quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Desejo

Eu podia esperar do ano que agora começa doses imensas de múltiplas coisas. Podia querer que transbordasse amor, que chovesse sucesso, que brotasse dinheiro e que viajasse o mundo inteiro. Como é típico da idade e desses inícios-de-ano-esperançosos-e-renovadores, eu poderia, muito bem, ter planos de abraçar o mundo. Todinho assim, num ano só. 
No entanto, falei com Deus que eu não iria encher muito dessa vez. Que prezaria pelo simples. Me contentaria com pouco e seria mais grata. Seria humilde e menos exigente. Pedi, então, que nesse ano eu pudesse, apenas, rir mais. Rir assim de gargalhar. Rir de modo que não apareça só o aparelho ou o dente roxo de vinho, mas gargalhar até a alegria se fazer tão presente que comecemos uma história de amor. Que eu possa olhar pra ela e não desejar nada mais. Que possamos ser melhores amigas e que ela me visite sem precisar ligar antes. E se ela (a alegria) viajar, que volte logo pra mim de novo. Eu quero rir quando tudo pesar também, pra ver se levanto mais rápido desses sustos que a vida dá.

Como parte do pacote 'alegria para consumo humano', veio você. Juro que não pedi pra ser tão bom assim. Deve ser pra dividir o que vier de bom. Deve ser pra ficar mais fácil multiplicar o sorriso. Pra toda essa felicidade começar fazendo sentido. Pro sorriso ter, assim, uma razão de ser.

"Não podia ser diferente" - eu penso.
"Quando você pede felicidade a Deus, Ele lhe dá, na verdade, a oportunidade de ser feliz".

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Em paz

Estar em paz de espírito não é nadar num mar de rosas. Não é ter completa estabilidade e esbanjar sorriso 24h por dia. Estar em paz não é, muito menos, ter a capa protetora dos problemas, do males, dos estresses e das dores. Isso vem no pacote-vida. Isso atinge todo e qualquer mortal. Então você aí, que almeja e busca a paz, por favor não tente fugir dos problemas. Não pense que não vai tropeçar. Que não vai chorar e nem vai acordar vendo o mundo virar cinza.

Estar em paz de espírito é sorrir no escuro e dançar em meio a tempestade. 
A paz, segundo a minha própria alma (que me sorri neste exato momento), é quando, mesmo com todas as nuances do dia, com todos os tapas e todos os sustos inerentes a "estarmos vivos", existe a certeza de estar assim: plenamente feliz.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Fim do ano

Não subestime o fim do ano.

Sei que é nele que o cansaço pesa. É no fim do ano que enchemos o saco de quase tudo e quase todos. É nele, também, que a linha de chegada parece se afastar a cada sofrido e pesado passo que damos. No fim do ano, muitas vezes, a questão não é mais evitar quedas, mas conseguir levantar e se apoiar nas pernas de novo. Encontrar uma reserva de forças como quem procura num mapa um tesouro escondido. Sei, também, que nos últimos dias do ano, o que importa não é muito o agora, mas a grande virada; o ano que vem; o novo que chega. E tem que chegar logo. Porque como meros mortais cansados, não aguentamos mais esperar.

Mas, ainda assim, não subestime o fim do ano. Se dê o luxo, ainda, de esperar por algo. Deixe uma brechinha assim que seja de coração aberto para esses últimos dias. Não custa nada dar carinho na alma e deixar que ela ainda se leve por coisas boas que possam surgir. Um cantinho só que seja.

Deus não precisa de muito pra introduzir surpresas na vida.

