontra motivo pra sorrir de novo.

A idéia não é aniquilar as coisas ruins, que sempre estarão lá e são fruto do acaso. Mas fazer a coisa ser menor. Que nem quando a gente dilui o remédio ruim num copo d'água gigante e não sente o amargo na garganta.

Veja bem, não quero dizer que vida não tem gosto ruim às vezes. Mas é preciso diluir. Encher isso aqui de água até que o amargo atinja menos.  A vida com paisagens amplas é assim. 

Acaba que, num jardim bem colorido, duvido que você note a única rosa morta.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Vem cá, minha flor

Eu lembro que mesmo antes de sair eu já sabia que seria difícil voltar. No meio do friozinho na barriga daquele 2015 começando cheio de coisa nova, havia também aquele pensamento em stand by de como seria o retorno para um lugar que eu queria tanto deixar. O interessante é que, mesmo que a gente se convença de que sabe alguma coisa na vida, nenhuma teoria vencerá a força e o impacto da experiência. E está sendo difícil de uma maneira avassaladora. Dentre todas as vidas do Rio de Janeiro, a minha é, provavelmente, uma das melhores que se pode ter e, ainda assim, eu sou dor por dentro. A dor da saudade ainda fresca, a dor da falta de liberdade que a cidade impõe, a dor da desigualdade que existe nas ruas e a dor (talvez uma das piores) de quem não sabe o que quer dos próximos meses ou anos. Dor de não pertencimento também.
 
Entretanto, a mesma dor que machuca também nos dá um grande presente: o prazer de sentir o alívio.
 
Pois bem. Tristezas à parte, o carnaval é, provavelmente, o melhor momento pra retornar e encarar o Rio de novo. Falo por mim, que sempre fui fã dessa época e, novamente, resolvi ir pra rua ver a festa acontecer, mesmo que o ânimo não estivesse lá dos melhores. Houve esse dia, então, em que segui o bloco "Vem cá, minha flor", que eu não conhecia de outros carnavais. Cheguei lá e tinha música boa e gente feliz. Tinha música muito boa e gente muito feliz. Gente dançando como se ninguém tivesse vendo e gente enfeitada brilhando por aí.
 
Gostei. Até que fomos andando e a banda parou na área coberta do MAM. Aí não precisava mais ficar pertinho dos músicos porque o som ecoava por todo lado. O coro das pessoas cantando debaixo do teto fazia a música vibrar o peito e esquentar o coração de qualquer cidadão que estivesse ali naquela hora. Eu parei de pular pra olhar um pouquinho. Uma só voz de carnaval me invadia os ouvidos e, em volta de mim, não dava pra ver nada mais além de felicidade. Muita gente fechou os olhos e dava pra notar a música acariciando a alma de alguns. Todos os ruídos externos não existiam mais e, naquela hora, eu concluí que em um lugar onde se reúnem tantas pessoas felizes ao mesmo tempo, seja lá por que causa, não pode estar TUDO errado. Há alguma coisa de bom e bonito por aqui que a gente não pode deixar ir embora com a purpurina pelo ralo da pia.
 
O bloco seguiu e eu fui atrás. Ainda observando e tentando entender o que tinha acontecido ali. Pelas horas seguintes ficamos no sol. E, antes de ir embora, eu ainda apreciei a cena daquela galera cansada e suada tirando forças de algum canto (talvez da própria energia que emanava de lá mesmo) pra soprar o trombone, balançar o chocalho e bater no tambor.
 
Fui embora com um sorriso no rosto. O sorriso que não tinha quando cheguei lá e que alguém me emprestou e eu esqueci de devolver. Agora era meu. E deveria ser assim daqui pra frente.
 
