Faz um tempo que escrevo uma palavra, e apago. Escrevo uma ideia, e apago. Uma letra, e apago. Exatamente como você me deixou desde quando nos conhecemos. Sem palavras. Não sou de falar muito quando estou com você. Mas sou de rir bastante, e de aproveitar o teu sorriso até o último minuto. Mexer no teu cabelo até a última ponta. Curtir o teu abraço até o último aperto. E hoje eu curti o teu rosto até a última foto que meus olhos puderam tirar. Essas coisas, minha amiga, não chamamos de despedida. Eu chamo de um até logo. Até breve. Volte sempre. A gente se vê. E por aí vai. "Obrigada", você disse. Enquanto eu, internamente, agradecia eufórica simplesmente pela sua presença no meu abraço. "Os meus olhos só ficam vermelhos quando todo mundo sai da frente". Eu e minha mania de adiar essa singela manifestação de agonia do corpo, sempre. Como se isso me fizesse mais forte. Pois te digo que foi só fechar a porta para aqueles riozinhos vermelhos dos olhos transbordarem rosto abaixo. E dentro de mim, você já havia deixado marca. E começo a suspeitar que desde que nos conhecemos, você não parou de marcar minha vida com as surpresas que trouxe pra mim.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Gelo
Tudo bem, nada de pânico. Chegou o dia de você ir embora. E em breve estarei chegando aí. Coisa pouca, logo passa. O problema é que tenho sempre esses momentos de ficar me achando estranha, sendo a maioria deles quando você se afasta. E quando cavo aqui dentro pra saber o que diabos me ocorre, sempre acho a mesma resposta boba que qualquer um consideraria uma grande besteira: penso ter uma peça fora do lugar simplesmente pelo fato de estar sentindo qualquer coisa que seja com uma intensidade que não esperava. Tem gente que chama essas coisas pelo bom e velho nome de 'amor'. O rei das generalizações do mundo moderno. Outros amenizam pra 'carinho'. Eu restrinjo o foco pra 'saudade'. E assim vou procurando saber o nome dessas coisas que invadem o portão de mim, que tranquei a sete chaves. Tem senha de 4 dígitos e reconhecimento da digital. O problema foi não prever que você poderia achar um outro caminho sequer por aqui. Algum lugarzinho vulnerável e desprotegido, ainda não calejado pelos truques dessa vida. Não que a experiência seja grande nesses meus áureos e abençoadíssimos 18 anos, mas deixem-me falar até onde o tempo me permitiu alcançar então.
Agora o cadeado já está quebrado, a senha decifrada com sucesso e você ainda brincou deixando tua digital marcada aqui na pele. Burlou o sistema, as regras de mim, quebrou os padrões e sorriu pra que eu amolecesse de vez. E no início eu me preocupei. Me preocupei com o espaço que estava sendo tomado tão rápido. Um intruso completo. E me permita dizer que, agora, a preocupação foi pro final da fila das sensações que você vem provocando. Sabe-se lá porque ela está sempre me acompanhando. Não leve a mal. É que eu sempre tive um gelo que faz parte de mim. Gelo dentro, assim. Entende? Uma camada sólida. Gelada. Gelada. Gelada.
E, sinceramente, desde o dia em que você apareceu, não consigo imaginar para que ela me serve.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Por outro ângulo
E ela estava amando essa história de o verão ser mais intenso esse ano. Ter mais sol. Mais sorriso. Risada de doer a barriga. Ter pôr-do-sol mais bonito. Vento mais gostoso. Bronzeado mais fácil. Cerveja mais gelada. E principalmente, pensava ela, gente mais interessante. Não era lá muito sociável, muito comunicativa, extrovertida e essas coisas. Mas esse ano, era ela quem buscava conhecer. Conhecer gente e, acima de tudo, conhecer a menina que havia dentro dela. E que há muito não dava o ar da graça por ali.
Nessas horas, em que tudo parecia mais, mais e mais, a consciência logo tratava de explicar.
"O sol não ficou mais forte. Nem o vento mais gostoso. Nem o verão é mais verão. O que existe, na verdade, meu bem, é você abrindo os olhos de um jeito diferente. Quando a gente muda, o mundo muda com a gente. E aí está você. Com o mesmo vento. Com o mesmo sol. Só que mais livre. Mais leve. Mais feliz".