E quanto mais no fim; 
Bem ali, aos 45 do segundo tempo;
Pertinho dos créditos do filme; 
Dos aplausos da peça;
Do suspiro final;

Maior a surpresa que te invade.
Que nem a surpresa que me invadiu.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Simples

Eu não queria nada muito exuberante assim não. Só uns 7 dias de pé na areia, pôr-do-sol pra se apreciar (e não se apressar) e os ombros mais leves assim, sabe? Como se tivesse a sensação gostosa e constante de tirar a mochila das costas e jogar no chão. Seguida de uma boa e longa espreguiçada.
Queria parar de brigar com o sono, desenhar numa parede, ler gibi e assistir a cultura inútil na TV. Pegar o carro e ter a única preocupação de ir pela orla.
Não me importar se chuva ou se sol.
Afinal, em mim não choveria mais.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Som

Às vezes eu tinha raiva. Preferia não pensar em você. Não ver você. Não ler você nas fotos e nem assistir a você nas lembranças. E logo me dava conta, rindo, de que a raiva durava o incrível tempo de 3 minutos.

Eu sentia você, de algum modo, perto que nem naquelas horas em que a gente escuta um barulho apitando e não sabe de onde vem. Cola a orelha na mochila pra ver se é o celular. Aperta todos os botões do relógio digital. Coloca a culpa no celular alheio. Vai conferir se a geladeira ficou aberta. E nada. Não se pode encontrar da onde vem o diacho do barulho, mas há a plena certeza de que está presente. "Olha agora! Está aumentando" - repito com a orelha colada no ar, os olhos arregalados e o dedo apontando pro nada, na pose de alerta da pessoa mais perdida que poderia haver na cidade.

Pois estou assim. Me apegando ao nada pra fazer você viver em mim. Às vezes acordo ótima e tenho vontade de pular de paraquedas. Noutros dias dá saudade e eu fico me convencendo, sozinha, de que você está aí. Meio longe, mas está. Meio quieto, mas está. Meio na sua, mas está. 

Bem ali. Eu juro que escuto.
Sozinha, mas escuto.


       


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Deixa sair


Venham e digam que errei. Digam que não nasci pra tal coisa. Digam também que esperavam mais, que apostaram mais, que queriam mais. Venham e critiquem, pois vou ouvir. E anotar. Façam uma lista: erro 1, erro 2, erro 227, que vou ler e estudar. Que vou ouvir e vou guardar. Vou receber, absorver. Vou aprender. Vou decorar.

Mas nunca, por favor, nunca digam que não tentei.


Pra quem se dedica de verdade, a frase vem como uma punhalada no peito. O corpo se fere e guarda aquilo. O corpo é forte e aguenta algumas. "Segura firme", peço a ele. 
" Mas você não tenta melhorar" - mais uma faca.


Então tem um dia, meu amigo, em que as punhaladas sangrantes doem tanto, que você grita de dor. Antes ficava em silêncio. E um dia, um dia normal desses aí, grita, extravasa, abre o peito e mostra "olha aqui como eu tento. Olha aqui como me esforço". 

A energia se concentra e sai toda numa vez só. E não tente ser mais forte que ela nessa hora.
Deixa ela sair. Um corpo que era cárcere agora deixou a alma falar.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Bem acompanhada

Gosto de pensar, nas minhas infinitas distrações diárias, que estar sozinho não é o mesmo que estar solitário. Tenho a sensação de que estar solitário é estar sem ninguém e querer uma companhia, enquanto estar sozinho é estar na doce e, muitas vezes, despercebida companhia de si próprio. É deixar a alma falar tudo aquilo que a atormenta diariamente e encarar de frente os assuntos deixados de lado por péssimos ouvintes que somos com nós mesmos. É se bastar, por uma tarde que seja, com o carinho e a generosidade próprios; com a atenção e o repouso que a mente, sempre doada a outrem, às vezes precisa como presente nosso pra gente.