Toda vez que as coisas não estiverem muito fáceis, vou retomar esse dia na memória. Fechar os olhos e saudar não o Rio, não o carnaval, a dança ou a música. Mas o que realmente aquilo ali representava, que não precisa de época, lugar nem instrumento pra acontecer: a felicidade.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Vai chegar

Sete dias sonolentos, quentes e preenchidos por muito rosto, beijo e abraço. Sete dias em que fui amada, acolhida, perguntada e informada sobre como andam as coisas aqui. Sete dias, também, em que a cabeça não para e deitar pra descansar o corpo está longe de significar também o descanso da mente.
Me disseram que lá eu não tinha "vida real". Mas o problema é que poucos sabem que a vida real pode ser assim prazerosa, boa, justa, limpa e excitante. Não é preciso estar sonhando para se ter uma experiência boa e eu te garanto que meus olhos estavam abertos e alertas do início ao fim. Nem o discurso do "dinheiro garantido todo mês" serve para deslegitimar o que eu sinto agora, pois pra quem se entregou a todas as experiências possíveis, a realidade acontecia todo dia lá. Eu escolhi não fugir dela (sim, podíamos escolher fugir e sonhar o tempo todo se quiséssemos).
Sinto falta das manhãs, pois aprendi a acordar cedo pelo simples fato de entender, pela primeira vez, que dormir demais é, de fato, perder parte das surpresas boas do dia. E, nessas manhãs, sinto falta da casa já acordada, do café que combinávamos, do violão que tantas vezes me avisava que era hora de começar o dia. Sinto saudade de pegar a bicicleta e ir pra faculdade. E, ao chegar lá, me faz falta ter aquele mundo de facilidades à minha volta. Deitar na grama no intervalo ou chegar de madrugada na biblioteca: eu podia usufruir do que eu quisesse. Sinto falta de considerar a universidade um lugar aprazível, e não um antro de problemas. Não contava as horas pra ir embora porque eu não tinha pressa de nada. Não tinha protesto marcado, nem nada que me trouxesse uma tensão diária extra. Sinto saudade da gentileza nas ruas, no trem, no bar, no ônibus. Obrigada, licença, desculpa e bom dia eram essenciais no vocabulário. Me faz falta também a paz ao se andar pelas ruas. Sinto falta da liberdade que eu tinha. Poder usar a roupa que eu quisesse e andar pra onde eu quisesse sem ter de lidar com olhares estranhos, comentários inapropriados ou qualquer tensão nos ombros.
Sinto falta das pessoas que fizeram o lugar ter mais vida. Que caminhavam comigo e seguravam a barra se algum dia eu tropeçasse sem querer. Sinto falta da praticidade pra encontrar alguém, pra resolver alguma coisa ou pra ir de um canto a outro em duas rodas.
Eu era a pessoa mais feliz que eu já conheci. E eu tinha o sorriso mais bonito que eu já vi. Eu fui também a mais livre e adorei conhecer o quão grande posso ser em tantas situações.
Em sete dias, eu não posso dizer que saí do melhor e vim pro pior lugar possível. Mas acho que, na verdade, eu mesma me tornei um lugar hostil, assim, num piscar de olhos. Sim, o nosso estar no mundo é influenciado pelo que está ao redor e, às vezes, a armadura quebra e deixa a sujeira de fora manchar um pouco o interior.
Mas eu não preciso me preocupar. Descobri, depois desse longo encontro comigo, que a nossa essência às vezes perde o voo e só chega depois. Eu lembro o quão atrasada ela estava quando eu cheguei por lá. Então, agora que eu vim de volta, por enquanto me sinto só um corpo sem nada preenchendo por dentro, pois as outras partes estão por vir. Eu não esqueci lá, pois só o mais estúpido ser humano deixaria isso pra trás. Eu sei que está vindo, mas a viagem é mais longa. Talvez demore semanas. Meses. Não sei.
E de novo, eu vou ser a pessoa mais feliz que eu conheço. Com o sorriso mais aberto. Livre também. E em paz. Vai chegar esse dia. Vai chegar. Vai chegar. Vai chegar.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Lado de lá

Tenho respirado fundo. Todo dia, quando chega a hora de ir embora, eu me levanto, pouso o copo na mesa e dou um abraço apertado em quem quer que seja o da vez. Abraço com ternura todo mundo a quem não posso mais dizer o rotineiro "see you". Olho nos olhos pra fotografar o rosto e, então, me sento de novo com os ombros tensos e um choro escondido dividindo a garganta com um gole de cerveja.
 
Tenho respirado fundo pra ver se junto com o ar vem um sopro de paz. Pra ver se a alma se acalma e se retenho em mim tudo o que eu puder sugar daqui. Tenho sentido os gostos de todas as comidas, provado todas as bebidas, abraçado cada um com um abraço prolongado e deixado a cidade atiçar meus sentidos. Acordo com o coração acelerado, mas faço o dia valer a pena e no final, mesmo que a dor volte, eu tenho sido forte. Desde o início, aprendi a caminhar com dor. Agora, no final, todo esse aprendizado já me deu calos o bastante pra todo dia arrumar uma razão pra ser feliz.
 