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Boas vindas
Sim, eu sei que a saudade aperta quando a gente tá longe. Eu conheço a saudade. Nós já conversamos...já até perguntei a ela se não podia aliviar a barra às vezes. Mas ela, esperta como sempre foi, se disse essencial, e falou ainda que apesar de devastadora, é ela que mantém de pé esses amores que de vez em quando tropeçam por aí. Mas você, meu bem, não tem me deixado muito ser amiga da saudade de uns tempos pra cá. Você fez ela crescer tanto que me deixou pequenininha com minha máscara de resistente-e-imune-a-essas-sensibilidades-e-frescuras e me fez sentir sua falta como uma criança sente falta dos pais quando viajam, do cobertor especial, da bagunça na cama dos pais e dessas coisas mil que constroem nossa vida. Mas, não somos crianças, meu amor. Sei que logo você chega. E quando eu te encontrar, a saudade trata de te explicar também que diabos ela estava tramando esse tempo todo. Afinal, dois ímãs deixam de se atrair quando se aproximam depois que um longo afastamento? Que nada.
A Paraíba tem amanhecido com cada sol, que você não imagina.
Mas perde pro verão no meu sorriso. Só esperando você chegar aqui.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Boa viagem
Esse ano ela havia prometido que acertaria na mala. Tudo bem, ela não era boba. Sabia que o excesso de roupas sempre existiria. Sabia que voltar para casa com blusas intactas era um fato que se repetia a cada ano. E sabia que não era hoje que entraria no mundo das estranhas criaturas compactas e econômicas em suas bagagens. Não era aos panos que se referia. O que havia sabiamente prometido era que deixaria em casa a sacola dos problemas. Todos os anos, essa inconveniente bagagem de mão acompanhava a sua viagem pro paraíso, não cabia no compartimento da aeronave (o que causava um desconforto nas pernas durante todo o vôo) e, estranhamente, rasgava uma das alças durante o desembarque. Era assim, e não se sabia explicar o motivo. Talvez o próprio conteúdo da sacola já falasse por si só. Esse ano, então, seria diferente. Não foi um decreto. Não foi um esforço. Foi a pura e espontânea felicidade que havia tratado de aposentar os problemas. Esse ano era dela. Essa criatura (sim, a felicidade) não anda por aí em qualquer esquina, mas, quando resolveu dar o ar da graça, chegou em onda. Com uma força e elegância inimagináveis. Tomou as rédeas da vida da menina cansada e séria e dominou, num piscar de olhos, o mais incrível turbilhão de boas energias, boas sensações e bons momentos que agora caíam do céu como chuva forte e refrescante. Ela tinha esse poder, a felicidade. O sorriso da menina de olhos castanhos passou a não mais caber no rosto, e então ela agora distribuía por aí. " É verão" , dizia ela. " É verão no Rio de Janeiro. Mas é verão em mim também". E em alguns momentos, quando chegava na paz de sua casa, ela largava a bolsa no quarto, olhava para a felicidade em pé, ali na sua frente, e logo dava um abraço, sem saber como poderia demonstrar estar tão grata. E brindavam juntas, com cerveja bem gelada, essa coisa intangível e imprevisível que carinhosamente chamavam de vida.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Pra não doer demais
Existem pessoas que simplesmente estão de passagem. Você pode sentir saudade. Querer que volte. Que o filme se repita. Mas não sabe que elas entraram na sua vida para realizarem a dolorosa função de saírem dela um dia. Aqui no meu desabafo ninguém morreu não. Ninguém desapareceu, nem deixou de existir. É gente que continua existindo depois sair pela porta dos fundos. Mas algum dia, não se sabe por que nem muito bem a partir de quando, a pessoa foi a peça perfeita no quebra-cabeça da sua vida. Mas, sendo a vida um processo, uma coisa fluida, mutável, inconstante e absolutamente imprevisível, deixe-me revelar a você que todas as peças mudam de forma nesse jogo. E simplesmente um dia você acorda sem encontrar o encaixe perfeito que existia anteriormente. E aí parece que fica um buraco. Parece que a coisa desanda. Mas é só a vida te cobrando um tempo pra que tudo se ajeite novamente. Então outra peça toma o lugar da antiga. Trazendo a harmonia que você tanto se esforça pra ter consigo, sempre. Mas que graça haveria se todos os encaixes de gente na tua vida fossem perfeitos? Graça nenhuma, eu te digo. A dor da despedida não é pior que a dor silenciosa da rotina. É melhor tirar o curativo de uma vez só, do que puxá-lo lentamente, ponta por ponta, e você já está cansado de saber. Toda pessoa incrível que sai de nossas vidas do dia pra noite, toda peça que muda de forma pra você é um curativo puxado em 1 segundo. Quando você tenta remoer o ocorrido, tenta voltar, se martiriza forçando um contato que já não existe mais, que já não faz mais sentido a não ser na ilusão que você mesmo constrói por medo de enfrentar a coisa de cara, quando age desse jeito, está puxando o curativo da forma mais lenta que pode. Mais dolorosa. E sem assoprar.
