quarta-feira, 20 de abril de 2011

Panorâmico

Meu bem, sabe quando vamos viajar e, na hora da decolagem, vemos a cidade de se afastando lentamente? Naquela hora, de noite, em que os cansados já cochilaram, os leitores já se concentraram e você observa a cidade ficando pequena, lá embaixo. Existe um momento que quero lhe contar, nessa subida. É antes de as pessoas virarem pontos e de as primeiras nuvens começarem a passar pela janela. Existe uma hora, bem aí, em que a cidade da qual estamos saindo parece fazer todo o sentido. Lá de dentro, tudo é um caos, tudo é gigante e quase nada é do nosso controle. Mas nesse momento que estou lhe contando, dá para observar os quarteirões em perfeita simetria. Os espelhos d'água bem delimitados. E aquela minhoca de luzes vermelhas de faróis infinitos serpenteando entre os prédios, como se dançasse lentamente pela selva de pedra. Lá de cima, não ouvimos as buzinas impacientes, nem respiramos a fumaça constante. É tudo sereno, simétrico, sei lá. Podia haver uma trilha sonora e pronto. Faria tanto sentido a cena observada, seria de uma organização tamanha que o prazer e o alívio de vê-la atingiria até o mais estressado cidadão. 

Pois bem. É isso que estou fazendo agora. Olhando a gente lá de cima, do ponto perfeito onde tudo faz mais sentido, de tal modo que de dentro dos acontecimentos e da rotina, somos verdadeiros cegos, aflitos, sem entendimento. Quero olhar do alto, ter a vista panorâmica do nosso filme, da nossa novela. Tão linda que é. Mas ultimamente tem me convidado a fazer essa viagem, fugir um pouquinho pra pegar o melhor ângulo. Desvendar a minha cabeça como uma sagaz observadora. Que não perde um detalhe sequer da imagem que observa. 
E a imagem, meu amor, é a gente. 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Movimento

Sempre que penso em liberdade, imagino coisas em movimento. Sim, a liberdade me remete à cinética. Não sei dizer ao certo por que essa ideia sempre perseguiu a minha cabeça. Espere, aí vai mais um indício. Viu? O movimento é tamanho que nem os pensamentos conseguem congelar 1 segundo aqui na cabeça para que eu possa explicar a você que diabos de ideia é essa de liberdade ser movimento. E que frase mais longa e sem pausas foi essa minha que mais parece que sai correndo antes que você possa terminar de ler. 

Já que não sei escrever o motivo pelo qual tenho tal imagem da liberdade, vou deixar que caiam aqui algumas cenas que me ajudem. 

Cabelo solto ao andar de bicicleta. Mão pra fora do carro na viagem da estrada. Correr pro mar pra furar uma onda. Rabiscar um papel branco até rasgar. Jogar balde de tinta na parede. Cantar alto quando toca a sua música. Banho de cachoeira. Um chute sem direção. Um pulo de pára-quedas. Rasgar blusas. Subir num impulso pra superfície depois de muito tempo prendendo o fôlego. Apostar corrida até a cozinha. Levantar a pessoa que você está abraçando. Andar pulando a parte preta do chão. Folhear um livro novo em 2 segundos e sentir o cheiro dele. E ter vontade de dançar no meio da rua a música que o mundo paralelo dos seus fones do iPod transmitem no volume máximo...

Liberdade cineticamente gostosa essa que tenho em mim.


sábado, 2 de abril de 2011

De dentro pra fora

Se pudesse, eu te encaixava no melhor lugar dos meus dias. No melhor horário, no pico do bom humor e com toda a atenção que você sempre mereceu. No meio da minha confusão da rotina e da cabeça, acabo perdendo em alguma caixa, mochila ou gaveta aquela saudade forte e constante que me fazia correr atrás de você não importava em que circunstâncias. Não entendo por que a distância se fez tão presente pra mim, de repente. O tempo continua aí, os dias têm a mesma quantidade de horas que sempre tiveram. E você...ah, meu bem. Você ainda é o mesmo, com seu carinho pontual, seu sorriso de ressaca, seu abraço confortante e sua atenção, que mais parece um mar de consideração. É um conjunto que me faz calar a boca. Que me faz agradecer em silêncio e concluir que qualquer insatisfação, nesse caso, teria a mesma lógica que há em chutar uma parede. 