Aqui eu aprendi a contar o tempo em semanas e entendi o valor de cada um dos sete dias. "Um dia após o outro" - repito 20 vezes como criança se esforçando pra decorar a tabuada. É difícil, sabe? Mas não sou mais de me entregar assim fácil. Penso que vou ter que abandonar uma casa, mas logo ali do outro lado também tem coisas que eu deixei. Vou descansar o corpo e a mente e sei que vão cuidar de mim. Até que, sem notar, vou acordar e respirar o ar de lá. E alguma hora vai fluir e preencher a alma de novo. Devagarzinho vou respirando e sentindo novamente o ar de lá encher o peito. E os rostos, os cheiros e os gostos me botando cara a cara com a outra parte de mim. Me lembrando que a vida é mesmo feita de ciclos e me ensinando, novamente, que toda vez que um acaba, outro novo começa.
 
 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Cheiro da partida

A gente sabe que veio só de passagem mas quando olha pra trás vê que construiu uma vida inteira. Dá tempo de escolher uma comida preferida e de achar um lugar pra ser nosso esconderijo. Dá tempo de formar uma família e de firmar laços mais fortes do que a gente achou que fosse fazer nesse tempo. Dá tempo de arrumar problema e se sentir orgulhoso após resolver sozinho. Tempo o bastante pra viajar e, ao retornar, sentir a sensação de estar pisando em casa de novo. Dá tempo de mudar de casa, de aprender como gastar o dinheiro, de se perder e se achar de novo. Há tempo o bastante para se familiarizar com rostos, sons e cheiros. Som de pássaro, de trem e dos passos no piso de madeira da casa. Cheiro de café, da rua e do lar. E quando os cheiros se tornam comuns e familiares, você sabe que ganhou um novo lar. O cheiro da casa e da grama quando chove. O cheiro de algo queimando numa noite quente. Do churrasco num dia de sol. O cheiro do vento gelado nos longos dias de inverno. Da vela aromatizada que um dia você comprou pra mim e eu acendo todo início de noite. Dá pra sentir e reconhecer o cheiro dos temperos fortes que viraram rotina. Dá pra lembrar do cheiro do perfume de quem está sempre por perto.
 
Mas, de repente, veio um cheiro novo. É o cheiro da despedida. Você tenta camuflar, sobrepondo os outros cheiros que são bons e acolhedores, mas não funciona. Dia após dia o cheiro da despedida domina a sala e a cozinha. Entra no meu quarto e me dá dor de cabeça. Passo fins de semana fora e percebo que o cheiro da partida se dissipou num piscar de olhos por todos os lugares onde eu piso. Percorreu distâncias enormes e eu não consigo entender como a fonte é tão potente. É tão forte que arde e escorre umas lágrimas nos olhos, como o cheiro da cebola cortada contra o qual a gente tenta sempre lutar mas não funciona. O cheiro da despedida também invade os nossos encontros, mas eu tenho medo de perguntar se você também está sentindo.
 
Olho por todo lado e descubro que a fonte sou eu. Em meio ao perfume das flores da primavera, há sempre esse incômodo e eu não consigo mais fingir que não é real.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Mar de gente

Eu pensei que o meu primeiro texto na Austrália fosse ser sobre o lugar. Juro que me vi fazendo um diário de viagem e postando coisas do tipo "Semana 1: viagem pra tal lugar". Mas não. Em vez disso, resolvi escrever sobre as pessoas que, bem ou mal, também contribuem para a minha impressão daqui e que, por muitas vezes, me fizeram enxergar beleza onde não havia paisagem nenhuma.