domingo, 2 de janeiro de 2011
Aos editores
Imagino como deve ser a vida desses cronistas de jornais e revistas de renome. O prazer de escrever; de correr com a ponta do lápis linha por linha em um papel de rascunho qualquer; de apressar o passo atrás das letras quando elas começam a caminhar com pernas próprias, termina industrializado. O texto tem que sair. O prazo tem que ser cumprido. Os leitores estão esperando, e tempo, desde que você nasceu, é dinheiro!Não...palavras são dinheiro. Mas então, eu acredito que esses escritores devam ter um momento a sós com seus rascunhos. Porque não há coração que segure tanta artificialidade quando o que mais se precisa é de um bom e espontâneo desabafo em rabiscos. Palavras tão gritantes que parecem caladinhas quando deitam no papel. E a tua dor? Logo se cala também. Ainda que provisoriamente. Sim, eles têm desses momentos. Se trancam no banheiro e em vez de pegarem a gilete para maltratar os pulsos, em vez de colocarem a escova de dentes na garganta- como uma adolescente de corpo perfeito- ou em vez de jogarem água gelada na nuca pra passar a ressaca, eles param. Sentam. Pegam dramaticamente um pedaço de lápis ou qualquer coisa que escreva. Um papel amassado do bolso. E se deleitam com os riscos. E o prazer não se descreve nessa hora. É a dose de palavras que pediram o dia todo. Como a dose de uísque que pede o alcóolatra em crise. É a dose de expressão que aquela dorzinha aguda lá do fundo pedia para ter. Discreta, mas torturante. E, acima de tudo, humilde. Porque não queria mil olhos lendo a sua versão escrita. Não queria os holofotes que recebia do segundo caderno do jornal. Da sessão especial da revista. Só queria estar ali, com seu fiel dono em desespero. Pura, simples, escrita, sincera, rápida e espontânea. Ufa. Desculpe. Achei que devesse saber disso.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
O que há de bom na inveja.
Você já devia saber que sempre haverá esses maus elementos. Sempre que a tua felicidade chega ao pico, é preciso lembrar que a raiva de alguns também aumenta. Quanto mais alta for a escada, mais baixo será o que ficar parado no chão. Então, sempre que o teu bem-estar atingir níveis extremos, a inveja lá embaixo também atingirá. Então não se preocupe. Eu já disse e repito pra que você esqueça esse rastro negro que temem em colocar nos sorrisos mais felizes, e viva o que quiser viver. Pense pelo lado bom. Não é mais gratificante atingir algo quando se nada contra a correnteza? Quando há obstáculos no caminho? Assim são os invejosos. Fazem de tudo pra frear o teu êxito. Mas acabam tornando a linha de chegada um mar de rosas ainda maior. Afinal, não existe doce sem o amargo. Não há felicidade sem a lágrima. E não há prazer nesse mundo que se sustente sem a dor.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Sobre felicidade.