Pois bem, o que me deixa tão inquieta no meio de tanta estabilidade? É melhor começar a procurar em mim, em vez de catar na paz externa o motivo da minha aflição. Em vez de procurar no dia ensolarado o motivo da minha chuva. Em vez de tentar entender minha seriedade olhando pros sorrisos lá fora. Vê como não tem sentido?  A grande verdade é que não parei pra ME pesquisar. Pra vasculhar AQUI dentro o que realmente está acontecendo. Esperei que as opções externas se esgotassem. Agora sobrei. Confesso que estava com medo de descobrir o que se passa aqui dentro. Vai que essa consciência tá sabendo mais do que eu? Geralmente ela fala coisas bem interessantes. Panoramas que esclarecem as ideias. Respostas que eu andava procurando há tempos. Então, eu paro de fugir. Me rendo a mim mesma. Tragam o espelho. Quero ver o que ele diz.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Restrito

Não me leve a mal. Mas é que vivo assim, em fases. E às vezes, quando você tenta se aproximar, tenta ocupar essa parte do território que é sua, tem uma coisa em mim que me chama pra mim mesma. Entendeu? Eu me chamando pra estar comigo. Isso pode parecer delirante e, de fato, mentalmente preocupante. Mas não, amor. É assim...às vezes eu me sinto a melhor pessoa ao meu redor pra estar junto. Conversar, deixar o tempo passar.  E assim passo longos minutos. Eu, e eu. E isso é quase um decreto de quem chama pelo meu nome, aqui dentro. Simplesmente, eu recuo. Prefiro silêncio. Paz. E nenhuma insistência até hoje conseguiu me trazer de volta dessas horas tão introspectivas, que sinto não saber lhe explicar por que existem. Só sei que o motivo não está em você, que tanto me impressiona e fascina a cada dia. Está em mim, oras. Mas veja bem, você continua tendo a chave de casa, a chave do meu sorriso, da minha fala e do meu carinho. Mas, estranhamente, nunca vai ter a chave de mim. Entende?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Um cansaço bem vindo

É cansaço sim, mas é daquele bom. Conhece? Quando você se esforça, sua, respira ofegante mas, ainda assim, se sente estranhamente feliz. É cansaço de satisfação. Posso até falar em realização. E não venha me dizer que a pouca idade ainda não me permite entender o que é ser realizada, sentir-se completa. Já disse a você que a vida é  por etapas, e sim, é possível distinguir o gostinho de cada uma delas. No meio da correria que recomeça, sinto um ar novo. E degusto lentamente qualquer coisa que me faz sorrir junto com a fadiga. Algo parecido com alguém que degusta suado, cansado e com as pernas latejando após uma trilha de cinco horas, uma vista desejada. E um pôr-do-sol alucinante. Que se faz mais belo ainda pra quem subiu até lá pra ver. Só estando lá no alto pra entender. Só lá em cima é que o cansaço vira seu amigo, e você, ainda que destruído, pode abrir um sorriso só seu. Arduamente conseguido.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Em nome da confusão

Em nome de todos os confusos deste mundo nada claro, eu peço que não se desesperem. Afinal, você que pensa ser íntegro mal sabe que as tuas partes estão em constante discussão. Há dias de paz na mesa redonda de mim, de você, de todos nós. Mas a confusão faz parte, e é para decifrar esse quebra-cabeça da gente que muitos de nós encontram força, coragem e, principalmente, ganham experiência (que diga-se de passagem, está aí para ser construída por você). Então, defendo os confusos. A confusão não é sinal de imaturidade, de burrice por não saber o que fazer, de falta de controle de si mesmo. Não. Esqueça. A confusão é simplesmente o terreno primordial pras tuas maiores conquistas, satisfações e realizações pessoais. Entende? Quando você pede coragem, ganha a oportunidade de ser corajoso. Quando pede determinação, ganha a oportunidade de ser determinado.  Ao pedir pra que as coisas dêem certo, você também ganhará a estrutura pra que isso aconteça, ganhará as ferramentas. E quero que entenda a confusão como parte do kit. Estar confuso significa que a parte que pensa brigou com a que sente que discutiu com a que age que expulsou a que espera que gritou com a que só olha. Mas veja, não é o fim do mundo. É só o pontapé inicial pra um novo ciclo de clareza que logo vem por aí. É por causa dela que os pensamentos vêm a tona, que são convidados para uma nova reunião em sua homenagem, que pede socorro. A confusão pode não ser bem-vinda pros aflitos, mas é ela que abre a porta pra calma voltar pro seu devido lugar.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Fragilidade