Olho pros dias passados aqui e, quando revisito essas memórias gostosas e fresquinhas, percebo que grande parte delas são compostas por rostos. Um leque grande de pessoas que passaram pela vida que comecei aqui e talvez nem saibam que deixaram uma coisa qualquer comigo. Rostos que só vi uma vez e me renderam boas risadas e uma aula de cultura local. Gente que repetiu pacientemente 20 vezes as instruções no futebol, durante o breve período em que participei. Gente que eu não gostei de morar junto e, por isso, me ensinou a ter paciência. Gente que não se importou se eu era filha mesmo ou não, e me tratou como tal no dia em que mais me senti vulnerável na vida e em que a dor aguda se misturou com o medo de estar sozinha. Nesse dia, também ganhei irmãs-por-um-dia e, no meio das lágrimas, eu consegui sorrir por dentro. Foi então que, estranhamente, depois da semana mais difícil, limitada e conturbada, eu senti o claro contraste da perna fraca com o espírito forte como nunca. Também houve rostos brasileiros, que nunca me pareceram tão reconfortantes como aqui. Teve gente que fez surpresa no aniversário e me fez sentir o calor de família daqui de tão longe. Gente que me fez lembrar que amor não fala inglês nem português. Gente que em meio a cigarros e uma vida de excessos, parou um pouco pra me dar um carinho e atenção sem precedentes. Que não mediu esforços pra fazer eu me sentir a pessoa mais cuidada dessa vida. Gente lá do início que sempre brota pra saber as novidades. Gente que tá sempre keen for a coffee. Gente que é tão australiano que eu não entendo uma palavra do que diz. Gente que é tão south american que capta a mensagem antes de eu terminar a frase. Gente que me leva pra um bom filme. E gente que eu chego em casa, cansada de um dia incrível ou mesmo só um dia comum, e fico imensamente feliz de encontrar.

Esse mar de gente, no qual ainda mergulho, me faz acreditar que os presentes da Austrália possuem nome, sobrenome e carregam, muitos deles, um sorriso impossível de esquecer.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Cinema

Foi estranho porque todos os planos falharam ao mesmo tempo. Uma falta inusitada de interesse pela música boa da Lapa, junto com o medo enfeitado de um temporal que arrasaria a cidade, foram lentamente fazendo as horas passarem. Uma quinta-feira de Fevereiro, tão doída durante o dia pelas nossas conclusões em conversas intermináveis; pelas nossas mágoas e machucados expostos a arder; um dia tão carregado emocionalmente, merecia mais era um grande exagero pela noite, pensei. Mas não. Por algum motivo, hoje eu não queria barulho. Nem a poluição visual de um lugar lotado. Nem a cerveja gelada. Nem nada disso que procuramos quando queremos nos distrair. 

Na dúvida do temporal, saí e entrei na sala escura e gelada, praticamente vazia. No máximo, sairia com o mundo acabado lá fora e nem isso me importava mais. O negócio é que, ao sentar ali, aconchegar-me nas cadeiras que eu queria ter em casa e desligar o celular - uma quase extensão do meu corpo nos últimos dias-, eu dei de cara comigo mesma. Ali na frente não havia uma tela gigante exibindo os trailers antes de um bom filme, mas um grande e inibidor espelho e, por uns minutos, eu pude olhar pra cada traço e sarda do meu rosto cansado. Há quanto tempo eu não tinha um encontro desses? Quanto tempo fazia que eu não me via assim: sozinha mas não solitária. Na companhia de mim mesma, exausta de dias anteriores e, estranhamente, feliz.

Sim, eu estava aliviada por ter tido a coragem de mulher e a sinceridade de criança pra abrir meu coração e te explicar os pormenores. Talvez eu não tenha tido a calma de um monge, mas você me conhece e sabe que é mal dos ansiosos atropelar as palavras ao falar. Pois bem, cada minuto ali sentada me dava um aconchego e uma paz que fui gostando. Sentindo cada gota de catarse que o filme causa na gente (se deixarmos) e lembrando, fielmente, que os pequenos prazeres da vida nunca saíram correndo. Eu me doei tanto no último mês, mas tanto, que já não estava sabendo administrar minha preocupação com o caminhar das coisas. Queria controlar cada segundinho nosso e jurava que podia, também, acompanhar os seus passos, que nem aquela brincadeira que fazemos ao andar na rua quando crianças. Se um erra o ritmo da andada, é preciso começar tudo de novo.

É. Eu estava com saudade de mim. É normal sentir saudade de si mesmo? Estava com saudade de caminhar com as minhas pernas sem ter que suar pra seguir outros passos. Porque quando passa a ser suado, acho que precisamos descansar, não é?