Felicidade, pensava ela, era gostosa assim porque era uma das coisas mais intangíveis que existiam nessa vida. E só vinha em ondas. Assim, de repente. Sensação de anestesia. Coisa invadindo mesmo. Chutando a porta de você e entrando como rainha, já conhecedora da casa que havia deixado por uns tempos. Talvez estivesse de férias...mas nao importava. Dessa vez chegara forte. Ou talvez fosse ela que estivesse fraca? Também não importava. O que realmente devia ser levado em conta é que a felicidade havia chegado. Era meio rosa. Amarela. Laranja. Quase um sol se pondo. Não! Nascendo. Sim, porque agora as coisas nasciam na vida dela. Fazia questão de aniquilar as velhas. Pois não eram lembranças. Eram lixo. Lixo podre. E no lixo havia dias, momentos, acontecimentos pontuais e, principalmente, pessoas.
Já havia feito a cova do ano de 2010. Orgulhosa estava só do finalzinho dele. Mas o final era tão disfarçado de 2011 que podia vir pra ala das coisas novas. E realmente importantes. E que todo o resto se apagasse. Era assim que pensava. Era assim que se sentia. E tinha todo, mas todo o direito.
Felicidade...repetia ela. Respirando um ar novo.
Felicidade. Parecia um fantasminha. Ela não via. Mas sentia a felicidade brincar com sua boca, colocando sorriso bobo e fácil. Ouvia a risada de dentro dela mesma. E sentia as cócegas que a vida agora lhe fazia.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Tempo rei
Ah, ela tinha saudade sim.
Dessas coisas que produzem sorrisos de graça. Tinha saudade de dormir até tarde. De sair pro sol e só voltar pra casa quando ele voltasse também. E, ainda por cima, tendo o prazer de degustar aquela longa despedida de todos os fins de tarde, para a qual a sua cidade sabia ser o melhor palco do mundo. Tinha saudade dos 18 anos que sentia não ter completado. Saudade da bicicleta na orla, com vento. E sem relógio. Saudade da cerveja com mesa na rua. Do futebol. Sentia falta de sair e voltar com a manhã lhe pedindo pra ir pra casa. Fazia falta também o cinema, não perder um filme sequer. Sentia saudade do namorado, pra quem nunca havia tido muito tempo. Até os dias de chuvas torrenciais faziam falta. Porque esses dias, ao contrário do que pensam, não são de tristeza ou tédio. São dias de lugar aconchegante, livro bom, todo mundo na mesma casa, baralho na mesa, conversa sem pé nem cabeça e a simples e prazerosa sensação de não fazer absolutamente nada.
Sim, alguns diziam que ela estudava demais. Que se preocupava demais. Que era irritada demais.
Mas ela sabia o que estava fazendo. E se tinha algo de que ela não abria mão, era de um objetivo traçado. Entrou na cabeça, pronto. Só sossega quando puder aplaudir toda a sua dedicação. Que leve meses, 1 ano, 2 anos, 3 anos. Isso não importava. O que queria era a conquista que havia saído pra caçar.
Mas isso era caro. E ela, assim como todos, não tinha energias infinitas. Torcia pelo fim disso. Há tempos que não se reconhecia mais. Pela cor pálida que já a incomodava. Pelo sono acumulado. Pela grosseria que às vezes saía de sua boca pra quem não merecia pagar por isso. Ela não era assim.
Era mais livre que isso.
Talvez fosse drama, pensava. Mas logo sentia que não. Estava no seu completo direito de pedir arrego. De implorar pela passagem rápida dos dias e dessa rotina já forçada, automática, desgastante e difícil. Sim, difícil. E não ouse dizer a ela que ela ainda não conhece as verdadeiras dificuldades da vida. Cada um atravessa os obstáculos de acordo com sua experiência de vida e/ou condição não escolhida. E enquanto fosse aquela menininha em crise, estaria exausta e não a enxergaria em seus próprios olhos castanhos, toda manhã quando se encarava no espelho. Até a imagem a incomodava. Porque dentro do corpo cansado, mas resistente, havia uma alma já em pedaços, gritando com todas as forças pela fuga.
Achavam que tudo isso era pela fase decisiva que atravessava nos estudos.
Mal sabiam eles...que, além da cabeça derrotada, da perda excessiva de peso que não havia procurado e dos olhinhos querendo dormir, o coração tinha dado trabalho esse ano. E pedia, com toda razão, por momentos de renovação, de ânimo e de vida.