O que quero escrever já passou. Digo, no tempo, não na cabeça. Geralmente venho aqui gritar quando a ferida ainda está aberta, pulsante, viva e fresca. Mas dessa vez a nova rotina só me deixou vir hoje. E como toda dorzinha, por menor que seja, deixa uma leve cicatriz, ainda vale mexer nela por aqui.
Um dia desses falei sobre gelo. Gelo interno, entende. Agora, abraçando a inconstância, quero falar de fragilidade. Porque resolveram tocar num espaço reservado, mexeram no calo que eu não sabia que carregava aqui comigo. E aí, meu amigo, a sensação estranha de repentinamente derramar água pelo olho é incontrolável. E eu, cheia de mim, achava que isso não era de lei. Mas é. Eu, você, todos eles têm um cantinho assim escondido, onde qualquer armadura vira pó. E a gente mantém a postura e fica de pé quando ninguém vem mexer onde não deve. Provocar o que não conhece. Explorar sentimentos dos quais não têm posse. São meus. Não venha testar. Não venha confundí-los, explorá-los mais do que o seu braço te permitiu alcançar. Muita coisa aqui não é sua. Então não me venha tentando acertar a senha desse cadeado. Cada erro, pra mim, é um golpe atrevido teu. Que veio apressado, mexer onde não deve. Que nem criança pequena, que sempre cai no chão quando tenta correr mais que as pernas.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Por algo a mais

De vez em quando ela se perguntava se não estava faltando algo. Alguma coisa parecia não ter preenchido seu devido lugar e agora deixava um vazio. Engraçado era que nunca parecia estar satisfeita. Sempre havia um detalhe faltando. Um ponto coçando. Interpretava a situação, concluindo que era uma amante de processos. 
Sim, deixe-me explicar. 
Ela amava a linha de chegada, mas preferia a corrida. Gostava do quadro pronto, mas o orgulho estava no movimento do pincel. Valorizava a medalha ganha, mas nada se comparava à emoção do jogo. Entende? Era uma garota de processos, meios, do "fazer", do andar das coisas e sua bela construção, muito mais do que o prédio todo erguido. Não significava que nunca visasse metas, resultados, finais felizes. Não, não era isso. Amava essas conquistas. Mas me refiro aqui a uma questão de preferência. Pois ela era inquieta, e se via na constante necessidade de estar buscando algo. E talvez fosse esse o problema de agora. Muita coisa se concluiu de uma vez só. Todo desejo realizado tomou posse de seu ponto final e a menina dos processos, buscas e procuras se viu estagnada. 
Mas não era essa a vida que pedira a Deus? Não eram essas as pessoas pelas quais rezou pra ter ao lado? Não era esse o orgulho que quis dar à familia e a ela mesma? E o gosto da vitória? Não era esse que tanto buscava em pratos desconhecidos por aí? 

"Pois bem" - ela dizia. "Pra continuar minha busca eterna, não preciso jogar fora todas essas coisas conseguidas. Guardo como amuletos, tesouros, relicário só meu. Guardo tudo. Mas me deixe continuar andando, como se ainda precisasse abraçar o mundo pra ser feliz."

E assim seguia. Buscando a mudança. O processo. A mutabilidade que, apesar de cansativa e cara, era o que a fazia se sentir produtiva; vencedora. 
E, acima de tudo, viva.


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pra você, um até logo

Faz um tempo que escrevo uma palavra, e apago. Escrevo uma ideia, e apago. Uma letra, e apago. Exatamente como você me deixou desde quando nos conhecemos. Sem palavras. Não sou de falar muito quando estou com você. Mas sou de rir bastante, e de aproveitar o teu sorriso até o último minuto. Mexer no teu cabelo até a última ponta. Curtir o teu abraço até o último aperto. E hoje eu curti o teu rosto até a última foto que meus olhos puderam tirar. Essas coisas, minha amiga, não chamamos de despedida. Eu chamo de um até logo. Até breve. Volte sempre. A gente se vê. E por aí vai. "Obrigada", você disse. Enquanto eu, internamente, agradecia eufórica simplesmente pela sua presença no meu abraço. "Os meus olhos só ficam vermelhos quando todo mundo sai da frente". Eu e minha mania de adiar essa singela manifestação de agonia do corpo, sempre. Como se isso me fizesse mais forte. Pois te digo que foi só fechar a porta para aqueles riozinhos vermelhos dos olhos transbordarem rosto abaixo. E dentro de mim, você já havia deixado marca. E começo a suspeitar que desde que nos conhecemos, você não parou de marcar minha vida com as surpresas que trouxe pra mim.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Gelo