Saí, então, e o mundo ainda estava lá. Tantas vezes que penso que ele vai acabar e hoje, mesmo com o terror conjunto da cidade, tudo ainda estava lá. Caminhei até o carro e, no caminho, a mpb me entendia. Eu ri sozinha, meio boba, como quem chega em casa depois de um primeiro encontro esperado. Era a saudade disso. De olhar um pouquinho pra dentro e ver que tudo ainda está lá. 
De lembrar novamente que os vazios, muitas vezes, são preenchidos com uma coisa muito nossa que deixamos de lado em várias de nossas doações. 

Acho que é essência o nome.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Prometo

Caí no grave erro de basear meus dias em nós. Ando olhando pros lados pra ver se vejo em algum rosto bonito uma coisa qualquer que me lembre o seu. Logo eu, que sempre gostei de falar sobre felicidade, esqueci que ela mora em mim e que não é preciso buscar longe. Prometi, então, voltar a me enxergar direito. Sacudir a poeira daqui de dentro e viver as 24 horas de cada dia do jeitinho que Deus fez mesmo: sem dar dicas sobre o amanhã. Aqui está, então, a minha primeira (e tardia) promessa para 2015: jamais me abandonar de novo. 
Sei onde te encontrar e sei, também, que você gosta de me ver sorrindo. Há quase um mês eu troquei o sorriso por um semblante preocupado e ansioso, que intriga quem me vê e gera dúvidas sobre o que de fato aconteceu. Pois aí está a resposta: esqueci, por descuido mesmo, dos outros mil motivos que tenho pra ser feliz. Deixei de lado dias inteiros pra me concentrar numa tal distância que não posso vencer. E numa saudade que, por mais que aperte o peito e dê nó na garganta, nunca virou uma perda. É hora de se acalmar. Hora de olhar pra dentro e checar novamente a grandeza que existe aqui. De tirar o peso que eu mesma coloquei nas costas e escolher a leveza no lugar. Sim, pois posso escolher. Posso fazer muito mais do que estou fazendo agora. A gente prometeu se esforçar né? Então será isso. 
Vou ser mais leve. Mais solta. Mais eu. E, quando for a hora, te espero aqui com o coração aberto, pra vivermos os dias que, em vez de chamar precoce e incansavelmente de últimos, passarei a chamar de únicos. Bem melhor assim.

domingo, 30 de novembro de 2014

Além do tempo

Confesso a você que o medo me domina. Eu acordo pensando nisso, eu tomo café pensando nisso e, quando finalmente o dia me distrai desse pensamento, ele volta a me invadir no escurecer de um dia quente. A inquetude toma conta de mim e eu preciso me mexer pra que o corpo se esqueça de chorar. Se paro, sinto um riozinho invadir os olhos e, não tem jeito, a cabeça me castiga novamente e me fornece avisos luminosos de que sim, você vai embora pra muito, mas muito mais longe do que sou capaz de seguir agora. Tento com todas as forças pensar que vou atrás de você um dia. Que nossa história tirará férias, mas que depois precisa voltar a trabalhar e gerar frutos. Tento por tudo imaginar a nossa vida de novo como está agora, só que dessa vez sem ninguém pra impedir. E consigo (juro) sorrir brevemente com esse cenário acalentador. No entanto, o agora é rasgante. Cenas felizes convivem com a dor excruciante de uma despedida que ainda não aconteceu. Eu olho pra você e, junto do seu sorriso sempre admirável e dos olhinhos claros sempre vivos, vem uma efemeridade que toma corpo e paira no ar que dividimos. Ela vem me lembrar que a coisa mais tenra e feliz que Deus me deu no momento está pertinho de partir. Tenho medo da dor, tenho saudades antecipadas e tenho um sentimento de gratidão secretinho aqui dentro. Você me ensinou a crescer em pensamento e também mostrou que a vida pode ser extremamente mais leve se assim fizermos dela.