"Já vai passar" , repetia baixinho, todas as noites, antes de dormir.
"Já está passando", respondia outra voz, alguém que ela não sabia dizer quem. Mas que a confortava toda vez que fechava os olhos.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Fim dos moldes
É um apelo. A única coisa que peço. É que este mundo aceite mudanças. Que não haja repressão quanto à personalidade. Que não haja depressão eterna e dramática pelo fim de um grande amor. Eu peço que aceitem, todos os dias, a mutabilidade da vida. Vocês sabem (eu sei que sabem), que a vida é um processo. E como tal, não permite estagnação. Definir-se É estagnação. Tem dias que você acorda com aquela espinha no rosto. Outros dias, parece que cresceu mais cabelo. Ou então, acordou mais magro. Às vezes acorda com uma vontade louca de comer doce. Outras vezes, acorda sem vontade de acordar. E quando o dia realmente começa, tem tanta gente nova que aparece. Mas o que eu quero destacar é aquilo que você teima em negar. Tenho certeza de que, a cada dia, suas vontades mudam também. Às vezes dá vontade de inovar. E você se prende. Porque toda uma platéia está a te vigiar. Por favor, esqueça. Por favor, eu peço que valorize a vontade de ser outro. Se isso não for prejudicar ninguém, faça. Reprimir desejos é a pior tortura que alguém pode fazer a si mesmo.
Valorize a mudança, meu amigo.
Porque já disse a Biologia.
Só evolui a espécie que muda.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Despedida
Meu bem,
Se há algo que perdemos nessa vida, não é a companhia dele, as fotografias dela ou a confiança dos outros.
São canetas Bic, elásticos de cabelo, um só brinco do par e a paciência para o amor.
Mas, nada de pânico.
Essa última é que nem criança no shopping. Logo, logo alguém anuncia pra você ir lá buscar no setor infantil do piso 2.
A paciência é algo assim. De repente alguém vem e te anuncia que encontraram a danada lá em outro coração.
sábado, 27 de novembro de 2010
Tesoura da sua vida
Estava eu, ontem, naqueles dias vestibuláveis que já conto as horas para que terminem. Com a paciência que finjo ter no presente momento da minha vida, eu estava escrevendo um texto, desejando que a UERJ explodisse. Era sobre proibições na vida do homem. Enfim, só sei que no meio daquele super passatempo sacrificante pra uma noite de sexta, começam a gritar as crianças da casa do lado. Tem tipo um pátio/garagem ao ar livre que, todos os dias, vira um parque de diversões. Elas gritavam. E a redação travou. Elas gritavam e eu acompanhava com o ouvido a brincadeira. A irritação subiu à garganta e, como uma boa e cansada vestibulanda, quem gritou fui eu aqui em casa:
- Mãe, ATÉ QUE HORAS A LEI DO SILÊNCIO PERMITE FAZER BARULHO NA RUA?
(Sim, eu estava incluindo a brincadeira das crianças como um tópico da Lei do Silêncio. Isso se chama estresse).
- Até 22h, filha, por quê?
- Porque essas crianças só conseguem brincar se tiverem um ataque de histeria. São 21:30, se não pararem até 22h eu vou lá. Você não acha isso um absurdo?
Ela riu. O que aumenta ainda mais a irritação numa hora dessas.
-Luiza, elas estão brincando. Você também gritava quando descia pra brincar.
- Não, não. Eu brincava normalmente, sem ignorar que vizinhos existiam, independente do meu mundo mágico da infância.
Enfim. Eu não desci, e isso é óbvio. Desisti do texto e fui arejar a cabeça, ver um filme, comer algo na varanda. E ri um pouco, sozinha, de mim e dos meus pensamentos de alguns dias difíceis. Eu queria chegar lá e mandar todos calarem a boca. Tipo cortar a graça. Por causa da lei do silêncio e, pior, por causa da minha redação. “Não pode. Não pode gritar agora. Todo mundo calado.”
E aí viagem começou.