Por isso, não tenha medo de estar sozinho. De ouvir, às vezes até pela primeira vez, o que a companhia lá de dentro pede, fala, agradece, clama, chora ou, no meu caso, grita.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Pra ser feliz

É pela felicidade que levantamos todos os dias, ainda com sede de sono, e entramos mecanicamente no banho. E tomamos mecanicamente o café. E pegamos mecanicamente o trânsito. É para sermos felizes que abrimos o livro contra a vontade; que apresentamos o trabalho; que enviamos o relatório e cumprimos os prazos de uma agenda cheia. É pela felicidade que sofremos por amor, que mergulhamos na incerteza e nos entregamos a outrem sem saber muito bem o que farão da gente. É pra sorrir um pouquinho que obedecemos os pais, que abrimos mão do que queremos às vezes em prol de algo maior e ainda desconhecido. 
A felicidade almejada é a força motriz dos dias de cão, dos dias de luta, da perseverança apesar das dores nas pernas, do frio na barriga de medo e das olheiras de sono.

Acontece que a felicidade gosta de se revelar só depois de um longo tempo testando o caçador de sorrisos. A história de busca por ela é um mar de contradição. É aquilo que nos faz questionar o-que-é-que-estou-fazendo-aqui; é uma sucessão de coisas que significam TUDO, menos ser feliz de verdade. 
No fim, no dia em que a felicidade resolve dar o ar da graça, temos um tempinho muito menor com ela do que gastamos buscando-a. É como se ela fosse fugaz. Parece que tem que sair logo correndo porque a demanda no mundo é grande.

E o estranho é que vale a pena mesmo assim. E logo recomeçamos um novo trajeto, só pra sentir de novo o gosto efêmero, mas intenso, da recompensa em nossas vidas. Sentir o abraço que a felicidade dá quando vem nos cumprimentar. Enxugar o suor. Nos botar pra dormir tranquilos. Invadir a alma e recuperar em nós o gosto pela vida. Dar uma carga de energia no corpo quase morto.

É por esse momento incomparável de comemoração nossa com a gente mesmo que vale a pena dar tiro no escuro todo dia. Que vale a pena se jogar de corpo e alma e esperar ansiosamente por aquilo que não vemos, mas que chega.
Sempre chega.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Dançar na chuva

Uma vez ouvi dizer que toda energia que chega ao pico tende a declinar.
Não pode ser verdade. Não assim tão mecanicamente.
Essas coisas da vida, o azar ou a nuvenzinha negra que às vezes vem pousar sobre a cabeça são incumbências da sorte. E só.
Por isso calma. Respira e, por favor (dizia a voz de dentro dela), tenha fé. Tenha fé na vida e no que você escolheu fazer dela. 
A melhor parte do dia, vou dizer, foi/é falar com você. Me traz a alegria que hoje resolveu não trabalhar. Traz uma festinha no coração. E eu sinto, antes mesmo de dormir, o dia ruim indo embora de mim.

Sozinha no friozinho do bairro, eu divagava sobre todas as coisas que se perderam na cabeça durante a correria e o estresse. Me cobria com a rede em que deitava, balançava preguiçosa com a mão tocando o chão e sentia a paz invadir o peito que hoje tanto me sufocou em agonia. Que me deu nó na garganta de choro. Mas agora tinha um cantinho pra ficar só.

Quem diria que o frio pudesse ser tão acalentador como me era agora.

domingo, 21 de abril de 2013

E se

E quando eu parava pra olhar; quando parava um pouquinho pra notar o presente em vez de tentar adivinhar o que ainda está por vir; quando me acalmava e me deixava levar pelo que vida me dava agora, aí sim sentia o calor da felicidade invadir o corpo. Que nem criança distraída ou ansiosa como só eu sei ser, às vezes me perco olhando o mundo, olhando pra fora da gente e olhando tudo o que me tenta nessa idade e nesse chão. E então, depois de passar o olho em cada detalhe, de analisar o que poderia ter sido se não fosse isso, de revirar a cabeça com " e se, e se, e se", eu olhava pra você e pro seu olho clareando no sol do Leblon, e ouvia baixinho aquela música que a gente gosta : "olhar nos olhos de alguém e conseguir dizer: estou feliz." 

