Nas vezes em que cheguei mais perto de Deus, eu estava apreciando a expressão de algum artista. Seja no teatro, em alguma cena de filme, num trecho de um livro ou balançando nas ondas de uma música, o que vi de mais divino no mundo foi pela janela que algum artista abriu pra mim.
Muitas vezes, gasto horas pensando como que pode um cérebro humano fazer as conexões que faz a cabeça de um artista e, como resultado, gerar sons, imagens, palavras e expressões corporais carregados de tanta sensibilidade e potência a ponto de eu voltar a amar o mundo de novo. De eu voltar a acreditar que ele é bom como era antes, como nos dias em que eu sentia o cheiro da minha mãe ao entrar no quarto dela domingo de manhã. Volto a provar da minha doçura, quase tão doce quanto as cocadas que a minha avó fazia nas férias e o sorvete que amávamos no verão.
Veja bem: no canto do meu privilégio, há muitos dias nos quais não amo o mundo. Aquele amor de querer abraçar, de estar perto e não desgrudar nunca mais...não, não amo. Não chego a sentir ódio mas eu olho o meu entorno e me questiono se é só isso mesmo que tinha pra ver aqui. Me pergunto se uma planta é só uma planta, se a rotina dos carros, prédios, sons e coisas são isso e pronto. Entende? Com um coração partido mesmo, de decepção amorosa, eu me vejo cabisbaixa com as coisas que meus olhos alcançam e resolvo brigar com o mundo até a indiferença dele com a minha birra me deixar ainda mais raivosa e exausta.
De repente, porém, algum carinho invisível alisa meu corpo sob a forma artística com que alguns cérebros funcionam nesse mesmo mundo. Eu olho uma certa cena de teatro e penso que uma fresta do quarto de Deus se abre bem ali, naquela expressão visceral de um ser humano que é uma coisa e que também é outra; naquele exato minuto no qual não sei quem ele é mais e já fui tomada pelo impacto. É na hora em que leio algum trecho de Clarice Lispector imersa no Jardim Botânico que eu volto a amar o mundo como se tivesse sido agraciada com a resposta maior do mistério da vida. Só eu, com a resposta fresquinha bem dentrinho da minha alma. Um sorriso de canto de boca, meio faceira até, entrega o fato de que eu descobri algo importante sobre a existência de todos nós bem ali, na letra daquela música. Saio orgulhosa, como se o artista até soubesse que eu entendi a mensagem; que eu fui tocada pelo amor maior e que a vida "não é só essa mesmo" do carro, do chão, da parede e do ar. Percebe? Eu saio gigante do musical da Elza Soares e também perplexa e solene, pois me impressiona e sempre impressionará o fato de que em uma vida de TANTA dor, ela deixou um ouro artístico, muita pista e muita mensagem até o último minuto. Eu cresço o peito e me armo de carinho só de lembrar que, no mesmo chão que eu piso, Clarice Lispector pisava e via além do cão, do mato, do ovo e da galinha. Via com olhos mágicos, sob um prisma que um artista tem pra ver o mundo e que, por algum motivo nobre, compartilha conosco pra que a gente veja também.
Todo artista me causa esse efeito "recarga", de voltar a me encher de dúvida sobre o que é e o que não é. De questionar, mas sem a raiva agarrada no pé da garganta. Dúvida de explorador curioso achando que tem mais coisa embaixo da pedra. É justamente duvidando do mundo que é possível gostar dele de novo. Então gosto e desconfio que os artistas são, eles próprios, a nesga do céu onde tanto queremos estar.