Penso que esses cortes no viver do homem podem dar um ar de disciplina pra quem vê de longe. Mas no fundo, bem no fundo, fica um desejo que não morre assim por decreto não. Pelo contrário, fica forte, como se fosse um protesto pela tentativa de homicídio que ele (o desejo) sofre todo dia. É que nem saudade. Quanto mais se tenta suprimi-la, mais fortalecida ela fica. Assim é, pois, o desejo humano de ser livre. E olhe o que estou lhe falando...a própria natureza me prova que é assim: desses cortes repentinos, cresce mais e mais o que você tentou disciplinar. Sim, digo natureza porque ela já cansou de demonstrar: quando se poda o ramo de uma árvore, crescem ramos laterais. É assim. Não me faça explicar. Você corta uma ponta-mãe, e crescem, então, as pontinhas-filhas pelos lados, deixando a árvore com a copa mais gordinha. E então ela ri de você e de sua tesoura estraga-prazeres (caso a sua intenção fosse realmente diminuí-la).
Por favor, não pensem que eu não sei que a vida em uma sociedade racional seria completamente inviável não fosse o mínimo de consenso proporcionado por alguns pontos da lei. Mas o que quero lhe dizer, leitor, é que não se pode utilizar a tesoura estraga-prazeres com pessoas, assim, de repente. Não estou aqui para fornecer uma revolucionária alternativa às normas para que todos sejam bonitos e felizes, ao mesmo tempo. Não. Mas você me entende...só estou dizendo que a supressão da liberdade do jeito que é aplicada não está sendo eficaz. Ninguém deixa de usar drogas porque é proibido. Outro dia um indivíduo correu pelado na praia de Botafogo. E isso é proibido. Já vi um casal de namoradas receber uma “advertência” do segurança de uma boate não-gls por darem um selinho. Na (limitada) cabeça de muitas pessoas, isso é proibido. Meu Deus. Será mesmo que PROIBIR é tipo uma palavra mágica? “Não pode”, “Ta bom”. Se a coisa proibida não remeter a crimes de assassinatos, roubos e outras atrocidades unanimemente proibidas (por motivos óbvios), então é preciso tomar cuidado. Cortar o prazer, apagar a luz do show, expulsar a platéia ou os convidados da festa cultivam uma coisa em potencial lá no fundo, fruto de uma supressão do desejo próprio do homem. Fruto de uma equivalência errada do ser humano a pontas de cabelo, borrões de lápis e manchas na blusa. Você corta, corrige. Você apaga, corrige. Você lava, corrige. Mas você proíbe, e corrige?
Eu poderia continuar falando e desabafando com você que teve a paciência de chegar até esta linha. Poderia discutir com você, então, qual é a melhor forma de “corrigir” o homem. Mas isso é outra história. Agora, eu termino esperando que amanhã aquelas crianças gritem muito. Mas provocativamente muito. E eu inclusive jogarei uma faixa pintada por minhas próprias mãos, para que elas pendurem orgulhosamente no gol do futebol (a origem de todos os gritos) em frente à minha varanda:
“SOMOS FELIZES, NÃO PERTURBE”
Luiza Toledo.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Um brinde
De vez em quando sinto aquele ímpeto de renovação individual antes do reveillon. Sim, porque no reveillon ninguém está imune à gostosa sensação de que tudo será diferente no ano que se inicia. Vontade de sorrir. A roupa branca dando um ar de limpeza da sala antes ocupada pelo ano que se despede. E a casa nova pronta para receber o mais novo integrante da sua vida, o ano novo. Todo o turbilhão de emoções é natural dessa data. Mas o que tenho para lhe falar hoje é que meu ano novo chegou antecipado. Veio me consolar dando uma amostra de boas surpresas e acabou me colocando em um clima bom, renovado e, finalmente, disposto. O bom da vida é ser esse processo não cíclico. Quando você acha que já pode ser comparado a um móvel velho e empoeirado, a uma relíquia da natureza ou a um robô e sua rotina, vem uma coisa e surpreende. Um belo dia hoje. E eu só precisei fotografar um par de olhos pra que ele valesse a pena. Fotografo com os meus próprios. Porque nada é um banco de dados tão perfeito quanto a mente humana. Ou seria o coração?