segunda-feira, 18 de março de 2013

Falta

Quando pequena, eu tinha um livrinho que minha mãe costumava ler pra mim cuja história eu sempre curtia como se tivesse acabado de ouvi-la pela primeira vez. Era sobre uma menininha que se preparava para dormir, apagava a luz, agarrava sua boneca, se enterrava no cobertor, dava boa noite para o brinquedo e dizia que ia deitar, mais ou menos nessa ordem. Então, de repente, ela se levantava, acendia a luz e dizia: "Mas está faltando alguma coisa por aqui!". Então vasculhava o seu quarto em busca do palhaço magrelo, cumpria o mesmo ritual de boa noite e finalmente fechava os olhos, agarrada nas duas pelúcias agora. Logo em seguida ela levantava, acendia a luz dizendo estar faltando algo e mais uma vez catava o brinquedo faltante. E o livrinho assim seguia. E eu ria e tinha frio na barriga toda vez que a menininha levantava, como se não soubesse o que iria acontecer e quem seria o próximo convidado da noite a se juntar ao clubinho do sono. Só sei que alguma hora não faltava mais nada, ela dava boa noite a todos os mil bichinhos e dormia com os anjos.
Lembrei dessa história hoje (e daria tudo pra achar esse livro perdido aqui) porque se o pegasse pra ler agora, talvez me identificaria depois de crescida também. Não por rir (ainda) das 500 repetições na saga dos bichinhos de pelúcia. Mas acho que por pensar, assim como a garotinha do livro, que está faltando alguma coisa por aqui. "Aqui" eu digo vida. E a "coisa" eu digo coisa mesmo, porque não sei o nome disso que tanto me perturba a cabeça as vezes. 
Muita coisa me alegra e me traz uma paz tão plena, mas tão plena, que por uns instantes eu acho que a vida nunca foi melhor. Tenho você, tenho meu curso, tenho a companhia, o carinho e tudo mais que alegra e acalenta um ser humano.
Mas basta viver um domingo assim vagaroso, basta chover um dia todinho, basta estar só na companhia de um livro, que aquela chata constatação volta a martelar a cabeça. 
E me amedronta porque não é sobre o domingo. Não é só pela chuva. Nem só por estar só. É algo maior, que tenho medo de pensar. Nebuloso, entende? Não toma logo uma forma no pensamento. Só dá frio na barriga. E uma angustiazinha suportável. Não diria que me impede de fazer nada. 

Mas me faz lembrar -temporariamente, eu espero- que, definitivamente, está faltando alguma coisa por aqui.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Por trás da vida

Eu costumava questionar por que Deus, sendo tão grande e poderoso, não dava o ar da graça por aqui. Quer dizer, todos os dias eu ouvia falar que esperavam por Ele como quem espera um grande encontro. E eu não via nada acontecer há tempos. Não via uma luzinha sequer, um chamar de nome, nem nada do tipo. Foi aí que, de repente, achei que Deus estava mexendo as ondas do Arpoador hoje de tarde. Achei que estava mandando o vento que bagunçava o meu cabelo, mas não me fazia sentir frio. Achei, também, que Deus abençoava o Rio naquela hora, não porque abrisse os braços todos os dias lá de cima do morro, mas porque comecei a ver os sorrisos dos cariocas num dia nublado com samba de carnaval. Vi de perto a saúde e a força daquele lugar. Vi a vida acontecer tão plena e tão intensa que não tive dúvidas, ali, que alguém mandava um recado de bem longe (ou de bem perto). Que alguém, por trás de tudo, regia a felicidade de um domingo ao ar livre. Foi aí que lembrei de muitas outras vezes em que Ele mandou recado. Muitas delas remetiam aos meus encontros com você. 
Acho que a felicidade com você é tão plena e tão sincera; é tão fácil e tão presente que, se não tiver a mão de Deus ali por trás, meu amigo, não vale a pena acreditar em mais nada nessa vida.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Natal