Peço, então, que lembre de mim. Lembre do filme que fizemos sem câmera e do livro que escrevemos sem tinta. Lembre com carinho da nossa coragem em viver tudo e da nossa felicidade compartilhada que supera qualquer outra felicidade que eu já tive a oportunidade de sentir sozinha.
Ao largar as malas no seu quarto, afrouxar os nós dos sapatos e abraçar na sala o primeiro ente querido morto de saudade do teu abraço, lembre que você mudou alguém pra melhor. 
A partir daí, lembre disso todos os dias de manhã. Que eu estarei fazendo o mesmo daqui e, assim, a nossa sintonia em pensamento, sempre presente, vai ganhar vida pra muito além do tempo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pro que der e vier

Eu preferia ficar sem lente a ver seus olhos arregalados fuzilando o ambiente. Pra não ver o seu semblante desesperado, nem o coração saindo pela boca, eu gostaria de ter ficado cega mais um bocado e, assim, guardar na memória a cena de ternura de minutos atrás. Do beijo acalentado e do abraço fervoroso (prestes a termos nossa mais tenra despedida, como sempre), você passou a um poço de tensão e ansiedade, contrastando com nossos momentos alegres de outrora.

Quis gritar. Quis pegar o "muito gosto" abusado e dizer que aqui no Brasil nós dizemos "muito prazer". Pois aqui é minha casa. Meu lugar e minha morada. E que Copacabana já me era de intimidade. Que daqui não me expulsam jamais. Mas eu, já acostumada a pensar antes em você, preferi sair com o gosto de injustiça na boca em vez de ver você se mordendo por dentro. Pedi que me acompanhasse até o trem, pra me despedir como fazíamos em todos os dias da nossa felicidade compartilhada.
Mas não adiantava mais. Eu sentia a sua frieza e sua mudança da água pro vinho. Sentia queimar em você o constrangimento que se instalou num simples abrir de porta no hall do elevador. Eu não te teria mais essa noite e, assim, não restava alternativa a não ser ir embora, mesmo querendo ficar. Descontei o desgosto num transeunte engraçadinho qualquer e me pus a descer as escadas com vontade de sair correndo.


Afinal eu já ia. Mas você quis que ficasse.
Aliás eu nem queria a saideira da cerveja. Mas você quis mais papo. E eu, feliz que sou do teu lado, me pus a papear sobre mais segredos da minha vida pacata.


Eu não sei se caímos de cabeça ao mesmo tempo nessa coisa nossa. Como uma dupla de salto, a sincronia perfeita é o objetivo e a mínima diferença, às vezes, põe o resto todo em xeque.

Mas eu prefiro acreditar que sim. Que estamos caminhando a passos largos e juntos. Que buscamos a mesma felicidade. E que olhamos pro nosso triste prazo de validade com os olhos de esperança em fazer de poucos meses, os melhores do mundo.

Por isso, estou aqui. E faço mais uma vez o meu convite apaixonado pra você vir. 
Pro que der e vier comigo.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O que aprendi

Com você, eu vinha aprendendo a forma mais pura e simples de felicidade que já tive a oportunidade de conhecer na vida. É que a minha felicidade, vou te contar, existe sempre lapidada e moldada segundo moldes-não-meus. Começa assim: como uma criança que acaba de nascer, a minha felicidade surge pura e ingênua bem no cerne da alma; espontânea, como tem de ser. Mas, quando começa a dar os primeiros passos mundo afora, ela (a felicidade) aprende a dançar conforme a música que toca no mundo, a agir conforme o costume que prezam no mundo e a sorrir conforme o sorriso aceito no mundo. Como se o neonato de outrora estivesse crescendo e, contaminado pelo entorno, fosse desistindo de sorrir com a mesma força de antes e fosse abrindo mão da pureza um dia tão forte.

Pois bem, você não tem medo de ser feliz. Sem esforço aparente, você caminha com a janela da alma aberta, para que possamos ver, lá dentro, o filme de genuíno enredo que te habita todos os dias e que mostra, a quem interessar possa, o que realmente faz você feliz.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Curto

A regra era clara: onde houvesse leveza, eu estaria também. 
No jogo de futebol, no fim de tarde na praia da Urca, no filme com cobertor e num papo casual com alguém desprovido do peso da minha rotina. Eu queria voltar a sorrir como antes e voltar a valorizar as pequenas felicidades da vida. Não mais sentir medo de conversar, mas sim buscar por isso. Usufruir de cada coisa que não viesse acompanhada de compromisso e me trouxesse paz de espírito a cada dia mais.
Nada pesaria. Nem os dedos que escrevem, nem a vista que lê, nem a boca que fala. E que agora só quer rir sem ter hora pra acabar. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Apesar de tudo