Tudo bem, nada de pânico. Chegou o dia de você ir embora. E em breve estarei chegando aí. Coisa pouca, logo passa. O problema é que tenho sempre esses momentos de ficar me achando estranha, sendo a maioria deles quando você se afasta. E quando cavo aqui dentro pra saber o que diabos me ocorre, sempre acho a mesma resposta boba que qualquer um consideraria uma grande besteira: penso ter uma peça fora do lugar simplesmente pelo fato de estar sentindo qualquer coisa que seja com uma intensidade que não esperava. Tem gente que chama essas coisas pelo bom e velho nome de 'amor'. O rei das generalizações do mundo moderno. Outros amenizam pra 'carinho'. Eu restrinjo o foco pra 'saudade'. E assim vou procurando saber o nome dessas coisas que invadem o portão de mim, que tranquei a sete chaves. Tem senha de 4 dígitos e reconhecimento da digital. O problema foi não prever que você poderia achar um outro caminho sequer por aqui. Algum lugarzinho vulnerável e desprotegido, ainda não calejado pelos truques dessa vida. Não que a experiência seja grande nesses meus áureos e abençoadíssimos 18 anos, mas deixem-me falar até onde o tempo me permitiu alcançar então. 
Agora o cadeado já está quebrado, a senha decifrada com sucesso e você ainda brincou deixando tua digital marcada aqui na pele. Burlou o sistema, as regras de mim, quebrou os padrões e sorriu pra que eu amolecesse de vez. E no início eu me preocupei. Me preocupei com o espaço que estava sendo tomado tão rápido. Um intruso completo. E me permita dizer que, agora, a preocupação foi pro final da fila das sensações que você vem provocando. Sabe-se lá porque ela está sempre me acompanhando. Não leve a mal. É que eu sempre tive um gelo que faz parte de mim. Gelo dentro, assim. Entende? Uma camada sólida. Gelada. Gelada. Gelada. 

E, sinceramente, desde o dia em que você apareceu, não consigo imaginar para que ela me serve.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Por outro ângulo

E ela estava amando essa história de o verão ser mais intenso esse ano. Ter mais sol. Mais sorriso. Risada de doer a barriga. Ter pôr-do-sol mais bonito. Vento mais gostoso. Bronzeado mais fácil. Cerveja mais gelada. E principalmente, pensava ela, gente mais interessante. Não era lá muito sociável, muito comunicativa, extrovertida e essas coisas. Mas esse ano, era ela quem buscava conhecer. Conhecer gente e, acima de tudo, conhecer a menina que havia dentro dela. E que há muito não dava o ar da graça por ali.
Nessas horas, em que tudo parecia mais, mais e mais, a consciência logo tratava de explicar.

"O sol não ficou mais forte. Nem o vento mais gostoso. Nem o verão é mais verão. O que existe, na verdade, meu bem, é você abrindo os olhos de um jeito diferente. Quando a gente muda, o mundo muda com a gente. E aí está você. Com o mesmo vento. Com o mesmo sol. Só que mais livre. Mais leve. Mais feliz".

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Boas vindas

Sim, eu sei que a saudade aperta quando a gente tá longe. Eu conheço a saudade. Nós já conversamos...já até perguntei a ela se não podia aliviar a barra às vezes. Mas ela, esperta como sempre foi, se disse essencial, e falou ainda que apesar de devastadora, é ela que mantém de pé esses amores que de vez em quando tropeçam por aí. Mas você, meu bem, não tem me deixado muito ser amiga da saudade de uns tempos pra cá. Você fez ela crescer tanto que me deixou pequenininha com minha máscara de resistente-e-imune-a-essas-sensibilidades-e-frescuras e me fez sentir sua falta como uma criança sente falta dos pais quando viajam, do cobertor especial, da bagunça na cama dos pais e dessas coisas mil que constroem nossa vida. Mas, não somos crianças, meu amor. Sei que logo você chega. E quando eu te encontrar, a saudade trata de te explicar também que diabos ela estava tramando esse tempo todo. Afinal, dois ímãs deixam de se atrair quando se aproximam depois que um longo afastamento? Que nada. 
A Paraíba tem amanhecido com cada sol, que você não imagina. 
Mas perde pro verão no meu sorriso. Só esperando você chegar aqui.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Boa viagem