A ansiedade da viagem. O cheiro da casa de vó. Os ares de sempre, mas com cheiro de frescos e novos. A casa cheia. A mala com as roupas principais lá embaixo. A confusão das camas, das toalhas e dos varais. O sol, a praia, a cerveja. O almoço. Metade na mesa, metade no sofá/varanda. A sobremesa com gosto de infância. O marasmo do fim da tarde. A soneca com horário marcado pra se arrumar. A fila do banho. A confusão do ferro de passar, do secador de cabelo e da maquiagem. O espelho pequeno. O cheiro de perfume pelo corredor. A voltinha na sala. As conversas, o tira-gosto, as pastinhas, salgadinhos, queijinhos, o vinho, o whisky, o barulho da rolha do champagne, as taças e o copo que vira na mesa. Criança correndo. Criança chorando. Criança gritando. O DVD de música. Os presentes. Só uma lembrancinha. Se não der, troca. Não precisa agradecer, besteira. As sacolas no sofá. Hora da ceia. Os pratos empilhados. Faltou talher. Chega pro lado no sofá. Apoia na almofada, suja e disfarça. A sobremesa com gosto de encomenda. Checar mensagens do celular. Responder em grupo. Tirar foto. O primeiro bocejo. As risadas altas e alcóolicas. O sono chegando. A criança apagada no sofá e a outra dormindo na rede. Vamos indo, que querem dormir. Levem os pratos pra cozinha. Levem os copos. Pedaço de torta embalada. Pegue as coisas, veja se não esqueceu nada. O pai carrega o filho que finge não acordar. Checar lei seca. Chamar táxi. Beijo vocês. Obrigada pelo presente. Foi só uma lembrancinha. O interfone. O silêncio. Um beijo.

A família. O amor.
O amor.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Retrovisor

A tarde quente do Rio se despedia jogando os últimos resquícios de brasa na cidade derretida. De dentro do carro, eu observava apaixonada o mar dourado de São Conrado, ainda que o ar condicionado fosse o meu maior amor. Devagar, aparecia o pôr-do-sol no retrovisor e eu, ainda que tentada, não podia assistir continuamente. Olhar o espelho virado pra trás era apreciar algo bonito, mas o trânsito não permitia uma prolongada retrovisão. "Nem o trânsito, nem a vida"- pensava, no silêncio da viagem. A voz de dentro dela sempre falava pelas tabelas nos momentos em que o mundo se calava. E então concluíam, as duas (ela e a voz), que nem no trânsito nem na vida poderíamos viver olhando pra trás. Quer dizer, as coisas passadas têm lá sua beleza, têm seu valor e merecem o devido reconhecimento, como merece, todos os dias, o pôr-do-sol que abençoa o Rio de Janeiro. Mas, pensava baixinho, estava na hora de fazer do presente, de novo, o combustível da vida. "Considere o passado, viva o presente e lembre que o futuro nem sequer existe ainda" - repetia como quem aprendia o dever de casa. Há muito tempo o retrovisor guiava a sua vida, causando cada acidente bobo, cada topada na cara que, estranhamente, não eram o bastante para fazê-la aprender a olhar pra frente. É que o pôr-do-sol era belo demais e, refletindo no mar de São Conrado, chegava a ser hipnotizante. Ora, as coisas que ficam pra trás têm disso mesmo. Hipnotizam e têm a forma perfeita da tentação. Algemam, prendem, puxam e derrubam todo e qualquer ser insistente com mania chata de avançar. Ah, sim. O passado tenta mesmo. Às vezes até brinca de vivo de novo.

Mas algum estalo ali na frente, alguma luz de sinal vermelho ou uma buzina mais estrondosa a fez voltar o pescoço e, com ele, a atenção pra vida que acontecia agitada. Tudo acontecia bem diante dos seus olhos. O presente presenteava e entupia o caminho com as surpresas do agora! 