Todas as vezes em que discutíamos, em que passávamos pelo sufoco de colocar os problemas em ordem; todas as vezes em que o coração acelerava de medo e não de amor, eu tinha em mim uma cena, a qual nunca vivi, mas que me ajudava a concluir o que era você pra mim:

eu me via escalando um morro um tanto árido, num sol quente e as coisas pareciam não estar indo como previsto. Um corte no braço feito pelo espinho de uma planta, um joelho ralado por uma quase queda, o rosto queimado pelo sol e a boca seca desesperada por água. No meio do caminho, um terror se instalava: eu esquecia o porquê daquilo tudo. Por que, afinal, eu estava tentando superar a dor? O esforço parecia não ter mais propósito e, estando sozinha, não havia ninguém pra me lembrar. No entanto, ao continuar vivendo o drama, movida por alguma coisa que eu não sabia o nome, eu chegava no topo. E lá, no destino final, a razão daquilo tudo voltava a inundar a mente. A sede, o corte, o machucado e toda a dor estavam a povoar o corpo, mas a alma, agora, era acariciada pela vista mais bonita que meus olhos já tocaram. Então, tudo o que me doía e me afligia, ainda que não pudesse deixar de existir, diminuía de tamanho porque a recompensa era imensamente maior.



Então, eu voltava à realidade e me deparava com você. Eu tinha corte no braço, joelho ralado e umas marcas aparentes. Mas, apesar de tudo, você continha um quê de paz. Oferecia algo que, por ser tão bom, não podia ser mesmo fácil. E eu terminava suspirando a conclusão: 

"Apesar de tudo, estamos aqui."

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Quinta

Não sei bem o que se deve esperar de uma quinta-feira à noite, de bobeira, com cervejas. Não sei se música. Se barulho. Se qualquer coisa dessas que a noite convida a fazer. O que sei é que eu estava bem ali. Não havia barulho nem filme nem muvuca nem rock ou mpb. Havia você e eu rindo de qualquer bobagem que saía de nossas bocas. De vez em quando um beijo demorado instalava o silêncio que falava por nós. Tínhamos certeza de que amanhã seria sábado e nada importava mais do que ocuparmos quase o mesmo lugar no sofá. Algumas vezes eu não prestava muita atenção no que você dizia porque seu sorriso tomava todo o meu foco, que nem aquelas cenas de filme, tão lindas e imperdíveis, nas quais optamos por deixar a legenda pra lá um pouquinho e viajar nos detalhes da imagem. Cada vez menos, na verdade, precisávamos das legendas, um dia tão necessárias. Estava mais fácil entender você ao te observar, como se, finalmente, houvéssemos achado nosso dialeto em comum e - pasmem- dava pra falar em silêncio com ele.

Eu percebia que a leveza, cujo sumiço eu tanto lamentava, estava bem ali na minha frente. Só precisava de você, um sofá e um bom papo de quinta-feira à noite pra eu lembrar, sem mistério, o que é ser feliz plenamente.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Energia

Eu costumo pensar que temos um quantitativo de energia para cada dia de nossa rotina. É como se Deus, ao acordarmos, nos desse um saquinho de energia para o dia (física, mental e emocional) e dissesse, no meio do nosso banho ou da xícara de café, o conselho mais importante que existe: "utilize-a bem". Ganhamos saquinhos mais robustos nas sextas-feiras, enquanto que, nas segundas, temos que saber lidar com a escassez. Às vezes, quando estamos craques na utilização da energia com sabedoria, adquirimos o incrível poder de doar um pouquinho a quem, por algum motivo, está se sentindo prejudicado na distribuição. Injetamos as ampolas de ânimo e coragem que nos sobram quando queremos resgatar alguém de uma fase cinza e chuvosa. Fazemos isso com palavras, com abraços, com carinhos, com surpresas, com um beijo ou com qualquer outro artifício do qual estamos magicamente munidos em alguns momentos da vida.