Esse ano ela havia prometido que acertaria na mala. Tudo bem, ela não era boba. Sabia que o excesso de roupas sempre existiria. Sabia que voltar para casa com blusas intactas era um fato que se repetia a cada ano. E sabia que não era hoje que entraria no mundo das estranhas criaturas compactas e econômicas em suas bagagens. Não era aos panos que se referia. O que havia sabiamente prometido era que deixaria em casa a sacola dos problemas. Todos os anos, essa inconveniente bagagem de mão acompanhava a sua viagem pro paraíso, não cabia no compartimento da aeronave (o que causava um desconforto nas pernas durante todo o vôo) e, estranhamente, rasgava uma das alças durante o desembarque. Era assim, e não se sabia explicar o motivo. Talvez o próprio conteúdo da sacola já falasse por si só. Esse ano, então, seria diferente. Não foi um decreto. Não foi um esforço. Foi a pura e espontânea felicidade que havia tratado de aposentar os problemas. Esse ano era dela. Essa criatura (sim, a felicidade) não anda por aí em qualquer esquina, mas, quando resolveu dar o ar da graça, chegou em onda. Com uma força e elegância inimagináveis. Tomou as rédeas da vida da menina cansada e séria e dominou, num piscar de olhos, o mais incrível turbilhão de boas energias, boas sensações e bons momentos que agora caíam do céu como chuva forte e refrescante. Ela tinha esse poder, a felicidade. O sorriso da menina de olhos castanhos passou a não mais caber no rosto, e então ela agora distribuía por aí. " É verão" , dizia ela. " É verão no Rio de Janeiro. Mas é verão em mim também". E em alguns momentos, quando chegava na paz de sua casa, ela largava a bolsa no quarto, olhava para a felicidade em pé, ali na sua frente, e logo dava um abraço, sem saber como poderia demonstrar estar tão grata. E brindavam juntas, com cerveja bem gelada, essa coisa intangível e imprevisível que carinhosamente chamavam de vida.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Pra não doer demais

Existem pessoas que simplesmente estão de passagem. Você pode sentir saudade. Querer que volte. Que o filme se repita. Mas não sabe que elas entraram na sua vida para realizarem a dolorosa função de saírem dela um dia. Aqui no meu desabafo ninguém morreu não. Ninguém desapareceu, nem deixou de existir. É gente que continua existindo depois sair pela porta dos fundos. Mas algum dia, não se sabe por que nem muito bem a partir de quando, a pessoa foi a peça perfeita no quebra-cabeça da sua vida. Mas, sendo a vida um processo, uma coisa fluida, mutável, inconstante e absolutamente imprevisível, deixe-me revelar a você que todas as peças mudam de forma nesse jogo. E simplesmente um dia você acorda sem encontrar o encaixe perfeito que existia anteriormente. E aí parece que fica um buraco. Parece que a coisa desanda. Mas é só a vida te cobrando um tempo pra que tudo se ajeite novamente. Então outra peça toma o lugar da antiga. Trazendo a harmonia que você tanto se esforça pra ter consigo, sempre. Mas que graça haveria se todos os encaixes de gente na tua vida fossem perfeitos? Graça nenhuma, eu te digo. A dor da despedida não é pior que a dor silenciosa da rotina. É melhor tirar o curativo de uma vez só, do que puxá-lo lentamente, ponta por ponta, e você já está cansado de saber. Toda pessoa incrível que sai de nossas vidas do dia pra noite, toda peça que muda de forma pra você é um curativo puxado em 1 segundo. Quando você tenta remoer o ocorrido, tenta voltar, se martiriza forçando um contato que já não existe mais, que já não faz mais sentido a não ser na ilusão que você mesmo constrói por medo de enfrentar a coisa de cara, quando age desse jeito, está puxando o curativo da forma mais lenta que pode. Mais dolorosa. E sem assoprar.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Aos editores