Trocou a marcha, ligou os faróis pra noite que vinha caindo e repetiu, sozinha: "em frente agora. De uma vez por todas, em fren-te".

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Para ler devagar


Todos os dias haviam, de uns tempos pra cá, adquirido aquela identidade dominical de 'tempo que se arrasta'. Mas não no sentido fastidioso. Não no sentido de tédio que ofusca a vontade de viver. Digo 'tempo que se arrasta' no sentido bom de ser. Tempo que caminha de sorriso aberto pra cada pequeno movimento do relógio, não inventando de dar passos maiores que as pernas só porque a modernidade assim o quis. Todos os dias, agora, nasciam com a preguiça gostosa do conforto da cama. Era a primeira vez que ela sentia cada torçãozinha do espreguiçar, uma por uma.  Depois, o gosto do café na boca ia ditando o ritmo lento do dia que se iniciava. Pensava em ler o jornal, mas tudo acontecia rápido demais nas páginas sujas. Pensava em ligar a TV, mas é que falavam rápido demais naqueles programas inúteis. Então, olhava pra fora. E via chuva fininha caindo no telhado vizinho. Gostava de observar a marca efêmera de cada gota na telha que escolhia pra namorar. 
Aos seus olhos, a vida acontecia lá fora no ritmo que Deus queria que fosse. 
Voltava para o quarto e pensava em ler a matéria das aceleradas obrigações do dia-a-dia. "O Crescimento Bacteriano", pronunciava alto. Mas logo pensava que bactérias crescem rápido demais, então desistia da pressa daquele texto.
Era a primeira vez que sentia o fim do ano sem parecer o fim da vida. Seguia o apelo de Lenine e tinha, sim, um pouco mais de paciência. Queria a vida calma como a beleza do Rio pedia às vezes, quando ela parava pra reparar.
O coração já não ia bem. Uma vida taquicárdica pra quê, então?
Ah, a vida mais calma respirava melhor. E ela respirava e sorria mais agora. Já disse Chico Buarque o que ela agora repetia quase como uma oração:

"Não se afobe não, que nada é pra já".

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Abstrato divã

Eu não sei bem o que a madrugada tem de tão interessante. Quer dizer, sem música, sem álcool, sem gente e sem nada: madrugada daquelas cruas mesmo. Só você com você mesmo. 

Não sou insone. Forço uma vida de coruja porque alguma coisa na madrugada realmente me atrai. Mal dos ansiosos isso; essa coisa de ficar alerta por qualquer mínimo evento, ainda que o evento em questão seja a épica e demorada luta, sem nenhum aparente motivo, contra o meu próprio sono. Eu me concentrava ora no filme que pegava da metade, ora no sanduíche que artisticamente preparava e ora nos ruídos que a casa dormida emitia. A geladeira virava uma sinfonia de estalos. O vento, essa eterna criança, batia na porta da sala e saía correndo no mesmo segundo. A posição que mais me contorcia a coluna era a mais perfeita materialização do conforto no sofá afundado da sala. O celular às vezes apitava. A ansiedade fazia o coração bater mais rápido. Eu levantava correndo pra buscá-lo na mesa e, sorrindo, constatava que era a bateria igualmente cansada e querendo dormir. Não era você perguntando por mim. Não era um encontrinho por SMS na madrugada. Daqueles que a gente deita na cama, no completo escuro do quarto, e se põe a digitar enterrados no cobertor. Ninguém vê. Ninguém ouve. E o encontro silencioso dura até os olhos arderem e desistirem da luta diária, rebelde e sem causa, que sempre termina com o mesmo vencedor: o sono.
Pois bem, eu não sei dizer o que é que a madrugada faz. Que mundinho é esse que descubro vasculhando os meus próprios pensamentos enquanto todo mundo sonha. Não sei quando é que vou aprender a viver as manhãs. Sim, porque as manhãs, as saudáveis e ensolaradas manhãs...ah, eu as abandonei há um tempo. São bonitas, sim, são um período do dia que tem o cheiro bom do café, o frescor do banho recém tomado e a conferida rápida na manchete do jornal. Mas, ainda que ofereçam tamanhos artifícios, as manhãs não possuem esse estranho poder das madrugadas de gerarem um verdadeiro e interessante mundo paralelo na minha cabeça.