"Os ventos que às vezes tiram algo que amamos são os mesmos que trazem algo que aprendemos a amar."
Feliz ano novo.
domingo, 14 de novembro de 2010
Desconhecido
Conheço tudo de você. O seu prato preferido. O lugar de que mais gosta. Sei que ama o pôr-do-sol. Não gosta de acordar cedo. Sei dos livros que te atraem. Sei do teu medo maior. Sei que gosta de cigarros. Sei que ama chocolate. Sei que gosta de cerveja. Sei que a praia é teu lugar. Conheço bem o teu sorriso. A tua cara de cansaço. Sei qual é o teu perfume. O desenho do all-star. Eu copio a tua letra. Eu conheço a tua música. Não larga o violão. Não engole desaforos. Não aceita injustiça. Quando é sol tu queres mar. Quando é chuva, mar também. Conheço a tua silhueta. Cada curva do teu corpo. Cada traço do teu rosto. Sei que gosta de rir alto. O cinema é relaxante. As viagens, tentadoras. Sei da mancha da tua íris. Sei de todas as manias. Mão no cabelo. Mão na nuca. Mordida no lábio. Riso de lado. Dedo estalado. Eu conheço a tua voz. O tom, o timbre e a frequencia. Tanta coisa, bem querer. Conheço a fundo o teu estilo. Tanta coisa, meu amor. Mas o teu coração, meu bem, é um mar de obscuridade. Caixinha de códigos em braile trancada a 7 chaves.
Por quem te conhece de verdade.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Nós
Nunca estás sozinho. Há dias em que precisas de outros braços como uma mesa precisa de seus apoios. Deixe então que a tua vida seja uma sala de visitas. Não me refiro a uma praça pública. Mas deixe o teu caminho ter halls de entrada, sirva um café ao inquilino e, quando bater o tédio e a vontade de dar mais uns passos, deixe aberta a porta dos fundos para que se encaminhem os indesejados. Não ande em corredores, pois eles são uma linha de estreitas paredes. Não vês a luz, nem os rostos alheios nesses caminhos sem bifurcações tentadoras. Queira as portas e as janelas. Pois eu repito: nunca estás sozinho. E quando bater o desespero, a sensação de insegurança, solidão repentina e a leve impressão de que só sobrou você na eterna brincadeira-de-nós-todos, eu quero que se lembre da borboletinha que vive apenas dois meses e, apesar disso, a sua viagem anual dos EUA até o México termina com sucesso. Sabe como?
Este vôo épico envolve nada menos do que 4 gerações de borboletas.
Nunca estás sozinho.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
O tal do fim do dia.
Eu entrei no carro, direcionei o ar pra mim. Disse um "oi" arrastado e cansado. Enquanto ela dirigia, eu fechava os olhos, ainda colocando o cinto e tirando a mochila do colo.
O dia começou em comum na mesa do café. Depois sempre nos separamos numa bifurcação por demais contrastante. E no fim, estávamos ali. Cada uma com seu dia nas costas, mas com o final em comum.
O estresse estragava qualquer início de diálogo.
Eu tocava as pálpebras com os dedos gelados. Tentando me tranquilizar.
Ela acelerava nas ruas já sem movimento; a cidade toda recolhera seus pesados dias e foram desmaiar na cama.
No rádio, uma voz que anunciava o convidado da noite na MPB.
"Olha, você não faz ideia do que passei no meu dia hoje." - disse ela.
Eu retrucava, entrando na inútil e boba disputa de quem tem o maior cansaço.
Finalmente, quando o silêncio chegou e a casa estava próxima, olhei e vi como ela era linda. Ela ia chegar em casa, colocar um sorriso falso no rosto e receber as visitas que aguardavam pro jantar. Que coisa tola essa de postura social. Seria tão mais legal entrar e falar " saiam todos. comam em outro lugar porque só quero tirar essa roupa e amar minha casa como nunca".
Eu desejei poder falar isso por ela.
Mãe tem dessas coisas. Vivemos num 8 ou 80, preto ou branco, bipolaridade semanal, fins de semana alegres e segundas-feiras cinzas, abraços, gelos, manha, bom dia, boa noite, vem comer, vai dormir, vai sair? vai voltar?.