Imagino como deve ser a vida desses cronistas de jornais e revistas de renome. O prazer de escrever; de correr com a ponta do lápis linha por linha em um papel de rascunho qualquer; de apressar o passo atrás das letras quando elas começam a caminhar com pernas próprias, termina industrializado. O texto tem que sair. O prazo tem que ser cumprido. Os leitores estão esperando, e tempo, desde que você nasceu, é dinheiro!Não...palavras são dinheiro. Mas então, eu acredito que esses escritores devam ter um momento a sós com seus rascunhos. Porque não há coração que segure tanta artificialidade quando o que mais se precisa é de um bom e espontâneo desabafo em rabiscos. Palavras tão gritantes que parecem caladinhas quando deitam no papel. E a tua dor? Logo se cala também. Ainda que provisoriamente. Sim, eles têm desses momentos. Se trancam no banheiro e em vez de pegarem a gilete para maltratar os pulsos, em vez  de colocarem a escova de dentes na garganta- como uma adolescente de corpo perfeito- ou em vez de jogarem água gelada na nuca pra passar a ressaca, eles param. Sentam. Pegam dramaticamente um pedaço de lápis ou qualquer coisa que escreva. Um papel amassado do bolso. E se deleitam com os riscos. E o prazer não se descreve nessa hora. É a dose de palavras que pediram o dia todo. Como a dose de uísque que pede o alcóolatra em crise. É a dose de expressão que aquela dorzinha aguda lá do fundo pedia para ter. Discreta, mas torturante. E, acima de tudo, humilde. Porque não queria mil olhos lendo a sua versão escrita. Não queria os holofotes que recebia do segundo caderno do jornal. Da sessão especial da revista. Só queria estar ali, com seu fiel dono em desespero. Pura, simples, escrita, sincera, rápida e espontânea. Ufa. Desculpe. Achei que devesse saber disso.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O que há de bom na inveja.

Você já devia saber que sempre haverá esses maus elementos. Sempre que a tua felicidade chega ao pico, é preciso lembrar que a raiva de alguns também aumenta. Quanto mais alta for a escada, mais baixo será o que ficar parado no chão. Então, sempre que o teu bem-estar atingir níveis extremos, a inveja lá embaixo também atingirá. Então não se preocupe. Eu já disse e repito pra que você esqueça esse rastro negro que temem em colocar nos sorrisos mais felizes, e viva o que quiser viver. Pense pelo lado bom. Não é mais gratificante atingir algo quando se nada contra a correnteza? Quando há obstáculos no caminho? Assim são os invejosos. Fazem de tudo pra frear o teu êxito. Mas acabam tornando a linha de chegada um mar de rosas ainda maior. Afinal, não existe doce sem o amargo. Não há felicidade sem a lágrima. E não há prazer nesse mundo que se sustente sem a dor.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Sobre felicidade.

Felicidade, pensava ela, era gostosa assim porque era uma das coisas mais intangíveis que existiam nessa vida. E só vinha em ondas. Assim, de repente. Sensação de anestesia. Coisa invadindo mesmo. Chutando a porta de você e entrando como rainha, já conhecedora da casa que havia deixado por uns tempos. Talvez estivesse de férias...mas nao importava. Dessa vez chegara forte. Ou talvez fosse ela que estivesse fraca? Também não importava. O que realmente devia ser levado em conta é que a felicidade havia chegado. Era meio rosa. Amarela. Laranja. Quase um sol se pondo. Não! Nascendo. Sim, porque agora as coisas nasciam na vida dela. Fazia questão de aniquilar as velhas. Pois não eram lembranças. Eram lixo. Lixo podre. E no lixo havia dias, momentos, acontecimentos pontuais e, principalmente, pessoas.
Já havia feito a cova do ano de 2010. Orgulhosa estava só do finalzinho dele. Mas o final era tão disfarçado de 2011 que podia vir pra ala das coisas novas. E realmente importantes. E que todo o resto se apagasse. Era assim que pensava. Era assim que se sentia. E tinha todo, mas todo o direito.
Felicidade...repetia ela. Respirando um ar novo.
Felicidade. Parecia um fantasminha. Ela não via. Mas sentia a felicidade brincar com sua boca, colocando sorriso bobo e fácil. Ouvia a risada de dentro dela mesma. E sentia as cócegas que a vida agora lhe fazia.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Tempo rei