Ainda que escuras, caladas, solitárias e quietas, as madrugadas, com esse ar de divã invisível, fazem dos meus pensamentos um interessante filme que nunca consigo ver até o fim.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Retornando (à vida)

O que mais me assustava em você não eram suas atitudes propriamente ditas. Não eram os atos. Não eram os erros, como faz todo ser humano que se preze. Nada disso, meu bem, deixa de ser digno de conversa, de calma e de vontade de perdoar no mundinho de coisas comuns que eu carrego dentro de mim. 
O que me faz ir embora de verdade, me ataca e me derruba num só golpe, é o assustador contraste entre seu discurso e suas ações e, principalmente, a estranha insistência em abraçar o orgulho com unhas e dentes e não deixar escapar um reconhecimentozinho sequer de que, possivelmente, algo de errado aconteceu.

Eu costumava dizer aos curiosos que perguntavam por mim nesse último mês que eu não havia viajado sozinha. Dizia isso com sorriso no rosto e coração aberto, não porque carecesse de sanidade, mas porque eu tinha levado você comigo. E todos os dias eu acordava e via você sorrindo pra mim. Eu dava um bom dia já rotineiro, brindava meu chopp com você pela noite e curtia a saudade como quem sabia que o abraço da volta ia valer a pena. Que a sintonia do vinho, da Lagoa Rodrigo de Freitas e de você numa tarde carioca iriam valer a pena. Pois você tinha essa coisa, de apagar tudo de ruim que o dia tivesse oferecido e virar uma recompensa materializada. Você me inseriu num mar de carinho, confiança, muito riso e muita farra, me assegurando que estava tudo bem. 
Mas o problema, meu bem, foi que você um dia quis sair sem dizer por que. Sem achar estranho. Sem se incomodar. Você só cansou e, entre descansar logo ou me ajudar a levantar da queda, você preferiu o primeiro. Acho que porque sabe que dor dá e passa. Seja lá o que realmente pensou na hora, talvez não mereça tanta importância agora.

O que importa é que voltei. E amanhã começo a matar a saudade que tanto me matou nessas semanas. Não de você. Mas do meu Rio de Janeiro, que faz a vida ser bonita fora de mim. E que, em vez de deixar os olhos se embaçando com água, faz a gente rir e se orgulhar. Deixa tudo pra lá então, e vamos viver.

Se Roberto Carlos me permite uma adaptação: quero que você me esqueça nesse inverno, e que tudo mais vá pro inferno.




quinta-feira, 5 de julho de 2012

Promessa


Não é que fosse doente. Não é que fosse incapaz, que tivesse problemas ou que, na flor da idade, houvesse limites para o que ela desejava fazer. É só que às vezes entrava numas ondas de azar assim daquelas grandes. Não conseguia ficar presa, mas a queriam prender. Não conseguia ficar quieta, mas a vida, às vezes, a enrolava numa camisa de força e a deixava definhando ao sabor do tédio, do tempo e do ócio. 


Sabe o que ela mais desejava agora?
Estalar os dedos e estar num lugar só com rostos desconhecidos, com paisagens desconhecidas e um tanto assim de coisas pra aprender.
Queria sumir um pouquinho que fosse. Queria parar de responder quando a chamassem (e eram muitas, mas muitas vezes), parar de atender quando ligassem e parar de viver quando quisesse.


Vida merda essa que não espera um tantinho quando a gente só quer dar um tempo de tudo.
Só ir ali e voltar.
Prometo que volto.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Ofuscado

O que exatamente a rotina faz com a gente?  