Pois bem, mesmo sabendo da minha lógica dos saquinhos e mesmo ouvindo o conselho de Deus, eu estou acabada.
"Acordo" e repito um segredo economizador de energia pro resto do dia: "selecione suas lutas! Às vezes, vale mais a pena estar calado do que estar certo". Mas teimo em transgredir o que eu mesma me disciplinei a fazer. E lanço jatos de energia em discussões infindáveis e procrastinações do estudo.
Saio procurando acertar e canalizar a energia da melhor maneira. Mas erro com quem me faz bem, erro os prazos a cumprir e erro a dose do cochilo.
Precisa haver uma pausa, um congelamento na cena ou um intervalo urgente. Porque, por agora, eu me canso e esgoto o meu saquinho de energia num piscar de olhos, de modo que, quando chega o meio do dia, já estou aceitando doações.

sábado, 19 de abril de 2014

Mar

Dentro d'água, no fim de tarde dessa sexta-feira azul, parecíamos crianças quando soltas em um parque. Enquanto você mantinha a atenção nas ondas brutas e os pés firmes no chão, eu já havia me desprendido dali e a cabeça voava longe, como era de praxe acontecer, deixando sempre um sorriso bobo no rosto pra servir de interface com o mundo que acontecia sem se dar conta da minha pausa.
Eu pensava, naquele momento, como o mar agitado que aproveitávamos diferia das águas calmas que eu levava na alma. Dentro de mim, eu carregava um mar sereno e tranquilo, enquanto o corpo sacolejava na espuma salgada e gélida. Fosse uns dias atrás, a bagunça daquele mar traduziria nada menos que o meu interior sem rumo algum. Mas agora não. A tempestade recente começava a dar lugar ao sol e a algum cenário que acaricia a vista de tão bonito que é. 

Paz nas águas. Era assim que eu me sentia. Um mar calmo era o que eu aproveitava com você agora. Paz sem tédio, sabe? Sem querer sair do barco e sem aguardar ansiosamente um grande evento inesperado. Paz sem tédio...nem lembrava mais como podia ser possível.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Sem óculos


Sentada à mesa, de costas pra vista bonita do Rio, eu falava pelas tabelas enquanto matava a fome, já dolorosa, dessa tarde-surpresa de segunda. Punha os óculos de lado, como sempre fazia durante as refeições e, uma vez retirados, todo o entorno se fazia embaçado: 

"Só vejo você, não vejo mais ninguém!" - eu dizia. E ríamos do duplo sentido que essa fala já adquiria, sem querer. 

Quando você se encostava na cadeira, ouvindo meu papo não muito agradável, eu dizia não te enxergar mais, dado a distância agora aumentada. Então você ria -como costuma fazer sem esforço- e vinha pra perto novamente, brincando de ir e voltar como criança, que acha nas coisas da rotina um motivo pra ser feliz.

Depois, andávamos alegres, sem muito compromisso assim de imediato. Na minha cabeça, eu desejava, pros dias que se seguissem, poder andar sem óculos por aí, pra que todo o entorno parasse de existir quando eu bem quisesse. Cega pros olhos do mundo, pros rostos do mundo e pras coisas do mundo, eu desejava, por alguns momentos dos meus próximos dias, esquecer os óculos e só conseguir ver aquilo que, de tão pertinho e tão nítido, eu possa abraçar e chamar de meu.


sábado, 22 de março de 2014

Pausa

Às vezes, a cabeça precisa de uma pausa. Mas pausa m e s m o. Que honre o nome de ser pausa e não corra perigo de ser confundida com "tempinho" e derivados. A cabeça, em dias assim aleatórios, precisa esquecer de si e dar a outrem aquele peso que carrega todo dia. E, assim, leve como pluma, ela (a cabeça) pode se encher, por um dia que seja, das coisas mais tenras que a vida oferece e que a gente deixa passar como se pudesse resgatar pra viver depois. Como se o dia de sol, a cama macia, a companhia nova ou a reunião de família não tivessem a mais idônea cara de oportunidade-de-ser-feliz. 

Pois bem. Prezo pelas pausas. Prezo pela companhia de quem vem pausar comigo. Gosto de agarrar com unhas e dentes o que me traz sorriso na cara e cair de cabeça logo, não pela pouca idade (que nos traz a sensação de urgência da vida), mas pra dialogar com a felicidade, sempre, na mais perfeita sintonia. Não à distância. Não pelo telefone, por carta, por sms. Mas abraçada e embalada num descanso gostoso que só as pausas da mente oferecem pra gente.