Ah, ela tinha saudade sim.
Dessas coisas que produzem sorrisos de graça. Tinha saudade de dormir até tarde. De sair pro sol e só voltar pra casa quando ele voltasse também. E, ainda por cima, tendo o prazer de degustar aquela longa despedida de todos os fins de tarde, para a qual a sua cidade sabia ser o melhor palco do mundo. Tinha saudade dos 18 anos que sentia não ter completado. Saudade da bicicleta na orla, com vento. E sem relógio. Saudade da cerveja com mesa na rua. Do futebol. Sentia falta de sair e voltar com a manhã lhe pedindo pra ir pra casa. Fazia falta também o cinema, não perder um filme sequer. Sentia saudade do namorado, pra quem nunca havia tido muito tempo. Até os dias de chuvas torrenciais faziam falta. Porque esses dias, ao contrário do que pensam, não são de tristeza ou tédio. São dias de lugar aconchegante, livro bom, todo mundo na mesma casa, baralho na mesa, conversa sem pé nem cabeça e a simples e prazerosa sensação de não fazer absolutamente nada.
Sim, alguns diziam que ela estudava demais. Que se preocupava demais. Que era irritada demais.
Mas ela sabia o que estava fazendo. E se tinha algo de que ela não abria mão, era de um objetivo traçado. Entrou na cabeça, pronto. Só sossega quando puder aplaudir toda a sua dedicação. Que leve meses, 1 ano, 2 anos, 3 anos. Isso não importava. O que queria era a conquista que havia saído pra caçar.
Mas isso era caro. E ela, assim como todos, não tinha energias infinitas. Torcia pelo fim disso. Há tempos que não se reconhecia mais. Pela cor pálida que já a incomodava. Pelo sono acumulado. Pela grosseria que às vezes saía de sua boca pra quem não merecia pagar por isso. Ela não era assim.
Era mais livre que isso.
Talvez fosse drama, pensava. Mas logo sentia que não. Estava no seu completo direito de pedir arrego. De implorar pela passagem rápida dos dias e dessa rotina já forçada, automática, desgastante e difícil. Sim, difícil. E não ouse dizer a ela que ela ainda não conhece as verdadeiras dificuldades da vida. Cada um atravessa os obstáculos de acordo com sua experiência de vida e/ou condição não escolhida. E enquanto fosse aquela menininha em crise, estaria exausta e não a enxergaria em seus próprios olhos castanhos, toda manhã quando se encarava no espelho. Até a imagem a incomodava. Porque dentro do corpo cansado, mas resistente, havia uma alma já em pedaços, gritando com todas as forças pela fuga.
Achavam que tudo isso era pela fase decisiva que atravessava nos estudos.
Mal sabiam eles...que, além da cabeça derrotada, da perda excessiva de peso que não havia procurado e dos olhinhos querendo dormir, o coração tinha dado trabalho esse ano. E pedia, com toda razão, por momentos de renovação, de ânimo e de vida.

"Já vai passar" , repetia baixinho, todas as noites, antes de dormir.
"Já está passando", respondia outra voz, alguém que ela não sabia dizer quem. Mas que a confortava toda vez que fechava os olhos.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Surto


'Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma. Até quando o corpo pede um pouco mais de alma.'

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Fim dos moldes

É um apelo. A única coisa que peço. É que este mundo aceite mudanças. Que não haja repressão quanto à personalidade. Que não haja depressão eterna e dramática pelo fim de um grande amor. Eu peço que aceitem, todos os dias, a mutabilidade da vida. Vocês sabem (eu sei que sabem), que a vida é um processo. E como tal, não permite estagnação. Definir-se É estagnação. Tem dias que você acorda com aquela espinha no rosto. Outros dias, parece que cresceu mais cabelo. Ou então, acordou mais magro. Às vezes acorda com uma vontade louca de comer doce. Outras vezes, acorda sem vontade de acordar. E quando o dia realmente começa, tem tanta gente nova que aparece. Mas o que eu quero destacar é aquilo que você teima em negar. Tenho certeza de que, a cada dia, suas vontades mudam também. Às vezes dá vontade de inovar. E você se prende. Porque toda uma platéia está a te vigiar. Por favor, esqueça. Por favor, eu peço que valorize a vontade de ser outro. Se isso não for prejudicar ninguém, faça. Reprimir desejos é a pior tortura que alguém pode fazer a si mesmo.

Valorize a mudança, meu amigo.

Porque já disse a Biologia.
Só evolui a espécie que muda.