É algo meio triste, meio fatal. Como quando compramos um lindo e reluzente anel prata naquelas feirinhas de antiguidades que nos distraem por aí aos domingos de manhã. Nos poucos domingos de manhã em que vi o mundo, já comprei um anel único e bonito desses. Peça rara e de preço agradável, caiu ali na mesa da barraca, no domingo ensolarado, esperando que alguém notasse a sua beleza que, ainda que arrebatadora, não vencia a miudeza. Aí, então, passando por acaso, ocorre o caloroso encontro dos meus olhos com o objeto. E, logo em seguida, uma singela harmonia entre o anel, a minha mão e o sorriso na boca. Saem os três de bem com a vida, como três amigos de infância que se entendem como ninguém.

Acontece que um dia você acorda e o brilho do anel está, infelizmente, ofuscado. Toda a beleza e a imponência do objeto naquela tarde de domingo foram, assim, por água abaixo. A peça é a mesma, a mesma de sempre. Que já deixou marca de sol na mão direita. Que já tomou o formato torto do dedo. Que sempre despertou elogios e acompanhou o seu proprietário onde quer que fosse. Resistiu até à água, à morte no ralo da pia e ao vão entre a parede e a cama. Era, simplesmente, um companheiríssimo.

Mas a rotina faz isso com a gente. Tira o brilho do que um dia reluzia aos olhos, fazia o coração bater mais forte e o sorriso acampar na boca. A rotina desgasta e ofusca. E o faz lentamente, como se torturasse aquele que, por sentir-se confortável, deu por finita a sua procura por algo novo e diferente. A rotina veste a carcaça da organização, exala os ares da disciplina, não é? Faz o encarcerado sentir-se no perfeito controle dos seus dias. Mas por dentro, meu amigo, ela é feita de ausência de cor na vida.

E há quem não se aborreça. Há quem não enxergue, não dê um sinal sequer de agonia. Há quem se acostume.
Pois, de vez em quando, penso sozinha: 

"Coisa triste esse negócio de se acostumar à falta de brilho."


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Livre, leve

Era incrível como a vida sempre ouvia as minhas preces. Não digo sempre, porque de fato nada vem de mão beijada. Mas quando ouvia, meu amigo, a coisa vinha em série. Intensa, pesada...como se brincasse com meus anseios, me avisando pra nunca duvidar do quão imprevisíveis os dias podem ser e do quão inesperadas as coisas podem se fazer. Eu reclamei da rotina um dia desses meio lerdos, quando toda a sua vida parece ter se convertido em fastidiosos domingos. Reclamei que nada de novo me vinha mais. Nem um coquinho na cabeça caía assim, de repente. Só pra me assustar e me fazer sentir aquele friozinho na barriga que nos avisa que estamos vivos.

Eis, então, que me aparece você. 

Tinha a cara da confusão. Um cheiro forte de problema. E parecia, curiosamente, ser um estresse em potencial.
Pois se você foi uma surpresa, surpresa também foi o jeito como quebrou parte dessas minhas expectativas pessimistas.
Veio leve. Trouxe foi descontração, uns sorrisos assim de graça e uns maços de cigarro.
Então deixa.
Seja leve. Só isso que peço. Pois tudo meu foi muita dor. Já fui de achar que amor assim desesperado é coisa imperdível na vida. Que é pra cair de cabeça, jogar tudo pro alto e não olhar mais pra nada. Fico ainda achando que é mesmo coisa imperdível...porque aí a gente aprende a nunca mais fazer igual.

Você veio light. Não depositou nenhuma carga nos meus ombros. Aquela carga pesadíssima da cobrança, sabe? Está me deixando descansar. Recuperar os meus pedaços que espalharam por aí.

Não peço muito mais que isso pra ser feliz agora.
Só peço que a vida não me tire tão cedo essa sua leveza de perto.

E quando peço coisa pra vida, meu bem, ela gosta de me provar que consegue cumprir.