E no fim gostamos. Porque olho pra ela às vezes, e alguma coisa boa invade o peito. Me dizendo que não há coisa mais certa. Coisa mais minha. Coisa mais rara.
domingo, 24 de outubro de 2010
Não serei escritora dos amores passados.
Não direi o que penso, porque as palavras saem cortanto. Elas cobram pedágio para estar aqui.
Queria conseguir transmitir a você, leitor, o que sinto agora. Ou melhor, o que não sinto. Estou numa estranha insensibilidade. E, o que é mais estranho ainda, pareço estar em uma aguda felicidade.
Sinto que consegui recuperar todas as partes de mim. Pois eu estava dividida. E agora estou egoísta. Mas posso, não posso?
Me dói quando a cabeça pede pra pôr em palavras os acidentes do coração. É tarefa árdua. Requer força. E muito controle. Sangue frio também. Pra não se assustar quando a palavra (mesmo escrita por minhas próprias mãos) me revela algo que nem eu mesma sabia que guardava em mim. Angustiada. São pequenos golpes quando a escrita toma vida própria e faz das minhas dores um filme pra mim mesma. Como uma desgastante e aterrorizante palestra de 'como aprender com suas quedas e, depois, arriscar cair de novo'.
Tudo isso me consome. Martiriza às vezes.
Mas me preocupa muito mais agora a estranha neutralidade que estou vivendo. Me tenho toda pra mim agora. Estou fria. Mas feliz. Isso é ruim? É que sinal?
Sinto os pés pisarem o chão, um pouco trêmulos, como se eu tivesse voado esse tempo todo. E, agora, tivesse que reaprender a andar um pouquinho.
Hoje, não vou tomar a dose de frescura pra escrever o coração aqui.
Pra escrever os rostos que atordoam minha cabeça.
Pra escrever as saudades que atordoam meus olhos e garganta.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Antes de dormir
Escrevi um texto aqui um dia que se chama "A cara da saudade". Sorri pra ele. Li mil vezes. Olhei o resultado como se só depois do esforço de escrita pudéssemos apreciar as letrinhas. Que nem uma montanha: na hora de escalar é só pedra ou gelo, tem nem sentido pensar no esforço porque senão você desistiria de só olhar cinza, branco, altura pra baixo, caminho pra cima. Mas lá em cima, a paisagem é só sua. Só sua.
Desculpe o fluxo da consciência, não era sobre isso que queria falar.
É que no fim do texto sobre a cara da saudade, ela continuou sem mostrar sua face. Fui saber disso ontem e não podia deixar você desatualizado. Meu Deus. O que é saudade? Dorzinha aguda na garganta/pescoço/peito. Mas não seria pior se não sentíssemos? Então é dor prazerosa? Masoquismo comunitário da Associação dos Possuidores de Coração do Planeta? É o que? Eu tentei falar. Tentei organizar. Tentei fechar os olhos e deixar sair só o que sentia. Senti que domei o sentimento! (irônico que até para sentir essa "superioridade" com relação ao sentimento precisamos deixá-lo nos invadir, ou seja, precisamos sentir. e só).
Parabéns pra você saudade. Nós passamos a vida tentando te matar. Mas você tem 7 delas. E nós só temos uma. "Quando olhar pra ele, vou matar minha saudade!" . Aguarde algum tempo, pra vê-la brincar no túmulo que insistimos lacrar! Matamos nada. Nós é que morremos um pouco. E o pior, é que gostamos. Sim, gostamos porque a facada da saudade dá frio na barriga, lágrima nos olhos, confusão na cabeça...mas no fim...continue explorando o turbilhão de sensações...e lá no fim, pulando pra ser vista no mar das emoções doloridas, está ela.
Sim, a estrela.
A razão de tudo.
A atração principal...
Ela: a sensação de viver intensamente.
Parabéns saudade pela sua esperteza. Vamos continuar lutando com você. Pois o homem tem dessa mania de achar que tudo pode. E sim, venha matar mais corações...
Porque nessa vida tão contraditória,
morrer de saudade
é ter vivido o amor.
Ter vivido o amor,
é ter vivido o...
a...
é ter vivido.
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